Philippe Bandeira de Mello: ayahuasca, a nova aurora de uma antiga manhã

Capa do livro 'A nova aurora de uma antiga manhã', de Philippe Bandeira de Mello.

Capa do livro ‘A nova aurora de uma antiga manhã’, de Philippe Bandeira de Mello.

No reino vegetal encontram-se verdadeiras dádivas de Deus: sementes, folhas, flores, frutos, raízes e cipós com surpreendentes propriedades transcendentais, levando o usuário das beberagens preparadas com tais substâncias a estados elevados de consciência, despertando o Divino que existe em cada um de nós. 

Por Juarez Duarte Bomfim

Por que somos tão fascinados por estados alterados de consciência? Por que a nossa ânsia, como indivíduos, da incessante busca de estados não ordinários de consciência?

Muitas vezes, essa busca pode levar alguns — ou muitos — ao abuso do álcool e das drogas, a um caminho equivocado que conduz à dependência química, à morte ou completa deterioração da dignidade humana, trazendo malefícios para si e aos que o cercam.

Por outro lado, o impulso do individuo a utilizar substancias que alteram a consciência pode ser visto, mesmo de maneira difusa, como um desejo sincero de experimentar o transcendente, o extraordinário.

Existe um mal-estar que acomete os indivíduos na contemporaneidade, o que os leva a buscar soluções e fuga das suas vidas ordinárias, numa tentativa de retorno ao Paraíso, isto é, à felicidade. Boa parte da psicopatologia humana surge de uma tentativa de retorno ao Éden — a Casa do Pai.

Também difusamente, muitos procuram dar um sentido para as suas vidas. E qual o sentido da vida?

A questão ontológica central da existência humana pode ser resumida a esta indagação: qual o sentido da vida?

— Buscar a felicidade, responderíamos.

Alçada a categoria de verdade autoevidente e direito inalienável, esta condição humana chamada felicidade tem sido ansiosamente buscada por muitos.

E essa procura — às vezes desenfreada — induz parte considerável da humanidade a comportamentos autodestrutivos.

Daí que a busca arcaica e universal de estados não ordinários de consciência, por diversos meios, leva alguns indivíduos ao abuso de drogas e álcool — como já mencionamos.

Relembremos a célebre Declaração: todos os homens são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, e entre estes estão o direito a vida, a liberdade e a busca da felicidade.

Caminhante, o caminho se faz ao caminhar… A alguns se revela o caminho enteogênico: o uso de substancias visando a experimentar o transcendental e o sagrado.

A busca universal por estados de consciência elevados se alicerça em uma “sede de plenitude”, no anseio por estados de consciência mais amplos e íntegros.

Ah e tanto tempo que perdemos… e quanto que ofendemos o nosso corpo físico e mental, nos afundando no vício e no pecado (adharma), até o despertar da aventura enteogênica…

No reino vegetal encontram-se verdadeiras dádivas de Deus: sementes, folhas, flores, frutos, raízes e cipós com surpreendentes propriedades transcendentais, levando o usuário das beberagens preparadas com tais substâncias a estados elevados de consciência, despertando o Divino que existe em cada um de nós. “Vós sois deuses, todos vós sois Filhos do Altíssimo” (Salmos 82: 6).

Enteógeno significa o advento de Deus e do sagrado dentro de nós. A experiência mística que se revela ao beber o Divino. Porém, a experiência do sagrado em cada um só se dá pela graça: é a planta sagrada que lhe escolhe, e não o contrário.

Existem muitas variedades de plantas sagradas, plantas professoras. Por circunscrição experiencial eu só posso testificar de uma: a milenar bebida ayahuasca, também chamada de Daime ou Vegetal — entre outras denominações.

Na tradição ayahuasqueira distinguem-se dois momentos experienciais do uso da bebida: “força” e “luz”. A “força” corresponde a atuação da ayahuasca dentro do corpo físico e mental de cada um, enquanto energia e manifestação da energia. Já o momento de “luz” é a visão extática ou o êxtase visionário, uma lembrança que a ayahuasca traz da centelha divina que habita em nós.

Para nós ayahuasqueiros, esta bebida de “poder inacreditável” — cipó dos mortos, liana de los espiritus… que já foi chamada de “cinema de índio”, “Deus engarrafado”, “Deus alcalóide” — é a maior das dádivas que a biodiversidade da floresta amazônica proporcionou ao mundo Terra.

Faço essas breves considerações para apresentar o livro de Philippe Bandeira de Mello, “A nova aurora de uma antiga manhã”, estudos sobre o universo enteogênico e, particularmente, as múltiplas possibilidades de uso da ayahuasca: como sacramento religioso, no combate as drogadicções, para a psicoterapia etc.

Philippe Bandeira é psicólogo junguiano e transpessoal, dirigente de um centro ayahuasqueiro no Rio de Janeiro, onde se empenha em manter viva e acesa esta luz, esta CHAMA: Círculo Holístico Arca da Montanha Azul.

 Eu e Philippe temos muito em comum de vivência na grande escola espiritual que é para nós o adorável Planeta Acre. Tivemos e continuamos a ter a oportunidade de aprender com nossos queridos mestres ayahuasqueiros e o privilégio de gozar de suas amizades.

Quando, já há muitos anos, num bailado comemorativo em uma das casas da Barquinha (Rio Branco-Acre), pedi ao seu filho Mickael que nos apresentasse, surgiu ali uma amizade à primeira vista, diria até que nascia naquele momento uma relação de cumplicidade. Cumplicidade esta só existente entre iniciados em grandes mistérios — e este grande mistério é o maravilhoso mundo do Daime.

Philippe nos presenteia com este erudito e bem fundamentado livro, que traz uma enorme gama de assuntos de seu interesse, que generosamente compartilha com o leitor.

Leiam. Entre os inúmeros assuntos tratados destaco, com admiração, a maneira como ele descreve a linha daimista da “Barquinha” e seus grandes expoentes: o mestre fundador, Frei Daniel e o velho pastor Frei Manuel, que “canalizaram” esta linda, misteriosa e pouco conhecida doutrina.

E tem mais… Leiam. Os surpreenderá. Leiam.

Livro: A nova aurora de uma antiga manhã, Philippe Bandeira de Mello.

Contato: http://arcadamontanha.blogspot.com.br/

Confira o vídeo: Aya2014 um novo Sol para a humanidade Amanhecer

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.