Seguro de vida

Seguro de vidaJá em plena via pública, apalpa pequeno volume no bolso do paletó, desejoso que fosse apenas um sonho, um pesadelo.

Por Juarez Duarte Bomfim

Adalberto Gonçalves arrastava o seu corpanzil pelas ruas e praças da cidade, no caloroso verão daquele ano, oferecendo apólices de seguro a reticentes candidatos a clientes. Ele era obrigado a criar demandas e necessidades aonde não existiam; apostar em um futuro abstrato, intangível, no mais das vezes ameaçador, quando oferecia os indefectíveis “seguros de vida”.

Mas havia outros planos e contratos: seguro-saúde, seguro de carro, seguro de imóveis etc. Como Adalberto levava décadas na profissão, administrava certo plantel de clientes cuja visitação era para simples renovação anual de contrato. O trabalho tornava-se mais fácil. Isso o obrigava a ir de casa em casa, escritório em escritório. Suarento, bufando ao deslocar a sua enorme massa adiposa, suava em bicas e secava a fronte com um lenço empapado de suor, que já no início da manhã perdia qualquer serventia.

O seu permanente bom humor era então substituído por um rictus de dor e sofrimento estampados no rosto rechonchudo, só abandonados quando se refestelava em um providencial sofá para o momentâneo descanso, ou frente a um bom prato e bom copo, nas muitas e esperadas refeições.

Naquela manhã de terça-feira tocou a campainha do apartamento da Dona Silvana Queiroz, viúva já entrada em idades, que o requisitara para renovação de seguros. Trabalho maneiro, não teria que convencer a cliente de comprar nada, apenas rolar o que já existia.

Foi recebido à porta pela empregada Jacinta, que o mandou entrar. Ruidoso cãozinho, daqueles que cabem na palma da mão, da raça chihuahua, latia nervosamente, estranhando a sua presença.

A empregada o deixou na sala de estar, e foi ao interior do apartamento anunciar a sua chegada.

Tentando ignorar os latidos do minúsculo canídeo, fixava o olhar nos quadros, tapetes e objetos que ornavam com muito bom gosto o ambiente. Não demora e aparece dona Silvana. Antes mesmo de cumprimentá-lo, estabelece conversação com o seu animalzinho:

— Ronaldinho, não seja indelicado com as visitas… Pára, Ronaldinho… Olha que mamãe se zanga… Ronaldinho…

Parecendo encorajado contra o vetusto corretor, o cão latia e rosnava agressivamente. Ou assim tentava.

— Pára Ronaldinho. Deixa disso. Mamãe fica triste.

Mudaram de cômodo, para se reunirem no escritório da dona da casa. Silenciaram os latidos, e o roliço Adalberto como que esqueceu de tal fato, entretido no trabalho.

Logo, logo os documentos foram assinados e tudo resolvido. Ao acompanhá-lo à porta de entrada, gentilmente a senhora lhe oferece:

— Aceita um copo d’água, um café?

— Um copo d’água, por favor, responde Adalberto, secando pela enésima vez o suarento rosto. A senhora se retira para a cozinha, mas antes ordena:

— Sente-se!

Adalberto vira-se de costas para um confortável sofá, que parecia-lhe resistente, e involuntariamente larga o seu volumoso corpo sobre a macia superfície.

Por baixo das avantajadas nádegas ouve um barulho surdo, ploft. Em um átimo põe-se em alerta.

Dona Silvana volta à sala, chamando:

– Ronaldinho… Querido, onde está você? Ronaldinho…

Indelicadamente, Adalberto não se levanta para receber o copo d’água. Apenas fala maquinalmente:

– Obrigado.

A senhora continua a sua busca:

– Ronaldinho… Ronaldinho… Cadê você meu pequeno?

E desaparece pelos corredores e quartos do apartamento.

Adalberto rapidamente abandona o sofá. Ao olhar para baixo encara o corpo imóvel do cãozinho, esmagado.

Momentâneo pânico se apodera do corretor e, sem pensar duas vezes, recolhe o minúsculo fardo e deposita no bolso do paletó.

Dona Silvana continua a busca:

– Ronaldinho, Ronaldinho…

Quando ela retorna à sala, Adalberto aproveita para agradecer mais uma vez e se despedir. Ocupada na procura do canino, não o percebe. A empregada Jacinta, que a auxiliava na busca, é quem o abre a porta. Ainda ouve os resmungos:

– Menino traquino, brincando de se esconder da mamãe… Ronaldinho!

Já em plena via pública, apalpa pequeno volume no bolso do paletó, desejoso que fosse apenas um sonho, um pesadelo. De volta à realidade, carregando o fardo moral do pequenino cadáver às costas, sente-se cansado como nunca.

Pragmaticamente, pensa em se livrar do estorvo material que se encontrava no bolso. Perscruta a vizinhança e não percebe ninguém o observando. Com movimentos estudadamente negligentes, retira o inanimado do bolso e o joga na sarjeta, na entrada do bueiro. Com o pé empurra-o para o fundo do buraco. Observa o entorno mais uma vez.

Retira-se lentamente, sentindo-se o mais desgraçado dos homens.

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Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.