Elimine seu concorrente, a hiperconexão digital | Por Luiz Flávio Gomes

Nunca foi fácil captar a atenção das pessoas. Muita gente sempre reclama que não consegue concentração na tarefa que está fazendo. Falta foco. Prender a atenção no que é importante (no que precisa ser compreendido, mentalizado, memorizado e aprendido) sempre foi um desafio para o Homo Sapiens (desde a Revolução Cognitiva, há 70 mil anos – veja Yuval Noah Harari, Uma breve história da humanidade: 28 e ss.). Para os amantes (ou ultramantes) da era digital o problema está se agravando brutalmente em razão da hiperconexão, sobretudo móvel (que constitui um grande malefício para quem não é capaz de ter foco). Nada tenho contra a tecnologia digital. O problema está no seu uso. Saiba como e use bem.

Pesquisa recentíssima divulgada pela Microsoft (feita no Canadá, com mais de 2 mil pessoas – veja O Globo 15/5/15: 24) revela que o tempo médio de  atenção das pessoas caiu de 12 segundos (no ano 2000) para oito em 2013. Já não digerimos as informações. Passamos por elas como se corre descalço sobre brasas. Elas entram e saem da nossa cabeça com a mesma velocidade com que são lidas e produzidas. Conhecimento é a informação organizada (Edgar Morin). Mas como organizar a enxurrada de informações vomitadas a cada segundo se nosso foco está num nível abaixo até mesmo de um peixinho dourado, que é capaz de se manter atento por até nove segundos?

A revolução tecnológica, implacavelmente, invadiu nossa vida de forma avassaladora. Isso tem seu lado bom e também aspectos muito ruins. O mais preocupante é que ficamos conectados o tempo todo (em qualquer lugar que estejamos) em coisas que nem sempre são as mais importantes. Quando nada nos prende a atenção, já corremos para o celular, tablets etc. Nosso cérebro está se tornando multitarefa, é verdade. Estamos fazendo mais de uma coisa em cada momento. Mas isso decorre da pouca atenção (do baixo foco) que damos para cada coisa que fazemos. Quem faz tudo pela metade consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo. Mas nada fica bem feito. Muitos esquecem que quem não foca se sufoca.

A distração sempre foi inimiga da atenção. Os hiperconectados ficam dispersos a maior parte do tempo (ou o tempo todo) e dessa forma vão treinando o cérebro a não compreender nem mentalizar nem memorizar as coisas. Estamos esquecendo que a atenção é como um músculo: se não a utilizamos, ela se atrofia; se a exercemos, ela se desenvolve e se fortalece (veja Daniel Goleman, Foco). Àqueles que fazem opção por buscar o sucesso, sobretudo nesse mundo complexo em que vivemos, não resta outro caminho senão aprimorar a atenção (o foco).

O rendimento máximo em tudo que fazemos (estudos, trabalhos, negócios, esportes, artes) depende muito da atenção que dispensamos para as coisas mais importantes. O que diferencia o especialista do amador ou o profissional de sucesso do mediano é o foco.

Saiba mais

Do livro de Daniel Goleman (Foco), que é o renomado autor do best seller Inteligência emocional, ainda podemos extrair o seguinte:

(1) Na era da hiperconexão digital, o sucesso depende de uma proeza de concentração em meio a um mar de distração;

(2) A ciência da atenção diz que nossa capacidade de concentração determina o nível de competência com que realizamos uma tarefa. Se ela é ruim, nos saímos mal; se é poderosa, podemos nos sobressair;

(3) A atenção, em todas as suas variantes, representa um recurso mental subestimado e pouco percebido;

(4) A tríade do sucesso é o foco interno (em nós mesmos), o foco externo (no ambiente em que estamos) e o foco no outro (nas demais pessoas). A vida bem vivida exige que dominemos os três;

(5) O modo como aplicamos nossa atenção determina o que vemos (Treisman). O foco de cada um é a realidade de cada um (Yoda);

(6) A hiperconexão com as máquinas nos retira a capacidade de entender as pessoas (de ler os sinais emitidos por elas);

(7) Já não estamos conseguindo manter uma conversa sem o uso das máquinas (estamos deixando de promover discussões mais aprofundadas sobre o que realmente importa);

(8) Muitas pessoas não estão conseguindo ler sequer duas páginas de um livro sem se dobrar à necessidade incontrolável de ver as últimas mensagens ou notícias que chegaram em suas máquinas;

(9) Nossa atenção parcial está se tornando “contínua”; as mensagens não custam nada; o preço que pagamos por isso é nossa atenção; “a riqueza da informação e das mensagens está gerando a pobreza da atenção”;

(10) Quando percebemos que nossas mentes não estão presentes no que estamos fazendo cabe sempre perguntar quais oportunidades de evolução nós perdemos.

*Luiz Flávio Gomes é jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil.

 

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