Sobre trens, ônibus, bicicletas e pessoas | Por Luiz Augusto Pereira de Almeida

Sistema de transporte público tipo VLT, no centro de Zurique, Suíça. (Foto Carlos Augusto | Jornal Grande Bahia)

Sistema de transporte público tipo VLT, no centro de Zurique, Suíça. (Foto Carlos Augusto | Jornal Grande Bahia)

A expansão das ciclofaixas/ciclovias em São Paulo reforça a percepção de que a mobilidade precária é um dos fatores que mais conspiram contra o bem-estar dos habitantes. Distâncias grandes entre os lares e os locais de trabalho e estudo, vias inadequadas, transporte público insuficiente e, muitas vezes, de má qualidade e imensos congestionamentos consomem a saúde e tempo precioso das pessoas. Por isso, os imóveis localizados perto de terminais metroviários e em áreas com mais facilidades de locomoção tendem a ser mais valorizados.

O problema começa com a inversão dos modais, pois a maioria das viagens deveria ser feita sobre trilhos, em trens e metrôs, mais seguros, rápidos, confortáveis, econômicos quanto ao consumo de energia e não poluentes. Segundo dados da São Paulo Transporte (SPTrans), responsável pela gestão do sistema de ônibus na capital, são cerca de seis milhões os passageiros transportados por dia. No Metrô, conforme números deste, são 4,7 milhões.

É muito ônibus (15 mil veículos) e pouco metrô, para uma cidade com aproximadamente 11 milhões de habitantes (Paris tem uma estação de metrô para cada sete mil habitantes. São Paulo, uma para cada 168 mil). Por isso, a maioria das pessoas que usam os transportes públicos em geral passa mais de uma hora para deslocar-se de um lugar ao outro, todos os dias. O mais grave é o dado apontado por pesquisa realizada da Companhia do Metropolitano: os que perdem mais tempo são os que moram mais longe. Ou seja, os que mais precisam de um sistema eficaz.

O ônibus é a pior opção. Demora, superlotação, empurra-empurra, desconforto, insegurança, poluição e falta de higiene são queixas constantes dos usuários. Acresça-se a pouca eficiência no uso do sistema viário, com excesso de linhas em avenidas sem infraestrutura para tanto, provocando mais trânsito e exigindo mais investimento em manutenção.

Diante desse quadro, é fácil entender por que, segundo a SPTrans, apenas 55% das viagens motorizadas são feitas em transporte coletivo, com grande uso, portanto, dos automóveis particulares. E, então, como sempre ocorre na História da República, surgem as soluções mágicas, sem planejamento e estudos aprofundados de viabilidade e execução: agora, a redenção da mobilidade urbana em São Paulo chama-se ciclovia. A Prefeitura anuncia que São Paulo terá mais de 400 km até 2016. Na verdade, mais de 80% são ciclofaixas, pistas mais simples, curtas, perigosas e menos utilizadas. O número de paulistanos que pedalam diariamente para se locomover cresceu 50% em 2014, em comparação a 2013, segundo o Ibope. O número de ciclistas cresceu de 174,1 mil para 261 mil moradores, pouco mais de 1,5% dos 11 milhões de habitantes da cidade.

Em contrapartida, de acordo com números divulgados em 2013 pela Secretaria de Saúde do Estado, a cada dois dias, pelo menos um ciclista internado em um hospital público de São Paulo morre em consequência de acidente de trânsito. Nove usuários de bicicleta são internados diariamente na rede pública paulista. Foram 3.200 internações em 2012. O Sistema Único de Saúde (SUS) gasta 3,3 milhões de reais por ano com o tratamento de ciclistas acidentados no trânsito em São Paulo.

Nada contra a utilização das bicicletas. Porém, as ciclovias/ciclofaixas não podem ser estreitas faixas improvisadas, espremidas entre as pistas e o meio fio das calçadas. Automóveis, ônibus e caminhões, separados apenas por uma faixa pintada no chão, são ameaças permanentes aos ciclistas, mesmo que estes e os motoristas sejam sempre atentos e cumpram todas as normas do trânsito (o que também não ocorre). Dos mais de 400 quilômetros de ciclovias na cidade, poucos trechos oferecem segurança e boas condições de mobilidade, além de roubar espaço precioso de circulação urbana, já que seu uso é mínimo, em especial nos dias úteis.

É óbvio, portanto, que a mobilidade urbana continua sendo um grande problema paulistano. Para solucioná-lo é preciso planejar melhor, aperfeiçoar a logística, as vias e toda a infraestrutura de transportes. Afinal, independentemente dos meios de locomoção, estamos falando de pessoas, cuja qualidade de vida, segurança e bem-estar devem ser a prioridade absoluta das políticas públicas.

*Luiz Augusto Pereira de Almeida é diretor da Fiabci/Brasil e diretor de Marketing da Sobloco Construtora.

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