O Daime, Caetano & Gil

Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Amigos leitores, em maio de 2008 publiquei o artigo ‘O Daime, Caetano & Gil’ que se tornou um fenômeno no universo ayahuasqueiro. Logo alcançou a marca de quarenta reproduções em sites de língua portuguesa e inglesa — pelo meu limitado controle de acompanhamento no Google, e citado em revistas e livros. Ganhou notoriedade quando José Murilo o postou no site do MinC e traduziu para o inglês junto com Lou Gold. Para registrar este feito aqui o reproduzo novamente.

Boa leitura!

O Daime, Caetano & Gil

 Por Juarez Duarte Bomfim

O jornalista Carlos Marques, atualmente consultor da Unesco e residente em Paris, estava com 20 anos de idade quando a direção da revista Manchete decidiu destacá-lo, na companhia de um fotógrafo, para uma reportagem sobre a distante Rio Branco, capital do Acre, no ano de 1969.{[1]}

Entre os vários entrevistados, Marques conversou com o bispo italiano Giocondo Maria Grotti, que dois anos depois (1971) morreria durante acidente aéreo no município de Sena Madureira.

Ao ser perguntado sobre os problemas que enfrentava na região, o bispo reclamou da Doutrina do Santo Daime, fundada pelo negro maranhense Raimundo Irineu Serra.

Marques decidiu conhecer o Mestre Irineu Serra, que trabalhava no roçado de sua propriedade quando o jornalista foi visitá-lo.

– Aquele encontro foi a experiência mais marcante de minha vida. O mestre Raimundo disse que sabia que eu chegaria e estava me esperando. Disse o meu nome, que eu havia sido libertado recentemente da prisão e que eu tinha uma cicatriz na perna.

Marques contou, ainda, que passou três dias no Alto Santo e tomou Daime, mas não revela detalhes de sua experiência.

– Ele me disse que um dia eu voltaria ao Acre, mas jamais acreditei nessa possibilidade.

Quando se despediu do Mestre Irineu Serra, inusitadamente o mesmo lhe ofereceu uma garrafa de Daime com a recomendação para ele tomar o seu conteúdo com amigos sensíveis.{[2]}

De volta ao Rio de Janeiro, Carlos Marques entrega a garrafa e o seu conteúdo ao compositor tropicalista Gilberto Gil, a descrevendo como “uma beberagem indígena sagrada que produzia visões deslumbrantes e estados de alma elevadíssimos”.{[3]}

Naquele mesmo dia Gilberto Gil tomou uma dose da bebida, e logo após foi para o Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, pegar a ponte aérea para São Paulo.

Já no saguão do Aeroporto de Congonhas, São Paulo, onde ocorria a inauguração de uma exposição militar, da FAB – Força Aérea Brasileira – o efeito do Daime começou a se manifestar, e Gil “captara conteúdos indescritíveis na presença dos militares”.{[4]}

Era época de Ditadura Militar e a classe artística e intelectual brasileira estava sendo duramente perseguida, os próprios artistas baianos Gil e Caetano seriam logo após presos e “convidados” a se retirarem do Brasil.

Sob efeito do Daime Gilberto Gil sentiu glauberianamente “como se tivesse entendido o sentido último do momento de nosso sentido como povo, sob a opressão autoritária”… e mesmo sob o medo que então os militares provocavam… sentia que podia “amar, acima do temor e de suas convicções ou inclinações políticas, o mundo em suas manifestações todas, inclusive os militares opressores”.{[5]}

A mensagem crística chegava assim ao coração do artista, apesar de todas as perseguições e temores: “Amai a vossos inimigos”.{[6]} Era o Daime operando…

Depois dessa experiência solitária no voo Rio-São Paulo, Gilberto Gil reúne um grupo de amigos no apartamento do compositor Caetano Veloso e propõe que todos fizessem uma “viagem” em conjunto. Seguindo a recomendação do Carlos Marques, Gil serve a cada um dos presentes pouco mais de meio copo.{[7]}

Conta Caetano: “a beberagem espessa e amarelada tinha gosto de vômito, mas não me causou náuseas”.{[8]} A partir daí, a verve inspirada do poeta baiano transmite um interessantíssimo depoimento das visões e percepções do que via e sentia, da vida que percebia nos objetos inanimados, “a história de cada pedaço de matéria” de um prosaico carpete de náilon do seu apartamento, por exemplo…

Ao som do rock progressivo do Pink Floyd, no limite exíguo do vigésimo andar de um edifício paulistano, dá-se o experimento:

“Sandra (mulher de Gil) entrava e saia do quarto do som com os olhos duros e o rosto sério. Ela estava assustada. Eu a achava parecida com um índio. Gil estava com lágrimas nos olhos e falava alguma coisa sobre morrer, ter morrido, não sei. Dedé (mulher de Caetano) circulava pela sala dizendo que se via a si mesma em outro lugar. Eu fiquei muito feliz de observar que as pessoas eram tão nitidamente elas mesmas… Uns pontos de luz coloridos surgiram no espaço ilimitado da escuridão… Formas circulares eram compostas por lindos pontos luminosos dançantes. Aos poucos eu sabia quem era cada um desses pontos luminosos. E em breve eles de fato se mostravam como seres humanos. Eram muitos, de ambos os sexos, todos estavam nus e tinham aspecto de indianos. Essas pessoas dançavam em círculos de desenhos complicados, mas eu não só podia entender todas as sutilezas dessa complicação como tinha tranqüila capacidade de concentração para saber sobre cada uma das pessoas tanto quanto eu sei de mim mesmo ou de meus próximos mais amados”.{[9]}

É dito que da(s) experiência(s) com o Daime, particularmente experiências pico como esta, de Gilberto Gil (“Gil… falava alguma coisa sobre morrer, ter morrido”..) surgiram belíssimas canções do seu cancioneiro, tal como “Se eu quiser falar com Deus”.

“Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz

Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou

Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar

Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar “{[10]}

(Ouçam o Vídeo Clip Se Eu Quiser Falar Com Deus – Elis Regina – Capela http://www.youtube.com/watch?v=tWuQc7W0O-A )

Em êxtase Caetano mirava os seus “anjos indianos” nessa “experiência celestial”.

“Eu alternava – com abrir e fechar os olhos – observação do mundo exterior e vivência desse mundo de imagens que se tornava cada vez mais denso… aos poucos eu reconhecia que os seres vistos com os olhos fechados eram indubitavelmente mais reais do que meus amigos presentes no quarto do som ou as paredes desse quarto e os tapetes”.{[11]}

Com a consciência expandida pela miração, Caetano conhece outra concepção de espaço, diferente da corriqueira e “precária convencionalidade”; o “tempo era igualmente criticado por essa instância mais alta em minha consciência lúcida: com benevolência e sem nenhuma angústia, eu sabia que o fato de estar vivendo aquele momento era irrelevante diante da evidência de que eu já tinha – ou teria – nascido, vivido e morrido – e também jamais existido -, embora a percepção do meu eu naquela situação fosse uma ilusão inevitável”.{[12]}

O artista santamarense continua inspiradamente a narrar a sua experiência – da qual recomendamos a leitura atenta, pois não é possível transcrevê-la toda aqui – e quem discursa é também o antigo estudante de filosofia da Universidade da Bahia: diante da representação da “idéia de Deus” diz não saber se teve “o súbito retraimento de quem aprendeu que a face do Criador não pode ser contemplada…” Surge então a dúvida no coração de quem vivenciava um extraordinário momento extático, e ao ser levado por Dedé para se olhar no espelho do banheiro, ver seu rosto “de sempre” após toda essa experiência… passou então a ter a certeza “de que estava louco”. Porém “esse eu que tinha tal certeza era como que indestrutível: esse não fica louco, não dorme, não morre, não se distrai”…

Quão bela experiência… vemos que foi revelada a Luz do Daime a este sensível poeta e compositor baiano e o merecimento de se ver como espírito, a vislumbrar a sua essência – que é Divina, como a de todos nós.

Inebriado do divino e maravilhoso que é Deus, brincando com as dúvidas filosóficas a la Rogério Duarte, futuro devoto hare krishna: “Eu não creio em Deus, mas eu vi!” ou ‘É óbvio que Deus não existe, mas a inexistência de Deus é apenas um dos aspectos de sua existência”… parodiando Nietzsche Caetano vai bradar para todo o Brasil: “Deus está solto!” sob as vaias da apresentação festivalesca do seu “É proibido proibir”.

Dessa vivência transcendental, Caetano reflete assim: “… por mais de um mês eu me senti vivendo como que um palmo acima de tudo o que existe. E por mais de um ano certos resquícios específicos se mantiveram. Na verdade, algo de essencial mudou em mim a partir daquela noite”.

“Quem é ateu e viu milagres como eu
Sabe que os deuses sem Deus
Não cessam de brotar, nem cansam de esperar
E o coração que é soberano e que é senhor
Não cabe na escravidão, não cabe no seu não
Não cabe em si de tanto sim
É pura dança e sexo e glória, e paira para além da história

Ojuobá ia lá e via
Ojuobahia
Xangô manda chamar Obatalá guia
Mamãe Oxum chora lagrimalegria
Pétalas de Iemanjá Iansã-Oiá ia
Ojuobá ia lá e via
Ojuobahia
Obá

Quem é ateu…”{[13]}

( Ouçam o Vídeo Clip Daniela Mercury – Milagre do povo http://www.youtube.com/watch?v=1Raemmdqi5g )

Voltando ao comecinho da nossa história… pois não é que o jornalista Carlos Marques retornou ao Acre após quase 40 anos? Ao final de uma audiência com o então governador Jorge Viana, este perguntou ao jornalista se ele já conhecia o Acre. Marques contou o que já narramos, e para sua surpresa o governador Jorge Viana mostrou ao jornalista o convite que recebera para participar dos festejos dos 50 anos de casamento do Mestre Raimundo Irineu Serra  com a Madrinha Peregrina Gomes Serra, dignatária do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal – CICLU Alto Santo, no dia seguinte, 15 de setembro de 2006. E convenceu o jornalista a permanecer mais um dia no Acre.

Marques reencontrou a Madrinha Peregrina Serra, viúva de Irineu Serra, a quem pediu desculpas pelo conteúdo ofensivo que sua reportagem ganhou na edição da revista Manchete, pois esta publicou então várias páginas com a reportagem, onde prevaleceu na edição a versão do bispo de que se tratava de uma seita diabólica. “Foi a primeira entre tantas a desagradar Irineu Serra e seus seguidores”.{[14]}

– Eu não podia revelar que havia encontrado Deus – disse Carlos Marques.

Na noite de 30 de abril de 2008, na sede do CICLU Alto Santo, foi realizado um evento oficial no qual a Fundação Elias Mansour do Estado do Acre, Fundação Garibaldi Brasil do município de Rio Branco e representantes dos centros que integram os três troncos fundadores das doutrinas ayahuasqueiras (Santo Daime, Barquinha e União do Vegetal), que solicitaram ao ministro Gilberto Gil, da Cultura, que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) instaure o processo de reconhecimento do uso da ayahuasca em rituais religiosos como patrimônio imaterial da cultura brasileira.

O evento foi prenhe de êxito e um marco histórico do universo ayahuasqueiro brasileiro. No discurso de encerramento desta função religiosa de 30 de abril de 2008, já sem a presença das autoridades constituídas (ministro, governador, secretários de estado e políticos em geral), o orador oficial do CICLU – Alto Santo lembrou da singela história do jornalista Carlos Marques, concluindo que (palavras minhas, registro de memória): o Mestre Irineu, sabedor do passado, presente e futuro do jornalista Carlos Marques, excepcionalmente presenteou o jornalista com uma garrafa de Daime para que este a fizesse chegar as mãos do cantor Gilberto Gil, que a tomasse e conhecesse, para que, passados quase 40 anos, viesse ao Alto Santo na condição de ministro de Estado interceder por tornar a ayahuasca patrimônio imaterial da cultura brasileira.

1 As informações a seguir foram extraídas de MACHADO, Altino. 40 anos depois. Disponível em http://altino.blogspot.com/2006/09/40-anos-depois.html Acesso em 15 de Setembro de 2006.

2 Discurso do jornalista Antonio Alves na sede do CICLU Alto Santo em 30 de maio de 2008.

3 VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo, Cia das Letras, 1997, p. 308.

4 Ibidem, p.308.

5 Ibidem, p. 308.

6 Lucas 6:27.

7 Dizem os antigos que esta era a recomendação do Mestre Irineu.

8 VELOSO,, 1997, p. 322.

9 VELOSO, 1997, p. 324.

10 Ouçam Se Eu Quiser Falar Com Deus – Elis Regina – Capela Disponível em http://br.youtube.com/watch?v=tWuQc7W0O-A Acesso em 26 de maio de 2008.

11 VELOSO, 1997, p. 324.

12 Ibidem, p. 324.

13 Milagres do Povo Caetano Veloso. Ouça o Vídeo Clip Milagres do povo – Daniel Mercury. Disponível em  http://www.losacordes.com/videoclip/daniela-mercury/milagres-do-povo Acesso em 26 de maio de 2008.

14 MACHADO, Altino. 40 anos depois. Disponível em http://altino.blogspot.com/2006/09/40-anos-depois.html Acesso em 15 de Setembro de 2006.

The Daime, Caetano Veloso & Gilberto Gil

by Juarez Duarte Bomfim

The journalist Carlos Marques, who is today an adviser at UNESCO living in Paris, was 20 years old when the managers of Manchete magazine decided to send him, accompanied by a photographer, to do an article about the distant city of Rio Branco, capital of Acre state, in the year of 1969. [1] Among the many interviews, Marques talked with the Italian bishop Giocondo Maria Grotti, who two years later (1971) would die in an airplane accident in the region of Sena Madureira.

When asked about the problems he was facing in the region, the bishop complained about the Santo Daime Doctrine, which was founded by a black man from Maranhão state, Raimundo Irineu Serra.

Marques decided to meet Master Irineu Serra, who was working in the cut field on his property when the journalist arrived.

– That meeting was the most extraordinary experience in my whole life. Master Raimundo said he knew I would come, and that he was waiting. He said my name, that I had recently been released from prison, and that I had a scar on my leg.

Marques also said that he spent 3 days at Alto Santo and drank Daime, but he did not reveal details of his experience.

– He told me I would some day come back to Acre, but I never believed in this possibility.

During his farewell to Master Irineu Serra, surprisingly he was offered a bottle of Daime with the recommendation to drink its contents along with his sensitive friends. [2]

Back in Rio de Janeiro, Carlos Marques handed the bottle and its contents to the tropicalismo musician and composer Gilberto Gil, describing it as “a sacred indigenous beverage that produces gorgeous visions and the highest states of soul”. [3]

On that same day Gilberto Gil took a dose of the drink, and soon afterwards he went to Santo Dumont airport, in Rio de Janeiro, to take a flight to São Paulo.

Once he was in São Paulo’s Congonhas airport lobby, where a military exposition from the Brazilian Air Force (FAB) was being launched, the effect of the Daime fully came on, and Gil “caught indescribable contents from the presence of the military”. [4]

It was during the time of the military dictatorship and the Brazilian artistic and intellectual class was being brutally persecuted, and these very artists — Gil and Caetano from Bahia state — would soon be arrested and “invited” to leave Brazil.

Under the influence of the Daime, Gilberto Gil in the fashion of Glauber Rocha [a famous exiled Brazilian film maker also from Bahia] felt “as if he had understood the ultimate meaning of our people’s historical moment as a nation under authoritarian oppression”… and even influenced by the fear that the military evoked then… he felt that he could “love — beyond the terror and his convictions or political leanings — the whole world in all its manifestations, including the oppressive military”. [5]

There was the Christian message arriving in the heart of the artist, despite all the persecution and fear: “Love your enemies”. [6] That was the Daime operating…

After this solitary experience during a Rio-São Paulo flight, Gilberto Gil gathered a group of friends in the apartment of the musician and composer Caetano Veloso and he proposed that they all should make a collective trip. Following Carlos Marques’ recommendation, Gil serves to each one a little more than a half glass. [7]

Caetano narrates: “the thick and yellowish beverage had a taste like vomiting, but it did not cause any nausea”. [8] From now on, the poet’s inspired prose transmits a compelling report of the visions and perceptions of what he saw and felt, from the life he could perceive from inanimate objects, “the story of each grain of matter” from a prosaic nylon carpet in his apartment, for example…

Listening to the sounds of Pink Floyd’s progressive rock, in the tiny limits of the twentieth floor of a São Paulo building, the experiment unfolds:

“Sandra (Gil’s wife) was coming in and out of the bedroom with hard eyes and serious face. She was scared. I thought she looked like an Indian. Gil had his eyes full of tears and was saying something about dying, having died, I don’t know. Dedé (Caetano’s wife) was circulating around the living room saying that she was seeing herself elsewhere. I was very happy to observe that the people were so clearly themselves… Some colored points of light surged in the infinite space of darkness… Circular forms were composed by beautiful dancing points of light. Little by little I knew who each of these illuminated points was. And soon they were showing themselves as human beings. There were many of them, from both sexes, all of them naked and resembling Indians. These people were dancing in complex circle designs, but I could not only understand all the subtleties of this complexity but also had a calm concentrated awareness to know about each person the same amount I know about myself and my close and loved ones”. [9]

It is said that it is from experiences such as with the Daime, particularly the peak experiences like this one — from Gilberto Gil (“Gil… was saying something about dying, having died”…) — that there came about beautiful songs from his repertoire, such as “If I would speak with God”.

If I would speak with God
I have to be alone
I have to turn off the lights
I have to shut the voice
I have to find the peace
I have to unfold the knots
From the shoes, from the necklace
From the desires, from the fears
I have to forget the date
I have to miss the count
I have to have empty hands
To the soul and the body naked

If I would speak with God
I have to accept the pain
I have to eat the bread
That the devil stretched
I have to turn myself into a dog
I have to lick the floor
From the palaces, from the castles
Magnificences of my dream
I have to see myself sad
I have to see myself as scary
And despite an evil so big
Rejoice my heart

If I would speak with God
I have to adventure myself
I have to climb to the skies
With no ropes to hold
I have to say farewell
Turn my back, walk
Decided, along the road
Which in the end reaches nothing
Nothing, nothing, nothing, nothing
Nothing, nothing, nothing, nothing
Nothing, nothing, nothing, nothing
From what I thought I would find. [10]

And, in ecstasy, Caetano would watch his “Indian angels” in this “celestial experience”.

“I would alternate — while opening and closing my eyes — the observation of the external world and the experience of this [internal] world of images that would become each time more dense… soon I started to recognize that the beings I watched with closed eyes were undoubtedly more real than my friends who were in the room, the sound, the room’s walls and the carpets”.[11]

With awareness expanded by the miração [vision], Caetano acknowledges a new conception of space, different from the standard and precarious “conventionality” — the “time was equally criticized by this higher stance in my lucid consciousness: Benevolently and with no anguish, I knew that the fact of being experienced in that moment was irrelevant in front of the evidence I already had — or would have — of being born, alive and dead — and also never being — even though the perception of my ‘self’ in that situation was an inevitable illusion”. [12]

[Caetano] the artist from Santo Amaro [a city in Bahia state] continues this inspired narrative of his experience — which we recommend to be read with care, because it is not possible to transcribe all of it here. And remember the one who speaks is also the philosophy student from the University of Bahia: facing the representation of the “idea of God” declares not knowing that he had the “sudden retraction of one who had learned that the face of the Creator cannot be viewed….” There comes the doubt in the heart of someone who was experiencing an extraordinary ecstatic moment, and while being taken by Dedé to look at himself in the bathroom mirror, to see his ‘everyday’ face after the whole experience… he then was certain that “he was mad”. But “this ‘self’ who was certain was indestructible — this one does not get mad, does not sleep, does not die, does not get distracted….”

What a beautiful experience… We see that the light of the Daime was revealed to this sensitive poet and composer from Bahia with the merit to see himself as spirit, discerning his own essence — which is Divine — as it happens with all of us.

Inebriated by the divine and marvelous which is God, playing with the philosophical doubts in a Rogério Duarte style, the future Hare Krishna devotee says, “I don’t believe in God, but I saw it!” or “It’s obvious that God doesn’t exist, but the inexistence of God is only one of the many aspects of its [God’s] existence” … Parodying Nietzsche, Caetano will cry out to all Brazil, “God is released!” under the boos in the festival presentation of his “It is prohibited to prohibit”.

From this transcendental experience, Caetano reflects: “…for more than a month I felt like living one palm [floating] above every existing thing. And for more than a year some remnants were maintained. In fact, something of an essential kind changed inside of me from that night on”.

“The one who is an atheist,
and has seen miracles like I did
Knows that the gods without God
Don’t cease to blossom,
and don’t get tired of waiting
And the heart that is sovereign and is the lord
Doesn’t fit in the darkness,
doesn’t fit in his ‘no’
Doesn’t fit in itself of so much ‘yes’
It’s pure dance and sex and glory,
and floats beyond history
Ojuobá would go there and watch
Ojuobahia
Xangô ordered to call
Obatalá the guide
Mother Oxum cries tears
Tears of happiness
Petals of Iemanjá
Iansã-Oiá would go
Ojuobá would go there and watch
OjuoBahia
Obá

The one who is an atheist…” [13]

Going back to the start of our story… can you believe that journalist Carlos Marques returned to Acre after 40 years? At the end of an audience with then Governor Jorge Viana, he was asked if he already knew Acre. Marques reported what we have just narrated, and to his surprise the Governor showed him the invitation he had received to participate in the celebrations of the 50 year marriage anniversary of Master Raimundo Irineu Serra with Madrinha Peregrina Gomes Serra, the leader of the Center of Christian Illumination Universal Light – CICLU Alto Santo, on the next day, September 15th, 2006. And [thus] he convinced the journalist to stay in Acre one day more.

Marques again met with Madrinha Peregrina Serra, Irineu Serra’s widow, to whom he apologized for the offensive content that his report carried in the edition of Manchete magazine, because many pages were published with the prevailing version of the bishop that we were speaking about a diabolical sect. “That was the first among many other [reports] to annoy Irineu Serra and his followers”. [14]

– “I could not reveal that I had found God” – said Carlos Marques.

On the night of April 30th, 2008, in the headquarters of CICLU Alto Santo, there was an official event where the Elias Mansour Foundation from Acre state, the Garibaldi Brasil Foundation from the city of Rio Branco, and representatives from the centers that integrate the three branches of the Ayahuasca doctrines (Santo Daime, Barquinha and União do Vegetal), made a request to the Minister of Culture Gilberto Gil, that the National Artistic and Historic Heritage Institute (IPHAN) begin the process of recognizing the use of Ayahuasca in religious rituals as a Brazilian Non-material Cultural Heritage.

The event was a full success and a milestone in the Brazilian Ayahuasca universe. In the closing speech of this religious work of the April 30th, 2008, when the authorities (Minister, Governor, State Secretaries and politicians in general) had already left, the official speaker of CICLU – Alto Santo recalled the unique story of the journalist Carlos Marques, concluding that (in my words from my memory’s account): Master Irineu, knowing about the past, present and future of the journalist Carlos Marques, gifted him exceptionally with a bottle of Daime so that he could make it reach the singer Gilberto Gil, in a way that he could take it and get acquainted with it, so that, 40 years later, he could come to Alto Santo as a Minister of State to mediate the request of recognizing ayahuasca as a non-material heritage of Brazilian culture.

Notes

[1] The information was extracted from Altino Machado’s blog: “40 Years Later”
http://altino. blogspot.com/2006/09/40-anos-depois.html
Viewed in September 15th, 2006.

[2] Speech from journalist Antonio Alves in the CICLU Alto Santo headquarters on May 30th, 2008.

[3] VELOSO, Caetano. “Tropical Truth”. São Paulo, Cia das Letras, 1997, p. 308.

[4] Ibid, p.308.

[5] Ibid, p. 308.

[6] Luke 6:27.

[7] The old ones say that this was a recommendation of Master Irineu.

[8] VELOSO,, 1997, p. 322.

[9] VELOSO, 1997, p. 324.

[10] Listen to “If I Would Speak With God” – Elis Regina – http://br.youtube.com/watch?v=tWuQc7W0O-A
Viewed on May 26th

[11] VELOSO, 1997, p. 324.

[12] Ibid, p. 324.

[13] (Miracles from the People – Caetano Veloso) Listen to the videoclip Milagres do Povo – Daniela Mercury, at http://www.losacordes.com/videoclip/daniela-mercury/milagres-do-povo
[note: a different version is presented above because of the youtube code allowing it to be embedded in this post]

[14] MACHADO, Altino. “40 Years Later” http://altino. blogspot.com/2006/09/40-anos-depois.html Viewed on September 15th, 2006.

O Daime, Caetano e Gil

The Daime, Caetano Veloso & Gilberto Gil

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Em português:

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Em inglês:

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http://eco-rama.net/

Ayahuasca.com Homepage of the Amazonian Great Medicine

http://www.ayahuasca.com/ayahuasca-overviews/when-and-how-was-ayahuasca-discovered-by-the-world-outside-the-amazon/

Links para o artigo O Daime, Caetano & Gil:

Sena Madureira – ac

http://www.guiadosmunicipios.com.br/ac/Sena%20Madureira/

A Barquinha. Centro Espírita Obras de Caridade Príncipe Espadarte

http://www.abarquinha.org.br/sys/index.php?option=content&task=view&id=20&Itemid=21

FeedRaider

http://feedraider.com/u/globalvoices/r/y194i/

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http://www.urlfan.com/site/altino_blogspot_com/1576573.html

Importante história p/ Santo Daime e suas linhas

http://br.dir.groups.yahoo.com/group/santuariodapalmeira/messages/106

Weblinks

http://www.123people.com/s/gil+juarez

Gregório Guevara

http://twitter.com/gregoguevara

Matéria muito massa falando sobre experiência do daime com caetano e gil: http://www.universomistico.org/s/o-daime-caetano-e-gil.html

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Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.