Marin, CBF e Fifa: “the house is down” | Por Luiz Flávio Gomes

Luiz Flávio Gomes é jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil.

Luiz Flávio Gomes é jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil.

Os humanos, diz o filósofo espanhol Savater (Ética de urgência, p. 119), “somos maus [corruptos, violentos, sonegadores e fraudulentos] o quanto nos deixam ser. Se alguém acredita que pode fazer algo e alcançar alguma vantagem, se está completamente seguro de que nada vai ocorrer, pois o fará”. Nisso reside a certeza da impunidade. Nunca absoluta, mas algo perto disso, sobretudo em países considerados paraísos da pilhagem do alheio (como é o caso do Brasil). Um dia, no entanto, a casa cai.

Há várias décadas o mundo inteiro sabe de denúncias de fraudes e corrupções no futebol local, nacional e internacional. Pela quantidade de matérias publicadas, a impressão que se tem é que a chamada “cultura da corrupção” (agora desvelada pelo FBI) está enraizada no DNA da CBF, da Fifa assim como das Federações do Futebol (fala-se em 24 anos de corrupção, que movimentou perto de US$ 150 milhões – corrupção com o padrão Fifa, como se vê). A isso se soma a certeza da impunidade, que é a regra geral (foi assim com Ricardo Teixeira e tantos outros dirigentes do futebol nacional e internacional). Não há terreno mais fértil para a prosperidade da roubalheira. Del Nero que se cuide, visto que está metido numa herança lamacenta. A própria Copa do Mundo no Brasil poderia ter sido comprada? Nada se pode descartar no mundo do futebol, porque ele está cheio de bandas podres. O FBI está investigando tudo. Aguardemos.

A prisão de oito dirigentes do futebol mundial na Suíça, a pedido dos EUA, é muito estranha, porém, não pelas prisões em si (há muito tempo já anunciadas), sim, pela demora que isso ocorreu. Dezoito pessoas estão (desde logo) envolvidas em extorsão, corrupção, fraudes, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, subornos, pagamentos de propinas etc. Incontáveis empresas pagam propinas para dirigentes do futebol para alcançar vantagens indevidas (Nike, Traffic, Datisa etc. – veja Estadão 28/5/15: A21). Inúmeros bancos estão envolvidos em todas essas operações (porque são eles que normalmente lavam o dinheiro sujo da corrupção, a começar pelo HSBC – Estadão citado).

O discurso (ideologia) corrente no mundo da economia distingue com tenacidade o Estado da sociedade civil (particularmente do capitalismo de mercado). Toda negatividade é apontada contra o Estado (que seria o único corrupto); isso significa a santificação das empresas que atuam no mercado competitivo real ou de fachada (cartelizado). A demonização do Estado, dos políticos e dos funcionários públicos (que não é de todo absurda, diga-se de passagem) se transformou numa das táticas que se usa para esconder as trapaças das bandas podres empresariais e financeiras. Ao poder público se atribui incompetência, burocracia, falta de compromisso, corrupção etc. (muito disso é verdadeiro); a sociedade civil seria ágil, eficiente e vítima desse Estado.[1] Essa ideologia (amplamente difundida por vários meios midiáticos) mascara a verdade dos fatos, que é a seguinte: há incontáveis bandas podres no mundo empresarial e financeiro.

Teria havido corrupção nas últimas Copas do Mundo (África do Sul e Brasil) e a escolha da Rússia (2018) e Catar (2022) também seria fruto dos mesmos métodos. Marin, quando preso, teria dito: “Mas por que só eu? Cadê os outros?”. Os EUA pediram a extradição deles para a Suíça. Se forem transferidos para lá, prestarão contas para a justiça norte-americana. O que isso significa? Que o processo não demora muito (seis meses, mais ou menos), porque nos EUA 97% dos processos criminais terminam em acordo, com altíssimas multas e penalidades. Os americanos, muito mais pragmáticos que nós, priorizam nesses casos o “dinheiro” (recuperação, reparação, empobrecimento dos corruptos), não a prisão. Nós fazemos o oposto: priorizamos a prisão (para satisfação da vingança pública, que é uma festa, como dizia Nietzsche), deixando o bandalheiro normalmente rico. Nos EUA vigora, com muita eficácia (apesar de todas as críticas), a Justiça criminal negociada. Por meio da plea bargaining busca-se a solução rápida do conflito. O Ministério Público tem ampla liberdade de negociação. Normalmente, em casos de corrupção, tudo acaba no final com poucos meses de cadeia e um duríssimo golpe no bolso dos larápios (que envolvem pessoas físicas, empresas e bancos). A certeza do castigo nos EUA é dezenas de vezes mais certa que no Brasil. É esse fenômeno mais a prevenção secundária (criação de obstáculos ao crime, muitos policiais etc.) que derrubaram em 50% a criminalidade nos EUA, nos últimos 20 anos.

*Luiz Flávio Gomes é jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil.

 

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