O Daime é uma religião?

Artigo aborda a dimensão religiosa do Daime.

Artigo aborda a dimensão religiosa do Daime.

Por Juarez Duarte Bomfim

Escrevi essa pequena comunicação em 2008, provocado por percepções enunciadas por alguns adeptos da Doutrina do Daime, da “linha do Alto Santo” (termo dos antropólogos). Se eu já considerava esta uma falsa questão, penso que qualquer possível discussão sobre o tema foi superada, após a Resolução Conad 01/2010 autorizar e regulamentar o “uso religioso da ayahuasca”.

Introdução

Na Doutrina do Santo Daime há um debate, semelhante ao que ocorre em outras denominações de caráter transcendental – como o kardecismo, por exemplo – se esta é apenas uma doutrina ou se constitui em uma religião. No Centro original fundado pelo Mestre Raimundo Irineu Serra e hoje dirigido pela dignatária do CICLU – Alto Santo, Madrinha Peregrina Gomes Serra, se costuma chamar de “sede” o local dos eventos, e não de “igreja”. Todavia, nos outros três centros daimistas situados na vila Irineu Serra o local de eventos da função religiosa é chamado por seus participantes de sede, salão, igreja, indistintamente.

Alguns consideram que essas organizações da “linha do Alto Santo” têm caráter de sociedade secreta, tipo Maçonaria, Rosacruz etc. Inclusive no Decreto de Serviço lido nos rituais de Concentração dias 15 e 30 de cada mês é lembrado: “não se deve comentar com quem não participa das mesmas o ocorrido nas nossas reuniões”. Porém, os Hinários bailados nas datas festivas do calendário cristão têm um caráter semi-público, podendo ser facultada a visitação em alguns ou todos os centros.

O sr. Sebastião Mota de Melo, o Padrinho Sebastião, dissidente do Centro original, ao levantar a sua bandeira e fundar o CEFLURIS, tomou para si a responsabilidade de “doutrinar o mundo inteiro”, isto é, “explandir” a doutrina cristã replantada por Mestre Raimundo Irineu Serra no seio da Floresta – o verbo “explandir” aí se constitui um  rico e interessante neologismo doutrinário, explodir-expandir, explodir aí como sinônimo de deflagrar, irromper, voar…

Porém, apesar do crescimento e mundialização da organização, isso não tornou o CEFLURIS (atual ICEFLU) uma instituição proselitista. Inclusive a dificuldade de acesso às igrejas, em áreas semiurbanas de regiões metropolitanas das grandes cidades brasileiras, por exemplo, só permite a chegada de alguém acompanhado e “com mapa”.

E foi o mesmo Sebastião Mota que recebeu um lindo hino onde aparece o substantivo próprio “igreja”. O hino diz:

Eu tenho uma medalha

Que é a roda do mundo

Nela existe um cordão

Que tem um segredo profundo

Dentro dela existe

Grande sabedoria

Nela existe uma igreja

Que o Mestre me dizia

O Mestre que existe nela

Este segredo ele vai destrinchar

Vai dar a mão aos seus irmãos

Deus é quem vem ensinar.

(Hino 17 – Eu tenho uma medalha. Hinário O Justiceiro de Sebastião Mota de Melo).

Naquele momento, possivelmente, fundava-se uma igreja e uma religião: a religião do Santo Daime. Entretanto, temo que essa seja uma falsa discussão e um falso problema, pois lendo os clássicos da sociologia e antropologia não resta dúvida que um movimento místico-religioso como o Santo Daime se organiza na forma de religião. Vejamos adiante.

Que é uma religião

Uma primeira definição de religião é que ela é uma forma de representação do mundo, ou mesmo uma forma de concepção do mundo a partir de uma vinculação ideal e apriorística entre a religião e o sagrado.

Durkheim considera a religião como um sistema unificado de crenças e práticas relativas a coisas sagradas – crenças e práticas que unem numa comunidade moral única todos os que as adotam e que é o contraste entre o sagrado e o profano o traço que distingue o pensamento religioso. Este atribui a seres, lugares, objetos e forças sobrenaturais o caráter sagrado – profundamente respeitável, venerável, santo – o significado para o crente.

O profano, por sua vez, seria tudo aquilo considerado útil, prático ou familiar, que pertence ao mundo cotidiano, sem possuir o significado emocional característico do sagrado.

Geertz define religião como um sistema de símbolos que atua para estabelecer poderosas, penetrantes e duradouras disposições e motivações nos homens através da formulação de conceitos de uma ordem de existência geral e vestindo essas concepções com tal aura de fatualidade que as disposições e motivações parecem singularmente realistas. Sendo assim, a religião ajusta as ações humanas a uma ordem cósmica imaginada e projeta imagens da ordem cósmica no plano da experiência.

Na crença e na prática religiosa, o ethos de um grupo torna-se intelectualmente razoável porque demonstra representar um tipo de vida idealmente adaptado ao estado de coisas atual que a visão de mundo descreve, enquanto essa visão de mundo torna-se emocionalmente convincente por ser apresentada como uma imagem de um estado de coisas verdadeiro, especialmente bem-arrumado para acomodar tal tipo de vida.

Os símbolos religiosos formulam uma congruência básica entre um estilo de vida particular e uma metafísica específica e, ao fazê-lo sustentam cada uma delas com a autoridade emprestada do outro.

Pertencer a uma religião significa modificar sua postura não apenas com relação ao mundo religioso, mas também ao não religioso, “mundano”, do qual o adepto faz parte, e é certo supor que suas atitudes nas outras esferas da vida poderão ser afetadas pela conversão religiosa.

Segundo Weber a religião conforma um modo de vida. Nela são originados certos impulsos e disposições psicológicas contribuintes para a ação. Por conseguinte, a religião é capaz de proporcionar a formação de modos de compreender e agir no mundo.

Dotada de uma ética própria, a religião abarca e atende a interesses das camadas sociais que a ela aderem, e permite a reelaboração destes mesmos interesses nos contextos da ação.

A religião deve ser vista enquanto uma instância própria, possuidora de um cosmos sistematizado e racionalizado que influencia e é influenciada por outras esferas da vida social; e para além de uma influência mútua, no contexto de interação se dá uma reformulação dos interesses, pois na medida em que a religião ganha novos adeptos ela é reinterpretada.

Na concepção weberiana a filiação a uma seita ou religião é garantida pela adequação do converso a uma série de critérios religiosa e moralmente veiculados, e a vida social, em todas as suas nuanças, é tratada como um processo contínuo e dinâmico de construção de sentido. A religião é dotada de uma natureza específica, e não deve ser tomada puramente como existindo em função da conjuntura social na qual está inserida, ou como um seu reflexo. Por isso que a religião se inscreve em uma ética peculiar, fruto do conteúdo de suas próprias anunciações e promessas.

Para Geertz, a religião enquanto um sistema cultural atua como um modelo de referência para a ação na medida em que induz o sujeito a certas disposições, ou seja, a execução de certos tipos de ações, a experiência de determinados sentimentos ou estados de ânimo em dadas ocasiões.

Desse modo, inscrevendo um sistema de crenças e um universo simbólico próprio, a religião opera como agente ordenador e significador do mundo e, ao mesmo tempo, inculcador de um ethos nos seus adeptos. Ethos aqui entendido como um estilo de vida, implicando preferências morais e estéticas características de cada religião.

O ethos religioso estará idealmente adaptado a um certo “estado de coisas” circunscrito pela visão de mundo. Já a visão de mundo se traduz na imagem que se faz do real, que apoia essas crenças recebidas. Ambos, ethos e visão de mundo, reforçam-se mutuamente. O ethos é formado pela religião e reforçado ou justificado pela visão de mundo.

E é da formação do ethos e da visão de mundo dele derivada, que se constrói o self do converso, que adere a um sistema de valores religiosos, considerado como “novo”. De uma perspectiva sociológica, o self é um conjunto relativamente estável de percepções sobre quem somos em relação a nós mesmos, aos outros e aos sistemas sociais.

O self do converso é socialmente “construído”, fundamenta-se na maneira como ele pensa que outras pessoas os veem e avaliam; baseia-se também em ideias culturais sobre os status sociais que ocupam. Dessa maneira, por exemplo, pode-se formar um senso geral sobre quem ele é, isto é, um autoconceito, que se baseia nos status sociais ocupados pelo indivíduo, conhecido como identidade social.

Assim, o self do homo religiosus é moldado através de interação com outras pessoas e sob a forma de imagens e ideias culturais. Da mesma maneira como acontece com a socialização em geral, o devoto não é um participante passivo desse processo, e pode exercer uma influência muito forte sobre a maneira como o processo e suas consequências se desenvolvem.

Conclusão

Consideramos que o converso à doutrina do Santo Daime reúne todos esses elementos que caracteriza o homo religiosus. A institucionalização da função religiosa através da estruturação de organizações formais, de tipo misto, carismático-burocrática; a existência de rituais previamente estruturados e calendário litúrgico; deveres e direitos dos filiados faz com que essas organizações, quando formalizadas, não importa o tamanho – ou uma holding como o CEFLURIS (ICEFLU) ou um centro (igreja) autônomo e independente – sejam colocadas no campo da atividade religiosa, independente do discurso e da percepção distinta que alguns poucos adeptos possam ter.

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.