A peste é suprapartidária | Por Luiz Flávio Gomes

Bolívia, El Salvador e Paraguai (centenas de vezes mais pobres que o Brasil), conforme Relatório do Fórum Econômico Mundial, estão cuidando melhor que nós do capital humano (da preparação e futuro dos jovens). É mais uma vergonha que decorre da peste que nos assola, que é suprapartidária. Vai muito além dos mundinhos mesquinhos partidários do PT e do PSDB (que há vinte anos disputam encarniçadamente o poder político). Eles não conseguiram sequer melhorar o nefasto Gini de 0,51 (absurda desigualdade), que vigorava no princípio dos anos 60. Depois de 20 anos dos governos “PeTucanatos”, o lamaçal etiopizante ainda nos persegue. Nossa competitividade mundial é ridícula. As elites dominantes continuam se achando acima da lei (enquanto as classes populares se julgam fora da lei), com o direito de ter direitos diferenciados (“licenças” para roubar, para fraudar, para corromper, para financiar campanhas com dinheiro pilhado do poder público etc.).

Do alto da nossa tolice massificada, formatamos a cabeça para ver todos os nossos problemas desde a perspectiva partidária e ideológico-tribal (nossos olhos só conseguem ver a superfície, o lado visível do Estado e da estrutura social). Nos guerreamos por essas ideologias de fundo de quintal e não enxergamos o andar de cima (as estruturas mais profundas do poder). Os partidos e as ideologias partidárias fazem parte do problema (não da solução).  A peste que nos contamina está introjetada em toda sociedade brasileira, mas é malandramente manipulada pelas classes dominantes, as elites que detêm os poderes econômico, financeiro, político, administrativo e social.

A peste que sempre devastou o Brasil (impedindo seu crescimento econômico, democrático, tecnológico, cultural, educacional, cidadão etc.) é endêmica. Melhoramos nas duas últimas décadas (nos governos do PSDB e do PT)? Os indicadores socioeconômicos divulgados assim como o funcionamento das instituições (embora ainda muito precário) dizem sim. Mas aqui há um problema: se o paciente está com 40 graus de febre e esta cai para 39, pode-se dizer que houve melhora; isso, no entanto, não significa boa saúde. O problema continua. FHC recebeu o País com Gini de 0,60 (uma aberração em termos de desigualdade, uma das mais brutais do mundo). Lula e Dilma, em 2012, fecharam com 0,51 (índice igual ao princípio dos anos 60, antes da ditadura civil-militar). Nos recentes anos (2013 e 2014) tudo ficou estagnado. O Brasil está devagar, quase parando.

Nenhum partido político conseguiu fazer subir significativamente nosso IDH (Índice de Desenvolvimento Humano – ocupamos a vergonhosa posição 69ª). Os políticos no nosso país (do PT, do PSDB, do PMDB etc.) não conseguem fazê-lo evoluir com consistência. São lideranças que não lideram no interesse de todos. Crise detrás de crise. São correias de transmissão e também capachos da peste, que é virótica (e alcança todo mundo). Muito discurso, muita demagogia e pouco progresso real. Desde o financiamento das suas campanhas lá está presente a peste maldita.

A cada pesquisa que se revela sobre o Brasil nota-se o abismo provocado por ela, pela peste que nos vergasta. No Relatório de 2015 sobre o Capital Humano do Fórum Econômico Mundial (veja Clóvis Rossi, Folha 17/5/15) o “grande ativo da nação” (sucesso de cada país em adestrar, desenvolver e preparar o jovem para a vida pessoal e profissional) revelou-se um desastre: de 124 países o Brasil ficou na 78ª posição. A mais nefasta palhaçada do Tiririca foi nos dizer que “pior que está não fica”. Como não? No item preparo dos menores de 15 anos o Brasil está no 91º lugar. Fruto de uma escolarização precaríssima (porque deplorável). Estamos criando animais pouco domesticados (Nietzsche). Soldados de um rebanho (não cidadãos com dignidade). Isso implica para o país um grande preço.

As crianças e os adolescentes brasileiros (desde FHC) entraram na escola (houve universalização do ensino básico). O problema é que a escola de qualidade não entrou dentro deles. O Brasil (sétima economia do mundo) é apenas o 13º país latino-americano/caribenho em matéria de tratamento digno de seu capital humano (perde para Chile, Uruguai, Argentina, Panamá, Costa Rica, México, Peru, Colômbia, El Salvador, Bolívia, Paraguai e Barbados). Países pobríssimos como El Salvador, Bolívia e Paraguai estão preparando melhor que nós o seu capital humano (seus jovens). Isso é uma obscenidade, diz Clóvis Rossi. Para completar o quadro tétrico, os difusores mais fundamentalistas da peste acham que a solução é simplesmente matá-los ou levá-los para a cadeia (mesmo quando não cometem crimes violentos).

Que peste é essa? É a peste da brutal, extremada e cruel desigualdade, que está internalizada em (praticamente) todos nós. Jessé Souza divide os brasileiros em “europeizados” e “não europeizados” (a “ralé”). Céli Regina J. Pinto (A banalidade da corrupção) contesta: o povo que introjeta (naturaliza e legitima) a ideia da desigualdade extrema não é europeizado. A modernidade brasileira não está marcada pela europeização completa. Há uma classe de semi-europeizados e uma enxurrada de “etiopizados”. Todos unidos pela ideia da desigualdade legitimada. Todos se imaginam com o direito de ter direitos diferenciados (são as “licenças” que cada um se concede para roubar, para sonegar impostos, para matar, para corromper, para fraudar, para lavar dinheiro sujo etc.). Poucos se julgam no dever de cumprir a lei de forma igualitária. Quase todos se julgam fora ou acima da lei. Perder no preparo do nosso capital humano para países paupérrimos como Bolívia, El Salvador e Paraguai é uma vergonha, que não ruboriza nem o “etiopizado” nem o “semi-europeizado”. Todos somos coniventes com essa vergonha.

*Luiz Flávio Gomes é jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil.

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