Menininha do Gantuá. Mãe do Brasil

Maria Escolástica da Conceição Nazaré (Mãe Menininha do Gantois) e Jorge Amado. Mãe Menininha do Gantois (Salvador, Bahia, 10 de fevereiro de 1894 - 13 de agosto de 1986) foi uma Iyálorixá (mãe-de-santo) brasileira, filha de Oxum.

Maria Escolástica da Conceição Nazaré (Mãe Menininha do Gantois) e Jorge Amado. Mãe Menininha do Gantois (Salvador, Bahia, 10 de fevereiro de 1894 – 13 de agosto de 1986) foi uma Iyálorixá (mãe-de-santo) brasileira, filha de Oxum.

Um dos mais conhecidos terreiros de candomblé da Bahia. O Terreiro do Gantois foi regido durante muitos anos por Mãe Menininha do Gantois e teve papel importante na aceitação do culto do candomblé.

Um dos mais conhecidos terreiros de candomblé da Bahia. O Terreiro do Gantois foi regido durante muitos anos por Mãe Menininha do Gantois e teve papel importante na aceitação do culto do candomblé.

13 de agosto. Passagem para o mundo espiritual de Mãe Menininha do Gantuá.

Na Bahia de todos os santos e orixás, nasceu a 10 de fevereiro de 1894, Maria Escolástica da Conceição Nazaré, conhecida como Mãe Menininha do Gantuá.

Sucessora de Mãe Pulchéria, dirigiu o Terreiro de Candomblé do Gantuá por mais de cinquenta anos, época que aquele ilê viveu o seu apogeu, devido à força e poder dessa filha de Oxum, ela própria uma deusa das águas que veio à Terra e viveu entre nós, nos dando a graça da sua presença.

Deus Olorum, Ele mesmo, de quando em quando manda os seus mensageiros em nosso auxílio. Para restaurar a vida reta, a paz, o amor e a verdade. É assim para todos os povos, pois todos são eleitos de Deus. Também o é o povo de santo.

Mãe espiritual dos baianos, a yalorixá Menininha do Gantois (Gantuá) era reverenciada por poderosos governantes, famosos artistas, intelectuais renomados e homens simples e anônimos do povo.

Sua sabedoria, seus bons conselhos e magnetismo era curativo dos males físicos, emocionais, mentais e espirituais de todos que a procuravam para uma palavra amiga, uma benção e a busca da salvação.

A mãe-de-santo Menininha do Gantuá tinha gravado no nome quatro vezes a designação da Mãe de Deus: Maria-Escolástica-Conceição-Nazaré.

Apesar de ter sido a principal representante dos cultos afro-brasileiros do seu tempo, quando perguntada qual a sua religião, se intitulava católica, praticando e afirmando a doutrina ecumênica dos caminhos ao Senhor.

Há um significativo caso, de janeiro de 1980, quando a televisão italiana gravou um documentário sobre Mãe Menininha do Gantuá. A entrevistadora dormiu no terreiro. No café da manhã provou de tapioca, mungunzá e café preto. A primeira pergunta do dia:

– A senhora gosta de televisão?

– Gosto mais de rádio.

– E qual seu programa preferido?

– O dos crentes. Não perco. Me levanto cedo pra ouvir o pastor Valfrido.

Cresci – menino pobre itapagipano – embalado pelos tambores dos grandes terreiros e pelos mitos e lendas do misterioso culto aos orixás, deuses trazidos ao Brasil após a diáspora negra e infame escravidão.

Uma querida amiga afirmava que, no centro espírita em que frequentava, Mãe Menininha era tida como uma oxum viva, uma deusa do Mundo Maior aqui encarnada, vivendo entre nós e respirando este mesmo prana – um privilégio imenso para os seus contemporâneos.

Assim sendo, este ser divino, esta deusa das fontes e das águas doces nos concedia a graça de viver entre nós, respirando o mesmo prana que nosotros, pobres mortais.

Quando a grande sacerdotisa completou 80 anos de existência, a Cidade da Bahia se engalanou para homenageá-la. Para o Gantuá me dirigi com um grupo de amigos, e ao contemplá-la e reverenciá-la fui agraciado com a sua divina benção.

Numa outra noite encantada, 13 de agosto de 1986, as rádios da Bahia noticiaram a sua passagem para o mundo espiritual, o reino de Olorum, e naquela noite silenciosa a sua oração foi diversas vezes entoada, lembrando que éramos nós que precisávamos de seus rogos e invocações.

Viajo à Amazônia Ocidental, século XXI, e, numa festa da casa espírita que frequento (Rio Branco-Acre), ouço o cântico de um hino-ponto em homenagem a essa mãe dos baianos, mãe de todos nós, como testificação de sua divindade.

Após esta mágica noite, por duas vezes consultei o oráculo interior e me foi revelado e confirmado a condição de ser divino – ser superior – da “Oxum mais bonita, hein”, que ‘tá no Gantuá.

Passam-se alguns meses e semanas, o amanhecer úmido mas sem chuvas do inverno acreano é convidativo à caminhada meditativa na floresta amazônica.

Acordo minha consorte e, naquela hora em que as cobras não dormem vamos fazer trilha pela mata e margens do igarapé São Francisco.

Já é de hábito encontrarmos profusão de ofídeos pelo caminho. Felizmente não ameaçadoras no mais das vezes. O certo é que, confiantes na Rainha da Floresta, rogamos a sua proteção ao adentrar o reino vegetal e não tememos mal algum, pois aquele que “habita no esconderijo do Altíssimo” calcará aos pés o filho do leão e a serpente e não será atingido.

Até que, involuntariamente, inesperadamente, minha voz e garganta entoam um conhecido cântico de guarnição, que ecoa pelas matas:

– Olorum que mandou Essa filha de Oxum Tomar conta da gente E de tudo cuidar Olorum que mandou Ê-ô Ora-iê-iê-ô!

Ao tempo em que uma bela e colorida cobra coral atravessa sinuosa a picada na qual marchávamos, a poucos centímetros de nossos indefesos pés. Majestosamente alcança o outro lado, desaparecendo no mistério da floresta.

Sãs, salvos e fervorosos continuamos a nossa caminhada.

Receba a nossa sincera gratidão, Mamãe Oxum, por teu amor e proteção a esses pobres filhos teus.

Ora-iê-iê-ô!

Oração da Mãe Menininha

Ai! minha mãe minha Mãe Menininha

Ai! minha mãe Menininha do Gantuá (Gantois)

A estrela mais linda, hein?

– Tá no Gantuá.

A beleza do mundo, hein?

– Tá no Gantuá.

E a mão doçura, hein?

– Tá no Gantuá.

O consolo da gente, ai?

– Tá no Gantuá.

A Oxum mais bonita, hein

– Tá no Gantuá.

Olorum que mandou Essa filha de Oxum

Tomar conta da gente

E de tudo cuidar

Olorum que mandou

Ê-ô

Ora-iê-iê-ô!

(Dorival Caymmi,1972)

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.