Não se pode servir a dois senhores. A sexualidade daimista

"Na época em que Jesus esteve entre nós, o povo sírio adorava o Deus Mamon, feito de ouro e prata. O Deus Mamon era o Deus da riqueza, do luxo e dos prazeres inferiores.".

“Na época em que Jesus esteve entre nós, o povo sírio adorava o Deus Mamon, feito de ouro e prata. O Deus Mamon era o Deus da riqueza, do luxo e dos prazeres inferiores.”.

Por Juarez Duarte Bomfim

“Ninguém pode servir a dois senhores, porque odiará a um, e amará o outro, ou se prenderá a um e desprezará o outro. Não se pode servir a Deus e a Mamon” (Lucas 16: 12).

Bases filosóficas do cristianismo

Na época em que Jesus esteve entre nós, o povo sírio adorava o Deus Mamon, feito de ouro e prata. O Deus Mamon era o Deus da riqueza, do luxo e dos prazeres inferiores.

Os valores mundanos são valores diametralmente opostos àqueles apregoados por Ele, o Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja ética pode ser resumida em alguns dos seus ensinos: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga”; ou “se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos Céus”.

Jesus também disse: “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir”, afirmando que a lei mosaica igualmente era a sua lei.

Daí que a doutrina do Cristo é a doutrina do amor, da renúncia e do perdão; o Apóstolo Paulo e outros santos e teólogos que o procederam desenvolveram, com base nos Evangelhos, o que seria denominado de ética e moral cristã.

O sistema de crenças baseado nos ensinamentos de Jesus Cristo chama-se cristianismo, e é a maior das tradições religiosas existentes. Com cerca de 2,13 bilhões de adeptos, que representa 33% da população do mundo, é predominante na Europa, América, Oceania e em grande parte da África e partes da Ásia.

Há muito que a Igreja Católica perdeu o monopólio do cristianismo, com o surgimento de diversas denominações cristãs.

A Doutrina Cristã do Santo Daime

No Brasil, final da década de 1920, um jovem seringueiro nordestino, descendente de escravos africanos da antiga província do Maranhão, Raimundo Irineu Serra, experimentou a ayahuasca e numa dessas vezes, em visão – ou miração – lhe foi revelada uma missão aqui na Terra, da qual resultou na criação de uma nova denominação cristã, genuinamente brasileira, denominada de Santo Daime.

Uma peculiaridade do Santo Daime é ser uma doutrina cantada, onde o conteúdo das mensagens é trazido na forma de hinos, poesia musicada que expressa a base religiosa e filosófica da doutrina.

Os hinos anunciam a realidade sagrada, as revelações divinas manifestadas em forma musical.

Diz um hino que “Jesus Cristo veio ao mundo replantar santa doutrina”, e a missão do Mestre Irineu Serra é a mesma missão de Jesus, a sua continuação na condição de professor de uma escola espiritual.

A doutrina de Raimundo Irineu Serra se anuncia cristã em inúmeras passagens do seu hinário, isto é, tem como núcleo pétreo de fé a crença em que nosso Senhor Jesus Cristo foi Deus feito homem e veio ao mundo para redimir quem nele creia e a ele peça porque crê.

Porém há algumas características especiais, particularmente a interface com a matriz cristã católica – da qual parece se originar ou sofrer influência – e elementos da cultura do ameríndio colonizado. Pois a doutrina do Santo Daime constituiu-se a partir de um vigoroso movimento relacionado com o avanço do universo mágico-religioso dos povos da floresta em direção às cidades. Pode ser considerado o cristianismo da floresta, a doutrina e a luz da floresta.

Considera-se que a doutrina do Santo Daime se constitui da eclética mistura de catolicismo popular, espiritismo, religiosidade africana e xamanismo indígena. Sua condição de existência reside na abertura para a fusão de diferentes e, por vezes, até antagônicas influências, crenças e concepções religiosas.

Se assim não foi concebida originalmente pelo fundador, com o tempo sincretizou-se através das práticas dos discípulos do Mestre Irineu, que se tornaram líderes daimistas após o seu falecimento.

Entretanto, independente do sincretismo e ecletismo que prevaleça, a base moral e ética cristã continua a mesma, sempre reafirmando os postulados do Cristo.

Os anos 1960 e a Nova Consciência Religiosa

Nos anos 1960 surge em diversas partes do mundo um movimento de contestações que logo chegou ao Brasil, nas grandes cidades, ganhando adeptos entre indivíduos das camadas médias urbanas, com alto grau de escolaridade. Um dos nomes generalizantes que se dá a esse movimento é o de contracultura.

Primeiro na Europa, depois nos Estados Unidos e Brasil, esse movimento de contestações ganha adeptos entre intelectuais, artistas, estudantes secundaristas e universitários. Essas manifestações não são uniformes nas suas pautas de interesse, tanto do ponto de vista ético-político, como artístico-estético e cultural-comportamental.

Esse movimento de contracultura se constitui em uma opção geracional. Paralelo ao apelo por revoluções sociais e sexuais, parte da juventude do país escolheu por estudar e conhecer civilizações orientais e a recuperação do exótico, do diferente, do original, seus mistérios transcendentais e ocultistas.

Nos idos de 1970, frente ao fracasso da resistência armada à ditadura militar, jovens adotam uma forma de transformação mais individualista adotando ideias “hippies” e da “Nova Era” que começavam a chegar ao Brasil.

O holismo místico-ecológico substitui crenças e práticas anteriores, e o repertório sobrenatural e espiritual dos recém-convertidos passa a ser povoado por lamas tibetanos, iogues, orixás, chamas violetas, discos voadores, seres extraterrestres, cristais, pirâmides, os ensinamentos de Don Juan relatados por Carlos Castañeda e outros exotismos.

Entre as diversas tendências contraculturais existentes destaca-se a nova consciência religiosa, formada por indivíduos representativos de trajetórias identificadas com o programa ético-político moderno, de tipo “libertário” e críticos da tradição, especialmente do “fardo repressivo” das tradições religiosas.

Estes sujeitos originários do modelo individualista-laicizante, frequentemente educados dentro de padrões racionalistas e iluministas, mostram-se crescentemente atraídos pela fé religiosa, pelos mistérios do êxtase místico, pela redescoberta da comunhão comunitária e pelo desafio de saberes esotéricos.

Nos anos 1980 verifica-se a expansão de religiões usuárias da ayahuasca entre membros da classe média de metrópoles não-amazônicas, com grande publicidade envolvendo a conversão de artistas e celebridades de TV.

Parte desses sujeitos adere ao Culto do Santo Daime, religião popular do norte do Brasil, O novo adepto urbano realiza reinterpretações e constrói as suas equivalências simbólicas para compreensão e justificação da doutrina que adotou, e cria uma relação de identidade com ela.

A conversão dos novos adeptos, embora implicando em muitas mudanças no seu sistema de valores, os levará a conceber alterações de consciência pelo uso da ayahuasca, não apenas como socialmente aceitáveis, mas também como um caminho para o conhecimento espiritual e seu desenvolvimento.

Como esses novos adeptos percebem o Santo Daime? Qual a ponte que liga a nova consciência religiosa com esse culto popular amazônico?

O self do converso

É da formação do ethos e da visão de mundo dele derivada, que se constrói o self do converso, que adere a um sistema de valores religiosos, considerado como “novo”. De uma perspectiva sociológica, o self é um conjunto relativamente estável de percepções sobre quem somos em relação a nós mesmos, aos outros e aos sistemas sociais.

Essas ideais têm origens em várias fontes: 1º. fundamenta-se na maneira como pensamos que outras pessoas nos vêem e avaliam; 2º. baseia-se também em idéias culturais sobre os status sociais que ocupamos. Dessa maneira, por exemplo, podemos formar um senso geral sobre quem somos, isto é, um autoconceito, que se baseia nos status sociais ocupados pelo indivíduo, conhecido como identidade social.

O self é socialmente “construído”, no sentido de ser moldado através de interação com outras pessoas e por utilizar materiais sociais sob a forma de imagens e ideias culturais. Como acontece com a socialização em geral, é claro, o indivíduo não é um participante passivo desse processo, e pode exercer uma influência muito forte sobre a maneira como o processo e suas consequências se desenvolvem.

A construção do self daimista: o “tipo ideal”

O Daime pode ser considerado “estimulante natural” de uma das funções antropológicas consideradas fundantes do humano: a função simbólica, nesse caso, aplicada à relação religiosa do homem com a sociedade, o cosmo e os deuses. Um estimulante capaz de fundar códigos de ética e de conduta moral, mostrando assim capacidade de operar à passagem do “estimulo natural” à cultura.

Dessa maneira, os daimistas sublinham o poder da bebida Santo Daime no que se refere à correção dos desvios morais do sujeito e, gradativamente, vão construindo todo um conjunto conceitual que é utilizado no sentido do desprestigio do secular, de desvalorização de aspectos como diversão e entretenimento, de atividades identificadas a um apego à vida mundana e, por outro lado, a ênfase em questões relativas ao afastamento e à salvação do “espírito” no que alude às “tentações” materiais.

Sob influência da doutrina kardecista, a noção de “evolução” é utilizada pelos adeptos do Santo Daime para depreciar todo um conjunto de atitudes e sentimentos considerados excessivamente apegados à matéria que passam a ser definidos como “menos evoluídos”.

Um outro poder do Daime, bastante destacado por esses religiosos, relaciona-se à sua ação terapêutica nos rituais e no dia a dia. O poder terapêutico do Daime está ligado à transformação moral, um fenômeno muito mais amplo do que uma cura puramente orgânica. Os conceitos do espiritismo kardecista se juntam às concepções cristãs na organização das explicações daimistas da doença e da cura.

Desse modo, as noções de doença e cura sofrem ressignificação, com uma interpretação simbólica da doença no tocante à vida pessoal dos sujeitos. A cura de doenças significa saúde/salvação. Esta interpretação é construída através de noções cristãs como o “arrependimento” e o “perdão”, apontando para a necessidade de uma transformação ética, a qual implica numa valorização da vida ultraterrena em detrimento de temas mais diretamente ligados à vida mundana.

A construção de um outro self daimista: os seguidores do deus Mamon

Como foi dito, os novos adeptos urbanos do Santo Daime são originários do modelo individualista-laicizante e frequentemente educados dentro de padrões racionalistas e iluministas; porém, quando rompem com este paradigma adotam uma visão de mundo “alternativa”, de busca de comunhão comunitária e saberes pretensamente esotéricos.

Esses novos adeptos adotam uma forma de transformação individualista, identificados com o programa ético-político moderno, de tipo “libertário” e críticos do “fardo repressivo” das tradições religiosas. Assumem ideais hippies ou neo-hippies, anticlericalismo, liberalismo sexual e o orientalismo new age.

Ressignificam e reinterpretam as bases filosóficas da ética judaico-cristã, ao contestarem as noções de culpa, pecado e da necessidade do perdão. Todavia, como os exemplos de contestação dos pilares do cristianismo são vastos, nos ateremos nesta breve comunicação a apenas um dos inúmeros temas, o da sexualidade, isto é, como ela é ressignificada por parte dos novos adeptos urbanos do Santo Daime.

A ética cristã em relação à sexualidade é límpida e transparente. Quando levaram a Jesus a mulher apanhada em flagrante adultério, para ser apedrejada, o Mestre perguntou aos acusadores:

 – “Aquele dentre vós que está sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra”.

Após se retirarem um a um, Jesus lhe indagou:

– “Ninguém te condenou?”

Respondeu ela:

– “Ninguém Senhor.”

Então lhe disse Jesus:

– “Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais”.

Quão generoso é o Senhor que nos dá a oportunidade do arrependimento e do perdão, porém com a mesma advertência feita à mulher adúltera: vai e não peques mais.

E o Mestre prossegue: “Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela”. Isso porque Jesus desejava para seus discípulos: “sede perfeito como vosso Pai do Céu é perfeito”

O apóstolo Paulo, legítimo expoente da doutrina cristã, celibatário como era, recomendava: “bom seria que o homem não tocasse em mulher”; contemporizando ele completa: “mas, por causa da prostituição, tenha cada homem sua própria mulher e cada mulher seu próprio marido”.

Disso decorre a monogamia legal e moral da civilização cristã.

Entretanto, os novos adeptos urbanos do Santo Daime – nacionais ou estrangeiros – que adotam o Daime da “linha do Padrinho Sebastião”, por ser esta a linha expansionista, ressignificam e reinterpretam a mensagem doutrinária dos hinos, a partir do sistema de valores comportamentais que trazem consigo das suas experiências paralelas ou anteriores.

Em busca dos conhecimentos orientais, muitos desses novos adeptos são ou foram discípulos de Bhagwan Shree Rajneesh, Osho, professor de filosofia na Índia que se erigiu em guru de muitos.

Filósofo instigante, a sua face mais polêmica está ligada ao apodo que recebeu de “guru do sexo”, pois Osho defendia a ideia de que ninguém seria livre se tivesse qualquer tipo de repressão sexual. Considerava que o sexo é o instinto mais poderoso no ser humano. Os políticos e os sacerdotes por entenderem isso desde o princípio, o reprimem, pois ao se permitir total liberdade no sexo, não haverá possibilidade de dominação. Resumidamente são essas as teses.

Por crer que a repressão sexual era a base da insatisfação humana, Osho desenvolveu terapias nas quais a principal atividade era o sexo livre.

O teatrólogo Mario Piacentini, em entrevista à Revista TRIP, depõe: “Praticávamos muito tantra… Passávamos, um grupo de dez pessoas, uma semana trancados num quarto, transando”, conta o diretor de teatro. “Essa técnica funciona porque todos os demônios da pessoa emergem”.

Bem pontuado… onde está o demônio não está Deus.

O certo é que um número significativo de sannyasins (discípulos) de Osho adotaram a Doutrina do Santo Daime, buscando sincretizar os dois sistemas de valores: a ética cristã e a libertinagem do dark room do ashram de Osho em Puna, na Índia.

A coincidente proximidade das datas de falecimento de Osho e do Padrinho Sebastião (19 e 20 de janeiro de 1990), levou a que esses sannyasins/daimistas concluíssem que os dois desencarnados estavam trabalhando juntos no astral…

Curioso, o mesmo Padrinho Sebastião que tinha se tornado celibatário e pedido votos de celibato para muitos da sua irmandade, trabalhando lado a lado com o “guru do sexo”…

Bem, em todas as denominações religiosas que se prezem pululam escândalos sexuais. Parece que isto é inerente aos religiosos – ao lado da hipocrisia. O fato novo é que entre certos daimistas os escândalos sexuais passam a ser justificados doutrinariamente pelos adulterinos que se intitulam sannyasins de Osho como uma forma de buscar a libertação…

Na verdade esses pecadores vivem na maya, mundo de ilusão, presos aos instintos e desejos mundanos. Ao invés de ilusoriamente alcançar a sua emancipação, praticando o tantra da mão esquerda, correm o risco de queimar no fogo da geena (inferno) ou, na melhor das hipóteses, sofrer as consequências terrenas de tal vida irresponsável: infelicitando a si mesmo e seus familiares e amigos pela conduta censurável.

Correm o risco de após o desencarne, sofrerem na erraticidade como espírito vagabundo, até que um dia, na sua santa misericórdia, Deus lhes dê licença para uma outra encarnação.

(Artigo publicado originalmente em 2007)

 

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.