Exclusiva: presidente da Alba, Marcelo Nilo avalia governo Rui Costa e comenta sobre crise nacional, greve nas universidades estaduais, saída do PDT e CPI do metrô

O cientista social e jornalista Carlos Augusto (diretor do Jornal Grande Bahia). A entrevista entrevista  José Marcelo Nascimento Nilo, presidente da Alba.

O cientista social e jornalista Carlos Augusto (diretor do Jornal Grande Bahia) entrevista José Marcelo Nascimento Nilo, presidente da Alba.

O presidente da Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), José Marcelo Nascimento Nilo (PDT), concedeu entrevista exclusiva ao cientista social e jornalista Carlos Augusto (diretor do Jornal Grande Bahia). A entrevista ocorreu na quarta-feira (08/07/2015), oportunidade em que o presidente da Alba visitou Feira de Santana para palestrar no Colégio Modelo Luís Eduardo Magalhães.

Durante a entrevista, Marcelo Nilo avalia os seis meses do governo Rui Costa (PT), os reflexos da crise nacional sobre o Estado da Bahia, a necessidade de um plano de investimentos – envolvendo União, Estado e Município – que conduza Salvador a superar os graves problemas de urbanidade, a necessidade de instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que revele os motivos de tantas paralisações da obra do metrô durante a gestão de Antônio Imbassahy, mudança de partido, fundação do PL, greve nas universidades públicas estaduais, dificuldade com relação ao acesso de dados do Portal da Transparência da Alba na internet, longevidade na presidência da Alba, e personalismo na nomeação de patrimônio público.

Confira a entrevista

Jornal Grande Bahia – Como o senhor avalia estes seis primeiros meses do governo Rui Costa?

Marcelo Nilo – Avalio positivamente. O governador Rui Costa visitou mais de 55 municípios. Rodo município que ele vai, leva obra, Feira de Santana inclusive já vi diversas vezes. Eu acho que está fazendo o máximo que poderia fazer, levando investimentos. Agora a situação financeira do Estado da Bahia é difícil, pois quando o país entra em crise os estados e as prefeituras entram. Eu diria que ele está muito bem como gestor e administrador.

JGB – Como analisa os reflexos da crise nacional na Bahia?

Marcelo Nilo – Na Bahia, todos os governadores dependiam muito do governo federal. Todos! Só para você ter uma ideia, o orçamento do estado da Bahia é R$ 40 bilhões para uma população de 15 milhões, o Rio de Janeiro é R$ 95 bilhões para uma população de 16 milhões. Além do Rio ser um estado territorialmente menor, a Bahia é um estado mais extenso, em que 2/3 pertence ao semiárido, consequentemente, todos os investimentos tinham participação do governo federal.

Nós tivemos recentemente aqui em Feira de Santana oo lançamento do BRT. S eu não me engano, orçado em R$ 96 milhões, todos o recurso é proveniente do governo federal, do Plano de Aceleração ao Crescimento 3 (PAC3). Então, como o país está numa crise que ninguém pode negar, uma crise política, uma crise de credibilidade, uma crise econômica, e o que interessa mais ao povo é a econômica, a crise é terrível. Mas eu estou com muita esperança que até o fim do ano a gente termine essa crise, se nós continuarmos na crise no Brasil, os estados todos estarão em crise. Tem estado por exemplo o governo do Paraná do PSDB está atrasando o salário, não dou um centavo de aumento e na Bahia o governador Rui Costa pelo menos deu a reposição salarial.

JGB – O Jornal Grande Bahia compreende que para superar a crise urbana em Salvador, é necessária uma política de longo prazo, que transpasse o governo imediato. É necessário, também, que a Assembleia Legislativa em conjunto com a União e o município de Salvador desenvolva uma política que contemple uma modificação do perfil urbano da capital. Como o senhor analisa essa abordagem social?

Marcelo Nilo – Primeiro que de há cerca de três anos nós estávamos em uma crise terrível de mobilidade urbana em Salvador. Agora para mim, pessoalmente, para muitas pessoas, o governador Jaques Wagner foi o governador que mais trabalhou em Salvador. Foi com a gestão dele que finalmente o metrô começou a andar. Creio que até o fim de 2016 nós teremos o metrô ligando Iguatemi até a Av. Paralela. Então nós avançamos muito nessa área.

Agora tem um BRT em Salvador, que está pronto também do governo federal, inclusive o prefeito ACM Neto está ai nas rádios anunciando, pessoalmente, em discurso, pedindo ao governo federal ajuda para o BRT. A presidente Dilma Rousseff autorizou o ministro que faça a liberação do BRT de Salvador.

A crise de mobilidade urbana ocorre praticamente em todas as cidades, se for em São Paulo, 18 horas você não anda. Mas há dois anos nós estávamos piores, hoje nós avançamos. Não estou dizendo que é o ideal. Mas se nós fizermos o BRT, concluir o metrô, e fizermos mais alguns viadutos naquelas transversais de Salvador com a Avenida Gal Costa nós vamos realmente dar um avanço muito grande, não vou dizer que é o ideal, mas nós vamos avançar bastante.

JGB – O senhor é um conciliador, esse é o seu principal perfil e isso fez com que o mantivesse na presidência da Assembleia por tanto tempo. Mas falando em metrô, a sociedade cobra uma CPI, com a finalidade de revelar o que ocorreu durante a execução do metrô na gestão municipal de Antônio Imbassahy.

Marcelo Nilo – Primeiro é o seguinte, eu digo a você que o recurso do metrô é um recurso federal e municipal, não tem recurso do estado. Então quem tem que fazer a CPI é a Câmara Municipal ou o Congresso Nacional. Infelizmente o metrô não tem recurso estadual suficiente para que nós possamos fazer uma CPI.

Eu diria a você que eu não morro de amores por Antônio Imbassahy, mas não creio que ele seja uma pessoa desonesta. Eu não morro de amores por ele, não acho que é uma pessoa que mereça meu convívio pessoal, mas acho que ele é uma pessoa honesta. Estou convencido que ele é uma pessoa íntegra, e se a CPI for feita, tem que ser pela Prefeitura Municipal. Porque na época ele era prefeito de Salvador.

JGB – O que existe de concreto sobre a sua saída do PDT?

Marcelo Nilo – Eu gostaria muito de continuar no PDT, porque eu fui muito bem recebido. Mas o PDT cresceu e está mudando de lado. Estou convencido de que o PDT não ficará com o governo Rui Costa em 2018. Então, como eu conheço de política um pouco, pela minha experiência, já que o PDT vai apoiar um candidato da oposição, eu prefiro desembarcar do PDT pela porta da frente.

Estamos criando o PL, se for criado e for concretizado, porque na política você tem que ver o preto no branco, se for concretizado, provavelmente eu vou para o PL. Mas eu só irei depois que conversar com o presidente Carlos Lupi, que é o presidente nacional do PDT. Provavelmente na terça ou quarta-feira (15/07/2015) eu vou a Brasília.

JGB – Como avalia essas mudanças e o reflexo no comando do PDT de Feira de Santana?

Marcelo Nilo – Eu estou conversando com um deputado de Feira de Santana para vir para o PL. Então, vamos aguardar um pouco porque eu quero o PL de Feira de Santana forte. Eu quero o PL na Bahia forte, e provavelmente – porque na política a gente não pode dizer que é 100% – nós vamos começar o partido tendo de 8 a 10 deputados, e eu quero o PL forte na Bahia e em Feira de Santana.

JGB – Sobre direito de greve e direito educação. Mais uma vez uma longeva greve é implementada na Bahia no setor educacional, com possibilidade de comprometer o semestre letivo. Como analisa esse quadro?

Marcelo Nilo – Eu fico triste. Porque o governador Rui Costa, se ele estivesse recurso, com certeza, ele daria aumento aos professores das universidades. Agora, eu sei que o professor ganha pouco, eu sei, estou consciente disso, mas tem a questão do orçamento.

Existe um orçamento do estado. Mas o orçamento do estado está muito apertado e o governador Rui Costa foi um dos poucos governadores do Brasil que deu aumento da reposição da inflação do ano passado. Inclusive alguns govenadores atrasaram salários dos servidores.

Eu não creio que o governador Rui Costa vá ter condições de dar aumento aos professores. Agora eu acho que os professores deveriam dar um crédito de confiança ao governador. Ele assumiu agora, e só para você ter ideia, a receita desse ano (2015) está menor do que a receita do ano passado. Então ele arrecadou esse ano menos do que arrecadou em 2014, e mesmo assim ele deu aumento, mesmo assim ele está inaugurando, três vezes por semana, obras no interior do estado. Então é necessário ter uma compreensão das pessoas para o próximo ano.

Com essa crise que nós estamos as pessoas precisam compreender que nós temos que fazer sacrifício. Você viu ontem a presidente Dilma baixando uma medida provisória autorizando as empresas a reduzir o salário e autorizando as empresas a reduzirem a jornada de trabalho para que diminua o índice de desemprego. O Brasil está com o índice de desemprego muito elevado e se nós não sairmos dessa crise, o índice de emprego vai aumentar e a inflação também.

Então é melhor você ter 10 funcionários trabalhando, ganhando menos, do que ter 5 ganhando mais. Essa é minha visão. Porque eu sei o que é o cidadão chegar em casa e estar desempregado. Então os professores têm que fazer um sacrifício, dar um voto de confiança ao governador para que nós possamos, no próximo ano, dar um aumento melhor.

Eu por exemplo dei aumento aos servidores da Assembleia a reposição, eu gostaria muito de dar um aumento melhor porque eles merecem e estão ganhando pouco. Porque dos três poderes, os servidores do poder judiciário é que têm o dobro da média salárial dos servidores dos poderes executivo e legislativo. Ocorreu aumento de 73% agora no Congresso Nacional. O servidor, em média do poder judiciário é o dobro do executivo e mesmo assim deram 73% de aumento no congresso e a presidência vai vetar.

Não que o servidor do judiciário ganhe muito, eu acho que inclusive eles ganham pouco, merece ganhar mais, agora nós temos que observar o orçamento. Nós não podemos ter um servidor que ganhe mais e outro menos. Se você for ver o salário dos professores da Bahia não são os melhores, mas também não são os piores. Eu diria que está acima da média nacional. Eu faço um apelo aos professores das universidades que dê um voto de confiança ao governador Rui Costa, e quem sabe no próximo ano ele possa dar um aumento melhor.

JGB – Estamos concluindo a entrevista são só mais dois tópicos e eu gostaria de falar sobre a questão do portal da transparência. O Jornal Grande Bahia é especializado em reportagem investigativa, e lamentavelmente o portal da transparência da Assembleia Legislativa não funciona de forma eficaz. Temos muita dificuldade em poder acompanhar os gastos, as despesas dos deputados e do próprio poder. Como o senhor analisa está observação?

Marcelo Nilo – Primeiro, eu respeito à sua pergunta e vou ver como é que está o site. O jornal Valor Econômico fez uma matéria avaliado que nós apresentamos a segunda melhor transparência do país.  O jornal Folha de São Paulo há um ano atrás, avaliou que nós éramos, se eu não me engano, a sexta melhor Assembleia do país no quesito transparência.

Tudo que passa pela Assembleia é publicado no Diário Oficial. O que nós estamos devendo e o que nós vamos apresentar nos próximos dias é os salários dos servidores, que é a única coisa que não tem, pois os salários dos deputados, tem, toda concorrência, toda licitação você também tem, tudo passa pelo Portal da Transparência.

O que eu estou devendo é colocar a relação dos funcionários e com os respectivos salários. Porque eu estou devendo? Porque eu pessoalmente sou ao contrário. Eu acho que não é justo que eu ganhe um valor, exceto o deputado pois o cidadão tem que saber do salário, e não é justo que você chegue a um concursado e que tenha 30 anos de vida pública servindo o poder legislativo e as pessoas saber quanto ele ganha. Então a iniciativa privada também deveria dar o exemplo.

Se o Congresso Nacional aprovasse, todo mundo deveria divulgar seu salário na internet. O certo é que tudo que tivesse um centavo de recurso público também se divulgasse. Eu sou contra, mas vou cumprir porque o que o Supremo Tribunal Federal decidiu que deve colocar os salários dos servidores.

Nós fizemos uma reunião de todos os presidentes da Assembleia do país e todos são contrário a divulgação, mas nós seremos obrigados e eu vou cumprir.

JGB – Gostaria que comentasse sobre a longevidade na presidência Poder Legislativo estadual. Isso não sinaliza uma postura negativa para todos os presidentes de Poder Legislativo no Brasil? Porque, de certa forma, mantém a própria estrutura de poder ligada a uma única personalidade?

Com a patrimonialização do público ocorre o personalismo na obra pública baiana. Um exemplo são os inúmeros lugares em que o nome Magalhães figura como nome de patrimônio público. Observe que o prédio principal da Assembleia, que deveria se chamar Palácio do Povo ou Casa do Povo, tem o nome de Palácio Luís Eduardo Magalhães. Então a sociedade precisa observar que quem constrói o público é a soma dos recursos da sociedade.

Observe que esse tipo de personalismo persiste na sociedade baiana. Inclusive em Feira de Santana, local em que nomes de pessoas vivas nomeia lugares públicos. Como avalia esses temas?

Marcelo Nilo – Eu sou contra colocar nome de pessoas vivas em monumentos, em ruas, escolas. Eu não vou comentar o nome de Luís Eduardo Magalhães em diversas escolas porque ele já faleceu, eu prefiro não falar e não fazer nenhuma crítica a pessoa que já faleceu. Mas eu sou contra se colocar nomes em monumentos de pessoas vivas, sou altamente contrário, e inclusive é ilegal.

Com relação a presidência, eu não estou eternizando meu nome porque você sabe que na Assembleia Legislativa tem uma oposição muito aguerrida, e quem me apoia é a oposição. Nas cinco oportunidades em que assumi a presidência, quatro fui lançado pela oposição. Inclusive, não gostaria de ser presidente da Assembleia pois trabalhei muito para ser candidato a governador. Porém, não criei as condições objetivas, aceitava ser candidato a vice-governador, mas na verdade não trabalhei para isto. O grupo preferiu que eu fosse candidato a reeleição como deputado estadual.

Eu me sinto honrado. Eu só disputei a presidência uma vez e ganhei com quase 80% dos votos. Na segunda, terceira, quarta e a quinta vez fui candidato único. Então se os deputados me apoiam e eu não vejo a imprensa fazer nenhuma crítica a ser consolidada por eu ser presidente. Se o povo apoia minha gestão, se os deputados aprovam, e se os deputados querem, e principalmente aqueles que eu vejo politicamente, eu tenho que respeitar a opinião dos outros. Agora eu não quero mais ser presidente da Assembleia, mas não vou dizer que não serei, porque tudo depende das circunstancias políticas.

Você tem que compreender que na vida política se você está sendo aprovado, você quer continuar. Mas se você está sendo rejeitado, você tem que sair. Se houver uma aclamação como foi da outra vez de 14 partidos, 13 me apoiado, eu vou pensar novamente. Mas nesse momento eu não estou pensando em ser presidente. Eu só penso em ser um bom presidente, concluir o meu mandato, e consolidar meu novo partido para que nós possamos trilhar novos desafios na vida pública.

Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.