O Santo Daime e a iconografia cristã

Iconografia cristã exposta no museu do Louvre em Paris. Artigo analisa a relação existente entre a iconografia cristã e a Doutrina do Santo Daime.

Iconografia cristã exposta no museu do Louvre em Paris. Artigo analisa a relação existente entre a iconografia cristã e a Doutrina do Santo Daime.

INTRODUÇÃO

O objetivo desta presente comunicação é de investigar a relação existente entre a iconografia cristã e a Doutrina do Santo Daime, culto cristão surgido na Amazônia Ocidental, criado pelo maranhense Raimundo Irineu Serra e que tem como peculiaridade a ingestão, nos seus ritos, da bebida de origem indígena ayahuasca, rebatizada de daime.

Considera-se que o cristianismo católico transplantado para o mundo ibero-americano aqui encontrou distintas configurações civilizatórias, culturais, religiosas, linguísticas e étnicas, combinando heranças hispânicas e portuguesa com aborígines e africanas. Nesse encontro de culturas ocorre a troca, simbiose, influência recíproca, ao mesmo tempo que as civilizações se recriam, desenvolvem e mudam.

Relativo ao Santo Daime, observamos que este sistema de crenças constitui um corpo doutrinário único, consistente, completo, universal, e não a soma de diversos elementos, como em outras linhas espirituais sincretistas, não originais. Surpreende a riqueza cosmológica da doutrina daimista.

Podemos assinalar também que o Santo Daime, nascido no seio da floresta amazônica, é uma expressão de religiosidade cristã com características de “culto periférico” que se expande levando consigo a marca do “diferente”, do “estrangeiro”, do “dominado”, do “aculturado”.

Sobre o tema proposto, investigar a relação existente entre o Santo Daime e a iconografia cristã, neste estudo argumentaremos que não existe analogia estreita entre a matriz católica e a doutrina daimista, e sim peculiares distinções.

E esta santa doutrina replantada por Nosso Senhor Jesus Cristo e trazida ao Brasil por ordem da Virgem Mãe Divina ao Mestre Raimundo Irineu Serra Juramidã – com o seu panteão hierárquico constituído pelos “seres divinos da Corte Celestial” – pode ser considerada o cristianismo da floresta, a doutrina e a luz da floresta.

A ICONOGRAFIA CRISTÃ

Iconografia é a arte de representar por meio das imagens. Nas igrejas católicas encontra-se uma vasta e muitas vezes riquíssima iconografia religiosa de alto valor artístico e cultural, na forma de esculturas, pinturas e outras configurações de representações do sagrado.

Entretanto, a iconografia cristã só vai aparecer na primeira metade do século III, pois nos dois primeiros séculos da nossa era as comunidades cristãs que surgiam eram muitas vezes pequenas e quase sempre clandestinas e de condição humilde, constituindo assim o meio social menos propício para o florescer de atividades artísticas.

E mesmo que no seio do cristianismo existissem famílias nobres e ricas, relacionadas com os ambientes artísticos e a tradição cultural greco-romana, tampouco ali se desenvolveram manifestações artísticas cristãs nesse primeiro período[1], chamado de cristianismo primitivo.

Considera-se que o principal motivo da não existência de iconografia cristã no cristianismo primitivo tem caráter ideológico: os primeiros cristãos, de origem judia, formam comunidades com uma forte tradição iconoclasta, por prescrição bíblica: “Não fareis para vós ídolos, nem vos levantareis imagem de escultura, nem estátua, nem poreis pedra figurada na vossa terra, para inclinar-vos a ela” [2]

Clemente de Alexandria (150-216), mesmo sendo um pensador simpático à cultura greco-romana, ressalta o caráter obsceno e sensual das artes plásticas. E quando se dirige aos artistas destaca sua incapacidade para aproximar-se ao mundo do espírito.

Tertuliano (155-220) chega a afirmar que foram os demônios que criaram as artes – aí incluindo a música. Conta Tertuliano que em tempos mais remotos não havia estátuas, e foi o diabo quem incitou os homens a criar estátuas. E os artistas, influenciados por seus diabólicos mestres, subordinaram a arte a seus próprios fins: a rebeldia [3].

Apesar de toda essa forte reação, aparece quase que repentinamente (Século III) uma arte cristã por todo o Império romano, e os historiadores procuram entender os motivos, obviamente de raízes culturais. Talvez a chave se encontre na conversão dos gentios iniciada pelo Apóstolo Paulo. Inicia-se então, ainda no Século I o afastamento dos cristãos do judaísmo e o aumento da influência da cultura pagã. O antigo pagão que tinha adorado e conhecido a seus deuses através da manifestação artística passa a desejar ver em imagens as figuras de Cristo e dos santos, assim como as cenas mais significativas dos livros sagrados.

Surge então uma iconografia cristã. Veneram-se as imagens de Cristo, da Virgem e dos santos: o culto das imagens foi expressão típica da religiosidade bizantina (Império Romano do Oriente) e obteve ampla difusão nos séculos VI e VII.

Porém, a reação iconoclasta contra o culto das imagens surge logo depois, nos séculos VIII e IX, compreendida como um conflito político entre os imperadores e o clero.

A iconoclastia nasceu no império bizantino ameaçado pelo islamismo. Aos olhos dos governantes, deveria servir para acabar com práticas religiosas que se confundiam com a idolatria, e para evitar a intervenção armada dos muçulmanos. Os bizantinos, a exemplo dos gregos clássicos, preferiam as figuras humanas. As lutas cristológicas e a interpretação do Corão buscavam uma espiritualidade pura e a escolha dos velhos temas artísticos que ignoravam a representação de seres vivos.

“A aversão às imagens santas vinha dos fiéis que viam, no perigo exterior (árabes) e no interior, o castigo do Senhor, provocado pelos ímpios adoradores de imagens. Alegavam ser imprudente provocar os muçulmanos, que rejeitavam as imagens porque eram mudas e não respiravam. A partir de 724, o imperador Leão III começou sua campanha contra as imagens e ordenou sua destruição. Os bispos ortodoxos reagiram a favor delas e o papa Gregório II (715-731) condenou a iconoclastia de Leão III. Mas o imperador prosseguiu sua luta contra as imagens e contra seus fabricantes. No Concílio Romano de 731, o Papa Gregório III condenou os profanadores de imagens e confirmou seu culto” [4].

A perseguição iconoclasta foi violenta, e houve numerosos mártires. Em 843, houve o restabelecimento definitivo do culto às imagens no Oriente. Assim Bizâncio retomou seu espírito. A arte sacra recebeu um impulso excepcional, assegurando-lhe, durante séculos, lugar de primeira grandeza.

A Reforma luterana também foi contra as imagens religiosas, até pelo fato da arte italiana da época estar muito relacionada aos hábitos ostentadores do Vaticano. Os protestantes não aceitaram o que consideravam idolatria de imagens e, por isso, retiraram de suas igrejas desde obras de arte até adornos. A reação da igreja romana foi implacável, com a Contra-Reforma, a instauração do Tribunal da Inquisição e gerou-se um interesse entre os católicos de se contrapor a qualquer ação dos reformistas e a arte religiosa passou a ser exaltada como uma arma poderosa contra as ditas doutrinas heterodoxas [5].

Como resultado da cisão cristã com o advento do protestantismo luterano-calvinista, quanto à questão da representação iconográfica de Jesus, Maria e dos santos percebe-se hoje em dia duas concepções e práticas.

Primeiro, o catolicismo não considera idolatria a veneração de esculturas ou a pintura das imagens dos santos, porque à sua vista o fiel pode meditar os seus exemplos e imitar as suas virtudes, recordar e honrar Nosso Senhor Jesus Cristo [6] ou o santo de ocasião.

Segundo, os protestantes – que protestam – e construíram o seu corpo doutrinário na negação do catolicismo, entre outras coisas, reafirmam o axioma bíblico já exposto: “Não farás para ti escultura alguma do que está em cima nos céus, ou abaixo sobre a terra, ou nas águas, debaixo da terra” [7]. Argumentam que os católicos praticam a idolatria, fazendo e adorando imagens, o que Deus proíbe na Bíblia.

Pergunta: e na doutrina do Santo Daime? Existe uma iconografia daimista?

Adiantamos a resposta e afirmamos que não. Não existe uma iconografia daimista, pelo menos na doutrina original criada pelo Mestre Irineu Serra e praticada nos quatro centros (igrejas) localizados na Vila Irineu Serra (Alto Santo), bairro semi-rural de Rio Branco, capital do Acre, onde originou-se a doutrina.

OS SÍMBOLOS DO SANTO DAIME

Na doutrina do Santo Daime existem três principais símbolos, ou referências simbólicas, que não se constituem em iconografia. Discorreremos brevemente sobre cada um deles.

Um símbolo central do Santo Daime é o Santo Cruzeiro, fincado em tamanho gigante, à esquerda de quem adentra o templo e orna também a mesa de centro do salão de serviços. Um traço doutrinário distintivo é que esta é a Cruz de dois braços, ou Cruz de Caravaca.

A Cruz de Caravaca surgiu na história da cristandade pela primeira vez em 1232, na cidade espanhola de Caravaca, em Múrcia. No Brasil, a Cruz de Caravaca chegou há muito tempo, trazida pelos primeiros colonizadores, na esquadra de Martin Afonso de Souza.

Tida como um poderoso amuleto, passou a ser adotada pelos cruzados, templários e missionários como símbolo de proteção. Popularmente os dois braços significam fé redobrada. É comum ouvir os daimistas dizerem que o segundo braço significa o retorno do Nosso Senhor Jesus Cristo.

São muitas as interpretações: para os esoteristas, por exemplo, o lenho vertical significa a cruz do espírito; e o lenho horizontal simboliza o plano material, tendo como resultado o Homem, que é um ser que se move no plano material com opção para ascender ou descender espiritualmente. A cruz lhe recordará a sua posição na escala evolutiva, e fará com que se centre no cruzamento do espírito com a matéria.

Ao lado da Cruz de Caravaca, a doutrina do Santo Daime também adotou o Santo Rosário católico. A palavra Rosário origina-se de rosa, flor da roseira. O Rosário é uma enfiada de 165 contas, correspondentes ao número de quinze dezenas de ave-marias e quinze pais-nossos para serem rezados como prática religiosa, entremeado da contemplação dos mistérios da vida, paixão, morte e ressurreição de Cristo, sempre relacionando essa caminhada com a Virgem Santíssima.

A devoção do Rosário teve o seu reflorescimento com as aparições de Nossa Senhora em Lourdes, na França (1.858) e Fátima, Portugal (1.917). Os rituais daimistas de Hinário (bailado) iniciam-se com a reza do Terço – a terça parte do Rosário – e logo após o rosário é depositado pela “puxante” no Cruzeiro da mesa de centro, o abraçando.

A partir de 2002, o Rosário, que era composto de três terços (150 ave-marias) passou a ser composto de quatro terços (portanto, 200 ave-marias no total). Foi quando o Papa João Paulo II inseriu aos mistérios existentes (gozosos, dolorosos e gloriosos), os mistérios “luminosos” que retratam a vida pública de Jesus.

A oração do Santo Rosário é considerada uma benéfica prática, impregnada de humildade, renascimento, caridade, pureza, penitência, perdão, perseverança, devoção e fé na salvação eterna.

Outro importante símbolo doutrinário é a representação da lua crescente com uma águia pousada no centro. Este símbolo está presente na bandeira do Santo Daime; pode compor a insígnia portada no peito direito do adepto – no centro da estrela de Salomão – e como elemento simbólico e decorativo do salão da sede de serviços.

Esta é a representação simbólica do mito fundante da doutrina, quando numa noite de lua cheia uma Senhora apareceu para o jovem Irineu Serra dentro da lua. “E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça” [8].

Consagrada como Mãe, Rainha, Lua Branca – identificada com a Virgem Mãe Católica, Nossa Senhora da Conceição, a Senhora passa a lhe entregar a doutrina do Santo Daime através dos hinos, que são as revelações dos mistérios divinos.

A Estrela de Salomão ou o “Selo de Salomão” é uma outra referência muito significativa para “os soldados do exército de Juramidã”, pois este é o símbolo que ostentam no peito. Também conhecido por Escudo ou Estrela de David, é uma estrela de seis pontas, formada por dois triângulos equiláteros, um perfeitamente invertido em relação ao outro, que contém, entre vários atributos, os quatro elementos alquímicos: o fogo no vértice superior, a água no vértice inferior, o ar na reentrância à esquerda, entre os dois triângulos e, por fim, a terra na correspondente reentrância à direita.

O hexagrama que é o Selo de Salomão reúne, na sua totalidade, além do conjunto dos elementos do universo, as qualidades fundamentais da matéria. Estas situam-se nas pontas laterais da estrela e correspondem-se, duas a duas, com os elementos: quente e seco para o fogo; frio e úmido para a água; quente e úmido para o ar; e frio e seco para a terra. Assim, na tradição hermética, o Selo de Salomão pretende exprimir, na sua aparente simplicidade, a complexidade cósmica.

O hexagrama também pode reunir os sete metais básicos: o chumbo, o estanho, o ferro, a prata, o cobre e o mercúrio – nas pontas da estrela e rodando segundo os ponteiros do relógio – e, ao centro, o ouro. O domínio alquímico desses elementos, na ciência esotérica, permite ao iniciado mover conscientemente o seu corpo astral e viajar com ele do plano físico a planos astrais superiores. O voo astral que o Daime possibilita.

Além desses signos aqui postos, admite-se no salão de serviços daimista fotos do fundador da doutrina (Mestre Irineu) e de adeptos proeminentes, alguns já falecidos, que contribuíram para a formação da irmandade – fotos de seo Leôncio Gomes, Tetéo, Madrinha Peregrina Gomes Serra, Francisco Grangeiro Filho e outros.

“NO SANTO DAIME TUDO SE SOMA” OU ECLETISMO E SANTO DAIME

Em 1974 o Padrinho Sebastião Mota de Melo lidera uma dissidência, deixando o Alto Santo e funda a sua igreja na colônia em que residia, área rural do município de Rio Branco, capital do Acre. Ali na Colônia 5 Mil organiza-se o CEFLURIS – Centro Eclético da Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra – que, como o próprio nome indica, desenvolverá um amplo sistema de crenças de caráter sincretista.

O sincretismo é a tentativa de conciliar crenças díspares e mesmo opostas e de fundir práticas de várias escolas de pensamento. Está associado em especial à tentativa de fundir e criar analogias entre várias tradições originariamente discretas, particularmente na teologia e mitologia da religião, afirmando assim uma unidade subjacente.

A liderança e o carisma do Padrinho Sebastião, assim como a curiosidade despertada por uma religião amazônica que fazia uso da ayahuasca, atrai para a Colônia 5 Mil contingentes de jovens de classe média, de comportamento social “alternativo” (hippies, mochileiros etc) provenientes em sua maioria do Sudeste brasileiro, que vão se tornando novos adeptos urbanos do Santo Daime.

A atração exercida pelo Santo Daime sobre aqueles que seriam seus novos adeptos corresponde a um fenômeno surgido em diversas partes do mundo, que logo chegou ao Brasil, nas grandes cidades, que é um movimento de contestação social, ganhando adeptos entre indivíduos das camadas médias urbanas, com alto grau de escolaridade.

Um dos nomes generalizantes que se dá a esse movimento é o de contracultura. Entre as diversas tendências contraculturais existentes destaca-se a “nova consciência religiosa”, formada por indivíduos representativos de trajetórias identificadas com o programa ético-político moderno, de tipo “libertário” e críticos da tradição, especialmente do “fardo repressivo” das tradições religiosas. Estes sujeitos originários do modelo individualista-laicizante, frequentemente educados dentro de padrões racionalistas e iluministas, mostram-se crescentemente atraídos pela fé religiosa, pelos mistérios do êxtase místico, pela redescoberta da comunhão comunitária e pelo desafio de saberes esotéricos [9].

Paralelo ao apelo por revoluções sociais e sexuais, parte da juventude do país escolheu por estudar e conhecer civilizações orientais e a recuperação do exótico, do diferente, do original, seus mistérios transcendentais e ocultistas. Nos idos de 1970, frente ao fracasso da resistência armada à ditadura militar, adotam uma forma de transformação mais individualista adotando ideias “hippies” e da “Nova Era” que começavam a chegar ao Brasil

Para MacRae [10] “o holismo místico-ecológico substitui crenças e práticas anteriores, e o repertório sobrenatural e espiritual dos recém convertidos passa a ser povoado por lamas tibetanos, iogues, orixás, chamas violetas, discos voadores, seres extraterrestres, cristais, pirâmides, os ensinamentos de Don Juan relatados por Carlos Castañeda e outros exotismos.

Entre essas inúmeras vivências e experiências esotéricas esses “buscadores” encontram uma religião popular do norte do Brasil, o Santo Daime, que a partir da década de 1980 se expande para as principais cidades brasileiras. Conforme Afonso: “Desde há cerca de vinte anos, o Santo Daime tornou-se um dos cultos da proliferação de novas religiões no cenário urbano do Sul do Brasil. Os aderentes são sobretudo pessoas das classes médias escolarizadas e jovens em particular. E há várias re-leituras pessoais com inspirações da espiritualidade New Age, misticismo oriental e ecológico, em particular por parte de um público flower-power” [11].

Ao se converterem a um novo sistema de crença, esses novos adeptos urbanos passam por mudanças em relação aos seus modos de vida e aos códigos intelectuais, e a racionalidade é posta em suspeição como modelo de explicação do mundo. Fundam-se novos códigos de ética e de conduta moral, reconstruindo o seu self.

Ao tempo em que se convertem a um novo sistema de crença e passam a ser influenciados por ele, também influenciam a nova linha doutrinária que surgia – a linha do Padrinho Sebastião – reinterpretando e ressignificando a cosmologia criada pelo Mestre Raimundo Irineu Serra, a ele entregue pela Virgem Mãe na forma e conteúdo dos cinco hinários da base doutrinária.

A não institucionalização religiosa ou um processo em vias de institucionalização, que ocorria no CEFLURIS na década de 1970, período de sua fundação, vai levar a que a estruturação da organização carismático-burocrática de porte internacional na qual se transformará nas décadas seguintes, constitua também um sistema de crenças assaz eclético e sincretista, buscando fundir tradições cristã, orientalista, xamanismo, umbanda e todo o cadinho de crenças que se vai apresentando a partir de então.

A ressignificação que a doutrina do Santo Daime sofre, ferida no seu cerne por esses novos adeptos, faz com que ela deixe de ser essencialmente cristã – como é insistentemente repetido nos hinos dos hinários – e abrem-se as portas para um “abuso” de ecletismo, que pode até ser considerado um desvio doutrinário, e o Santo Daime passa a ser considerado uma doutrina sincrética, descaracterizando-se, e aqueles que assim a interpretam perdem (infelizmente) a compreensão da riqueza cosmológica da doutrina daimista que, como já foi dito, constitui um corpo doutrinário único, consistente, completo, universal, e não a soma de diversos elementos, como em outras linhas espirituais sincretistas, não originais.

E essa ressignificação e reinterpretação que é feita da doutrina do Santo Daime vai influenciar o imaginário de todos os novos adeptos urbanos, incluindo aqueles que, críticos da linha do CEFLURIS, se autodenominam da “linha do Mestre Irineu” ou da “linha do Alto Santo”.

DE VOLTA AO COMEÇO: A INEXISTÊNCIA DE ICONOGRAFIA NO SANTO DAIME

Recebendo todas essas influências, nos templos daimistas passam a abundar representações iconográficas não só cristãs, mas também umbandistas e de outras linhas e sistemas de crença.

Constatamos que, mesmo entre os “velhos adeptos”, a prática de colecionar ícones católicos se institui, quando em suas casas passam a ter representações da Virgem Maria e de outros ícones cristãos. Muitas vezes essa prática é levada por seus filhos que ainda residem nos lares paternos.

Porém, é bom ressaltar que a Santa Doutrina entregue ao Mestre Raimundo Irineu Serra por ordem da Virgem Mãe não tem representação iconográfica. Por quê? O que lhe confere essa especificidade?

Vejamos: nos hinos dos hinários é repetido diversas vezes que a missão do Mestre Irineu é de “replantar a Santa Doutrina do Salvador”. Vamos entender o que é isso lembrando das palavras de Cristo Jesus: “não cuideis que vim destruir a lei e os profetas, não vim extinguir, mas cumprir” [12].

Ao dizer isso Jesus reafirma a tradição judaica, que a sua doutrina é a continuidade da doutrina dos antigos profetas judeus, porém incorporando um essencial novo elemento ético: “eis que eu vos dou um Novo Mandamento: Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” [13].

Sebastião Jaccoud afirma: “a maravilha desta doutrina é que ela tem seus fundamentos nos princípios. (…) Vai buscar os tempos primitivos, das tribos de Israel, Judá, Jacó, passando por Noé, Moisés e tantos outros que vieram em seus devidos tempos para disseminar os conhecimentos religiosos para aqueles que seguiam com eles, os parentes, a tribo. (…) De acordo com o que se lê nas narrações do passado, há toda uma linha que vai de Noé a Jesus Cristo dentro do povo judeu” [14].

Alex Polari, ideólogo daimista, um dos responsáveis pela reinterpretação e ressignificação da doutrina pelo prisma New Age, paradoxalmente reafirma essa tradição judaica na doutrina de Juramidã quando escreve: “a tradição cristã apoiou-se numa tradição anterior do povo de Israel, principalmente dos essênios, que esperavam o final dos tempos e o advento de um Messias. Seu líder era denominado ‘O Mestre da Justiça’ e esperava-se a sua reencarnação” [15]. Em outro livro, transcrevendo palavras do Padrinho Sebastião Mota de Melo, ele continua:

“- É o que está escrito. Ta tudo acontecendo de novo. Basta ler os Evangelhos e escutar os hinos. No Apocalipse já estamos. A gente só não sabe qual trombeta que está tocando. São 144.000 os que vão se salvar, né? A Bíblia não diz isso? A chave para nós é só essa. Renascer, compreender o que é a vida e lá permanecer. Vir aqui só em missão. Ficar livre da necessidade de encarnar” [16]. E Sebastião Mota continua a nos dar belas lições na rica verve polariana, que não transcreverei aqui para não nos alongar, porém recomendo entusiasticamente a leitura.

CONCLUSÃO

Bem, se os daimistas são – ou podem vir a ser – os “novos judeus”, “povo eleito”, “escolhido”… como se depreende da percepção do Jaccoud ou do Polari… não sei. Entretanto, que Mestre Raimundo Irineu Serra ao replantar a Santa Doutrina dos tempos de Noé e do Nosso Senhor Jesus Cristo se reporta ao judaísmo e ao cristianismo primitivo não resta dúvida.

Por isso, acreditamos que a não existência de uma iconografia daimista está nos seus fundamentos e origens: judaísmo e cristianismo primitivo. A incorporação da iconografia cristã e umbandista à doutrina do Santo Daime veio a posteriori, trazido por novos adeptos urbanos que influenciaram a formação eclética e sincretista da organização CEFLURIS e de pequenos centros “independentes”, com o caldo de cultura da ideologia “Nova Era” dos anos 1970-1980.

Um argumento católico da importância da iconografia é que as imagens da Bíblia, da Via Sacra, de Jesus Crucificado e dos santos são o único “livro” que também os pobres e analfabetos entendem e aproveitam. É certo que isso vale, ainda hoje, para milhões de pessoas.

Todavia, os daimistas têm consigo dois trunfos diferenciais: a doutrina cantada e aprendida na forma de hinos; e o fenômeno da miração, o transe místico induzido pela ingestão da bebida Daime, quando ocorrem experiências extáticas e visionárias com o adepto, assim como revelações e intuições de grande profundidade e emoção.

A “iconografia” daimista é subjetiva, se manifesta no invisível, na miração. Se processa no olho espiritual, na mente e no coração. “A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz” [17].

Esse é o caminho apontado pelo Mestre Raimundo Irineu Serra Juramidã.

NOTAS

 [1] MONTEJO, Inés Ruiz. El nacimiento de la iconografia cristiana. Disponível em http://www.fuesp.com/revistas/pag/cai0701.html Acesso em 14 set 2007.
[2] Levítico 26:1; também em Êxodo 20:4-5; Deuteronômio 5:8.
[3] MONTEJO, Inés Ruiz., idem.
[4] Disponível em http://www.luteranos.com.br/mensagem/artigo_arte_luterana7.html Acesso em 15 set 2007.
[5]Disponível em http://www.casthalia.com.br/a_mansao/ambientes/claustro.htm Acesso em 15 set 2007.
[6] Disponível em.http://www.mensageirosdecristogv.hpg.ig.com.br/rb.html Acesso em 15 set 2007.
[7] Êxodo 20:4.
[8] Apocalipse 11:19; 12:1.3-6.10.
[9] Ver MACRAE, Edward. Guiado pela lua. Xamanismo e uso ritual da ayahuasca no Culto do Santo Daime. São Paulo:Brasiliense, 1992; ANDRADE, Afrânio Patrocínio de. Contribuições e limites da União do Vegetal para a nova consciência religiosa. O uso ritual da ayahuasca. LABATE, Beatriz Caiuby e ARAÚJO, Wladimyr Sena (Orgs.) Campinas, SP: Mercado de Letras; São Paulo: Fapesp, 2002; MORTIMER, Lucio. Bença, Padrinho! São Paulo: Edição Céu de Maria, 2000. VIANA. Túlio Cícero. O Consagrado Defensor. Belo Horizonte: Líttera Maciel Ltda, 1997.
[10] MACRAE 1992, p. 130-132
[11] AFONSO, Carlos Alberto. Paródia sacra, p. 12. Disponível em http://www.neip.info Acesso em 05 nov 2007.
[12] Mateus, 5:17.
[13] João, 13:34.
[14] JACCOUD, Sebastião. O Terceiro Testamento in Livro dos hinários. Centro de Iluminação Cristã Luz Universal. Alto Santo. Brasília: Gráfica do Senado, 1992, p. 17-18.
[15] POLARI DE ALVERGA, Alex. O guia da floresta. Rio de Janeiro: Record/Nova Era, 1992, p.233.
[16] POLARI DE ALVERGA, Alex. O livro das mirações. Uma viagem ao Santo Daime. Rio de Janeiro: Record/Nova Era,1995, p. 288.
[17] Mateus, 6:22.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AFONSO, Carlos Alberto. Paródia sacra, p. 12. Disponível em http://www.neip.info Acesso em 05 nov 2007.
BÍBLIA SAGRADA
http://www.casthalia.com.br/a_mansao/ambientes/claustro.htm Acesso em 15 set 2007.
JACCOUD, Sebastião. O Terceiro Testamento in Livro dos hinários. Centro de Iluminação Cristã Luz Universal. Alto Santo. Brasília: Gráfica do Senado, 1992.

http://www.luteranos.com.br/mensagem/artigo_arte_luterana7.html Acesso em 15 set 2007.
http://www.mensageirosdecristogv.hpg.ig.com.br/rb.html Acesso em 15 set 2007.
POLARI DE ALVERGA, Alex. O livro das mirações. Uma viagem ao Santo Daime. Rio de Janeiro: Record/Nova Era,1995.
POLARI DE ALVERGA, Alex. O guia da floresta. Rio de Janeiro: Record/Nova Era, 1992.

(Artigo publicado originalmente em setembro de 2007, revisado em agosto de 2015).

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.