Em entrevista a BBC Brasil, a socióloga e professora da UFBA Ivone Freire Costa, afirma que greve da PM pode se repetir e comprometer Copa

Ainda que governo e policiais cheguem a um acordo para por fim à greve da Polícia Militar na Bahia, persistirá o risco de que manifestações voltem a acontecer no país e afetem a realização da Copa do Mundo de 2014.

A afirmação é da socióloga da Universidade Federal da Bahia Ivone Freire Costa, fundadora da Renaesp (Rede Nacional de Altos Estudos em Segurança Pública), órgão que reúne 72 cursos de especialização em Segurança Pública e é ligado ao Ministério da Justiça.

A greve chegou ao nono dia sem acordo. Um grupo de policiais baianos ocupa desde a semana passada o prédio da Assembleia Legislativa da Bahia, que está cercado por tropas federais da Força Nacional. Neste período, o número de homicídios no Estado já atingiu 120, acima do registrado no mesmo período no mês de janeiro e mais da metade dos 171 registrados em todo o mês de fevereiro de 2011.

Crítica das condições de trabalho oferecidas pelos governos estaduais à Polícia Militar, Costa coordena o primeiro mestrado do Brasil voltado à qualificação de policiais. Ela observa que eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas tendem a ser vistos como “ambientes de barganha” pelos movimentos sindicais e pede que o governo invista na cultura da negociação.

Leia os principais trechos da entrevista concedida à BBC Brasil:

BBC Brasil – O governo da Bahia tem origem no movimento sindical, portanto é experiente em movimentos de greve. O governo falha nas negociações ao permitir que uma greve como essa exploda?

Costa – Falha. E sou enfática em dizer que há um descompasso entre as políticas de segurança pública formuladas, no âmbito federal, e a implementação dessas políticas – que significa injetar recursos, implementar o financiamento da requalificação das polícias. Isso tem andado muito lento, muito devagar.

BBC Brasil – O que faltou na Bahia?

Costa – É preciso incentivar o diálogo entre a sociedade, o governo e a Polícia. É preciso um esforço de requalificação e valorização dos profissionais da segurança pública e ampliação de investimentos em novos modelos de polícia, como as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) no Rio. Na Bahia, essas iniciativas não têm recebido a devida atenção.

BBC Brasil – As cenas de vandalismo vistas durante essa greve têm a ver com essa falta de qualificação dos policiais? As manifestações foram radicais demais?

Costa – Não vou dizer que o aumento das estatísticas de violência nesse período seja uma fantasia – muito pelo contrário. Mas o que pode sim ser uma fantasia é a omissão de estatísticas do dia-a-dia, independentemente da greve. A greve faz com que determinadas informações, que não podem emergir em situações normais, sejam divulgadas. 80, 120 homicídios em uma semana? Isso, num período normal, representaria uma situação de extrema sensibilidade.

BBC Brasil – Mas e a maneira radical de reivindicar: serve mais para mostrar à sociedade a necessidade de melhorias, ou para acirrar os ânimos com o Estado?

Costa – Não sei dizer se a ação dos grevistas foi planejada. A definição da greve, assumida por Marco Prisco (principal liderança dos grevistas, filiado ao PSDB), foi “começar aqui e agora”. Ela tem efeitos imprevisíveis. Por isso que se fala tanto em bom senso das lideranças sindicais, no rumo de um acordo. Só que o bom senso não é mágico, não é místico: é intuitivo, depende da experiência de ambas as partes em negociar.

BBC Brasil – Mas tanto governo como grevistas se mostram irredutíveis…

Costa – Só que, em negociação, não existe indeterminação. Não existe suporte social para isso, tem um tempo determinado. Porque a sociedade exige condições de segurança e tranquilidade. Vai haver uma pressão para que a coisa chegue a bom termo.

BBC Brasil – Mas esse “bom termo” não preocupa, já que a pauta de negociações se resume a aumento de salários e anistia aos policiais amotinados? Que avanço real o êxito dessa negociação representa em termos de melhoria da Polícia Militar da Bahia?

Costa – É preciso seguir num processo de amadurecimento, para que essa instabilidade seja um exemplo da necessidade de uma definição de políticas públicas nacionais, políticas de Estado. Fora da PEC 300 (projeto de emenda constitucional que cria um piso nacional para policiais militares), há projetos de reestruturação nacional das polícias, que enxuguem, por exemplo a quantidade de níveis hierárquicos, para que a polícia trabalhe apenas com três grandes blocos: estratégico, tático e operacional. Mas não adianta enxugar as estruturas no papel sem que isso seja acompanhado de uma remuneração digna. Isso precisa ser reconhecido o mais rápido possível pelas políticas públicas. Esse movimento é consequência dessa necessidade.

BBC Brasil – Esse racha entre governo e grevistas pode se repetir futuramente?

Costa – Pode sim.

BBC Brasil – Inclusive a ponto de criar o mesmo clima de insegurança instalado na Bahia às vésperas de grandes eventos, como Copa do Mundo e Olimpíadas?

Costa – Esses são ambientes de barganha. A responsabilidade dos dirigentes é profunda e eles devem ser atenciosos, porque a deliberação é do Estado. É preciso ter sensibilidade para que isso não se aproxime de 2014, que essas questões sejam negociadas. O governo tem que ter capacidade e capilaridade para sustentar a arena de forças políticas, que envolve governo e oposição. A greve sempre tem fundo político: começa pela reivindicação salarial, mas só se mantém quando há desequilíbrio de forças políticas.

BBC Brasil – Caso não haja avanço nesse sentido, esses grandes eventos podem ficar comprometidos?

Costa – Com certeza absoluta. E esse é um grande risco para o qual todos temos que estar atentos. O avanço da violência não é gratuito, é fruto de uma série de razões. E a principal é a perda da esperança de viver protegido e reconhecido pelas instituições. Quando a gente perde as esperanças, a gente entra no vale tudo.

BBC Brasil – A partir da repercussão em Salvador, outras greves de PMs pelo país podem acontecer em outras capitais?

Costa – Há sempre uma expectativa, por parte dos grevistas, de ampliação de força, de barganha.

BBC Brasil – Não é um contra-senso permitir que setores como a Polícia, que trabalham armados, possam fazer greve?

Costa – Usou arma, deixa de ser greve: virou motim. Greve não implica em uso de arma, porque a arma implica uma sitação de poder. Mas, nesse caso, em que, no início, faltou negociação, não acho que deva haver punição a quem liderou e se envolveu nessa greve. Pelo menos em princípio.

Compartilhe e Comente

Faça uma doação ao JGB

Redes sociais do JGB

Publicidade

Publicidade

+ Publicações >>>>>>>>>

Manchete

Colunistas e Artigos

Sobre o autor

Redação
O Jornal Grande Bahia (JGB) é um portal de notícias com sede em Feira de Santana e abrange as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: [email protected]