Jornal Grande Bahia | Fonte: Alexandru Solomon
Publicado 14/02/2012 às 10:47:28 | Atualizado em 14/04/2012 20:47:35
Lucy teoriza

O processo de integração de Lucy foi marcado pela sua surpreendente rapidez. Apesar de algumas dificuldades inerentes a qualquer ocorrência de progresso, os acúmulos quantitativos de conhecimentos – algo surpreendentes, é bem verdade, tendo em vista o potencial de absorção do cérebro símio (é forçoso admitir) – respeitaram a teoria marxista, e ao ocorrerem numa verdadeira avalanche, levaram ao previsível salto qualitativo. Lucy – e qualquer observador poderia confirmar isso – estava galgando os degraus da sabedoria, tornando-se filósofa Vez por outra, ondas de incompreensão, abalavam Lucy, inúmeras vezes refém de dúvidas atrozes, mas para gáudio dos amigos da ciência, tratava-se de fenômenos passageiros. Lucy estava a ponto de tornar-se a coqueluche do momento, uma espécie de pop-star. O fato mais surpreendente era a naturalidade com a qual ela aceitava essa prodigiosa transformação. Qual não foi a surpresa dos seus tutores, quando Lucy resolveu desenvolver teses ousadas a respeito da convergência das palinódias e palimpsestos petistas e sua resultante para uma inevitável palinfrasia. “Lucy, o que deu em você?” Uma rápida consulta aos dicionários demonstrou a imarescível vocação política de Lucy, a ponto de surgirem convites para proferir palestras perante as mais sofisticadas platéias. Numa das mais recentes, seguiram-se debates acalorados, que por pouco não desceram ao nível – que para Lucy não chegaria a ser uma surpresa – das cavernas. “Lucy, o que você entende por palinódia petista?” “Ora, por definição, é a retratação – numa obra literária, ou por extensão num discurso – daquilo que se disse previamente” – respondeu calmamente o fóssil esclarecido. No caso do PT, falava-se em acabar com “tudo isso que está aqui”, e no frigir dos ovos, vitaminou-se a corrupção de ex-vestais. Houve algumas vaias, mas algumas bombas de efeito imoral acalmaram os presentes. Um dos presentes, famoso pela sua teoria segundo a qual Plesiosaurus e Pliosaurus seriam parentes próximos, manifestou sua curiosidade quanto a opinião de Lucy a respeito dos palimpsestos petistas. Depois do susto causado pelo estampido das bombas de efeito imoral, Lucy desvencilhou-se de sua máscara de gases – gentileza dos organizadores – e recorreu à definição que qualquer candidato ao ENEM domina, desde que haja um vazamento oportuno das questões. “É apenas um pergaminho cujo texto foi raspado para dar lugar a outro. Vejam como é simples. Antes das eleições de 2002, houve o manifesto de Olinda que falava claramente em ruptura. Como isso poderia assustar a burguesia e comprometer o resultado colimado, foi chamado um especialista em raspadinha. Esse raspou, como era de se esperar, e um calígrafo redigiu em cima do papiro uma ‘Carta ao povo brasileiro’, que foi selada e expedida. “Nem sempre foi necessário raspar um texto inteiro. Há um exemplo recente de dupla substituição, o que poderia obrigar-nos a rever a definição de palimpsesto, ou cunhar outro termo. Pegou-se a palavra ‘privatização’ que foi substituída por ‘privataria’ e num momento ulterior usou-se o termo ‘concessão’. Ficou claro?”. Se ficou ou não claro, pouco importa. Ficou barulhento, isso sim. Mal contendo a curiosidade, o especialista em Pliosaurus indagou com um ricto macabro. “E onde entra a palinfrasia nesse seu discurso reacionário?” Para que esse relato tenha o mérito da autenticidade, e para que não seja possível acusar este escriba – presente por obra do acaso ao evento – de falsificação da verdade, ao relatar os fatos, é preciso dizer que Lucy parou por alguns intermináveis instantes. Pediu licença e foi consultar umas anotações. Não era o dia de sorte da claque mobilizada para desestabilizar o fóssil. Apesar das vaias e da chuva de impropérios, imprecações, injúrias e outros sinônimos, Lucy conseguiu dominar o tumulto. Milhões de anos de experiência foram de grande ajuda. “Autoridades presentes, gentis ouvintes, minhas senhoras, meus senhores, torcida barulhenta, palinfrasia – acabo de ler – é a repetição doentia de frases, algo à moda de um tal Goebbels. Essa repetição pode transformar uma bobagem, para não dizer mentira, numa verdade inconteste. E o melhor exemplo é…” “Fale logo, fóssil golpista”, entoou o coro progressista. “O exemplo mais flagrante é a frase Nunca antes na História deste País “ A palestra, cujo inteiro teor está à disposição dos interessados no site www.lucy/blabla/abstracts_abcd.com. ganhou um brilho peculiar depois da intervenção de conhecido senador que pediu aparte, e cantou, para delírio dos circunstantes Blowin´ in the Wind.

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