Vozes de Salvador | Por Emiliano José

Emiliano José é jornalista, escritor, doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (professor aposentado da UFBA).

Emiliano José é jornalista, escritor, doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (professor aposentado da UFBA).

Convivo com Ordep Serra há muitos anos. Mais recentemente, de modo mais intenso. Tem se destacado, nos últimos tempos, como um autêntico cidadão de Salvador, desses que sofrem por sua cidade, e que não apenas sofrem, desses que lutam de peito aberto em defesa dela, que não tem medo de falar do amor pela Cidade da Bahia, e que treme de indignação ao vê-la, tão desamparada, tão agredida, tão entregue à exclusiva sanha dos interesses privados.

Falo dele como expressão de um amplo movimento social que vem se desenvolvendo em Salvador contra o atual estado de coisas. Tem se afirmado como a principal liderança do Movimento Vozes de Salvador, que reúne um grande número de pessoas e entidades voltadas à defesa da cidade e de seu povo, eu próprio incluído. Recentemente, Ordep Serra assinou um panfleto – não precisamos ter medo do nome panfleto, que acho bonito, e que carrega uma simbologia centenária – onde, como coordenador do Vozes da Cidade, denuncia o processo de agressão a que está submetida a capital da Bahia. Agressão criminosa, como diz o texto.

A degradação da orla marítima, a impressionante devastação ambiental, a privatização sem limites do espaço público, o estrangulamento crescente do trânsito, o inferno sem fim do metrô de calça curta, as negociatas com o mecanismo da Transcom, a desmoralização do planejamento urbano, a precariedade dos serviços, o colapso financeiro do município, a ausência de transparência da gestão, o agravamento das condições de vida do povo que vive na periferia e no miolo da cidade, a mercantilização avassaladora do carnaval baiano, das festas e tradições populares são algumas facetas da agressão a que se refere Ordep Serra, com propriedade.

E para o nosso professor Ordep Serra e para o Movimento Vozes da Cidade, a situação elevou-se a níveis insuportáveis com a aprovação da Lei de Ordenamento e Uso do Solo, que sacrificaria a cidade à ganância do capital imobiliário, interessada em assaltar a última reserva de mata atlântica de Salvador, o Vale Encantado, que inclui área sagrada para as religiões de matriz africana, a par de autorizar o aumento do gabarito de edificação na orla. Lembro-me de artigo que escrevi, neste espaço, sob o título “Os bichos estão chegando”, falando desse impressionante processo de destruição do meio ambiente na cidade, que levava os bichos a buscarem abrigo nas residências.

Já há uma movimentação da sociedade civil, de modo especial da juventude, que tem ganhado as ruas contra esse estado de coisas. E tenho certeza de que o Vozes da Cidade, Ordep Serra à frente, contribuiu muito para isso. Agora, é dar sequência a essa movimentação, e conferir a ela caráter de luta política, pois, sem isso, tal esforço ficaria sem norte. O Ministério Público Estadual, nesse caso, tem procurado cumprir o seu papel, ao tentar evitar que a agressão da Louos, ou ao menos de aspectos dela, se consuma.

O importante, claro, é a movimentação social e política em curso, que não se conforma com uma gestão tão entregue aos interesses privados. Volto a dizer o que já disse aqui: todos os interesses são legítimos, desde que subordinados à causa pública, às necessidades da maioria da nossa gente. O interesse de alguns não pode sobrepor-se ao de milhões de soteropolitanos que convivem com tantas dificuldades e que necessitam tanto do poder municipal para enfrentar a vida, melhorar suas condições de existência.

É esta luta que Ordep Serra vem travando em nossa cidade, e fiz questão de homenageá-lo, e ao fazê-lo, homenageio as tantas entidades, os tantos jovens que tem ocupado as ruas para se contrapor a esse estado de degradação em que se encontra Salvador, a querida cidade da Bahia. Ordep costuma brincar – e falar sério – ao definir-se como macumbeiro, forma que ele encontra para revelar-se homem de santo, ligado a mais velha casa de candomblé do Brasil, a Casa Branca. Antropólogo conceituado, autor de tantos livros, professor da UFBA, já também um ficcionista premiado, Ordep tem, cada vez mais, se credenciado como um intelectual público, um cidadão comprometido com os destinos de seu povo.

*Emiliano José da Silva Filho (Emiliano José) é jornalista, escritor, doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (professor aposentado da UFBA).

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