Investigação das contas secretas da Construtora Odebrecht tem poder de revelar como políticos financiavam campanhas e quais políticos foram beneficiados no esquema de corrupção

Brasília, Palácio do Planalto. Revelações da Operação Lava Jato agrava crise política, que retroalimenta crise econômico. Governo tenta construir pacto para a superação das dificuldades e a estabilidade do poder.

Brasília, Palácio do Planalto. Revelações da Operação Lava Jato agravam crise política, que retroalimenta a crise econômica. Governo tenta construir pacto para a superação das dificuldades e estabilidade do poder.

O caso Lava Jato apresenta nova dimensão com a recente descoberta de pagamento de propina para os corruptos envolvidos no esquema de desvio de Petrobras. Segundo relatos, os dados levantados das contras secretas da Construtora Norberto Odebrecht (CNO), através do governo suíço, indicam que o esquema de corrupção vai muito além da Petrobras, e deve atingir outros setores da administração pública, além de empresas privadas.

Os relatos indicam que não apenas PT, PMDB e PP formam os núcleos políticos de uma rede de corrupção cuja finalidade é a obtenção e manutenção do poder político e econômico. Mas que, também, partidos oposicionistas a exemplo do PSB, PSDB e DEM são apontados como beneficiários do esquema.

O dado mais revelador é que as informações repassadas pelo governo suíço podem comprovar quais políticos foram, diretamente, beneficiados pelo esquema de corrupção levantado pela Operação Lava Jato durante o período de 2004 a 2014.

Crise interminável

Em Brasília, os gabinetes dos parlamentares abrigam seguidas reuniões com a finalidade de avaliar a extensão do que pode ser revelado com as investigações envolvendo um dos maiores grupos capitalistas do mundo, a Construtora Norberto Odebrecht (CNO). Apenas para dar a dimensão da crise, os presidentes da Câmara Federal, Eduardo Cunha (PMDB); e do Senado, Renan Calheiros (PMDB) também são apontados como beneficiários do esquema. Relatos indicam que a denúncia de ambos ao Supremo Tribunal Federal (STF), pela Procuradoria-geral da República, é apenas uma questão de dias.

Com a finalidade de buscar alternativas para as crises política e econômica, a presidenta Dilma Rousseff (PT) deve convidar governadores os 27 estados a participar de uma reunião para avaliar o momento e buscar alternativas para superação das dificuldades da gestão econômica e política. Nos bastidores da política, o que se comenta é que a presidenta objetiva um pacto suprapartidário com a finalidade de manter o poder e a governabilidade.

Segundo informações, o governo Rousseff avalia que a amplitude das investigações envolve significativo espectro da classe política e econômica do país, e que a crise política, decorrente das investigações, contamina a crise econômica, resultado da má gestão pública. O ciclo apenas poderá ser superado se a crise política for resolvida. Um cenário que parece distante. Primeiro, porque os desdobramentos da Lava Jato parecem incertos. Segundo, porque os opositores ao governo não o são por ideologia, mas pelo pragmatismo do poder como forma de acumulação.

Infere-se que não existem soluções simples para problemas complexos. A possível saída da presidenta Rousseff do comando da nação não vai solucionar os inúmeros casos de corrupção, e o sistema político continuará fragilizado, independente de quem esteja no comando do país. Temas como financiamento de público de campanha, unificação do calendário eleitoral, fim das coligações partidárias, voto distrital, clausulas de barreiras, fidelidade partidária, e limite de gastos de campanha não foram aprovados pelo Congresso Nacional, ou seja, o sistema corrupto, revelado pela Lava Jato, persiste no atual modelo de representação política, e deve ser reafirmado nos próximos pleitos eleitorais.

O pote de ouro

É cada vez mais nítida a ideia de que não existe luta por um ideal de sociedade. Todos querem meter a mão no pote de ouro, que é o comando da 7º maior economia do mundo. Todos querem uma parte do Estado para si. Mas, para o povo, além de vãs promessas, resta a dura realidade das favelas, do subemprego, e da baixa qualidade de vida, e por fim, da alienação quanto a própria condição em que sobrevivem.

O ciclo perverso da corrupção tem início quando o cidadão troca a ideologia do voto, pelo voto no benefício pessoal. Ele culmina com a continua alienação do próprio indivíduo e, concomitantemente, com a manutenção de uma burguesia corrupta, que não apenas utiliza a mais-valia como forma de acumulação, mais que utiliza a corrupção do Estado Nação como forma de ampliar indefinidamente a própria riqueza. Contribuindo para perpetuar o exército formado pelo subproletariado alienado superexplorado. Que observa, indiferente, um país rico e produtor de riqueza, manter parte significativa da população alienada das condições ideais de uma vida digna.

Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.