Etelvino e a serpente

Seu sangue cigano e aventureiro leva Etelvino a se deslocar incansavelmente por toda a Amazônia Ocidental e pelos países fronteiriços, na mais aventuresca das profissões: a de garimpeiro.

Etelvino é um caboclo amazonense aventureiro, que na sua vida laboral exerce múltiplos ofícios. Mateiro experimentado, conhece a floresta e seus mistérios como a palma da mão. Isso lhe faz guia requisitado de cientistas do mundo inteiro — biólogos, engenheiros florestais, botânicos etc. — que pesquisam a rica fauna e flora local, patrimônio natural do Brasil e da humanidade.

O contato constante com renomados pesquisadores lhe deu o conhecimento científico de folhas, flores, raízes e toda a etnobotânica amazonense, apesar de sua pouca escolaridade. Cursara apenas o antigo curso primário.

Todavia, Etelvino reclama da baixa remuneração do seu ofício de mateiro. Sabedor que os cientistas nacionais e estrangeiros muitas vezes participam de projetos de pesquisa milionários e são bem remunerados por isso, para ele, Etelvino, geralmente é destinado apenas uma ínfima ajuda de custo e salário mínimo nacional.

Esta remuneração não é suficiente para a sua subsistência, nem para arcar com os compromissos de bom pai, bom marido e bom filho, pois se desdobra em cuidados com a mãezinha idosa e adoentada, que reside em outro Estado amazônico.

Seu sangue cigano e aventureiro leva Etelvino a se deslocar incansavelmente por toda a Amazônia Ocidental e pelos países fronteiriços, na mais aventuresca das profissões: a de garimpeiro.

Romântico selvagem e sonhador, como é mister entre homens do garimpo, Etelvino alimenta a quimera do enriquecimento rápido e fácil, ao “bamburrar” na garimpagem. Mera fantasia, pois isto nunca aconteceu nos seus mais de trinta incansáveis anos de atividade…

Etelvino é também homem religioso, médium de banca espirita, e rezador contumaz. Reza em adultos e crianças para espantar quebranto e tirar panema.

Na condição de homem espirita, entidades curadoras do mundo espiritual lhe acompanham para praticar a caridade. São pretos velhos, caboclos e seres encantados dos mistérios do céu, da terra e do mar.

Porém, na dimensão mundana do seu cotidiano Etelvino cultiva um hábito que lhe traz problemas… O uso de bebida alcóolica e a frequência aos sórdidos botequins das vilas em que transita e reside temporariamente, o faz se envolver em brigas, confusões e rivalidades.

Dessa maneira ganhou um perigoso inimigo, após trocar murros e vitupérios com outro garimpeiro, também embriagado.

No amanhecer do dia seguinte, Etelvino sequer lembrava-se do ocorrido. Entretanto, Nicolau — nome do individuo — jurou para si mesmo que mataria o rival numa traiçoeira tocaia. Covardemente, não revelou seu ardiloso plano para ninguém.

Ah mas antes de continuar vamos contar uma peculiaridade do nosso personagem — Etelvino. Nas suas andanças pelas matas amazônicas, pródigas de ameaçadoras e venenosas serpentes, desenvolveu uma ojeriza aos ofídios que não deixava escapar uma sequer da sua sanha destruidora — matava todas que encontrava pelo caminho. E eram muitas: jararacas, picos-de-jaca, cascavéis, coral, urutu, jararacuçu, surucucus… Impiedosamente a todas ele esmagava.

Voltando a história… ao término de mais uma noite de bebedeira em volta de uma mesa de sórdido botequim, na entrada da mata, o ardiloso Nicolau levantou-se mais cedo, despediu-se e foi esconder-se por trás de uma touceira, esperando Etelvino passar pelo varadouro, e assim tirar-lhe a vida à bala.

Foi aí que uma serpente peçonhenta o feriu gravemente, na coxa, furando e rasgando a calça que vestia. Espumando e se contorcendo de dor, Nicolau, o algoz do garimpeiro Etelvino, teve forças para se arrastar de volta ao execrável botequim e implorar por socorro à sua pretendida vítima.

Etelvino se compadeceu do sofrimento daquele homem, entrou em transe mediúnico, deitou o paciente, abaixou-se sobre ele e por várias vezes chupou o sangue que borbotava por sua perna, cuspindo logo em seguida.

A operação seguinte foi de estancar o sangue, quando a vítima já apresentava melhoras.

Passado alguns dias, ainda convalescente, o garimpeiro Nicolau confessou que tinha intenção de lhe matar, quando foi impedido pela inesperada serpente peçonhenta.

Quão misteriosos são os caminhos do Senhor, pensou Etelvino. A mesma entidade espiritual que o irradiou para curar o traiçoeiro Nicolau, tinha irradiado a protetora serpente para defendê-lo, e dessa forma prolongarem-se os seus dias aqui na Terra.

A partir de então, agradecido a Deus, Etelvino nunca mais matou nem permitiu que matassem nenhuma cobra que cruzasse o seu caminho.

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Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]