Artistas anônimos são estrelas do Carnaval de Maragojipe, na Bahia

Com mais de 100 anos de existência, a festa de Maragojipe guarda tradições ibéricas e afro-indígenas, com máscaras e fantasias europeias, e influências de matrizes africanas, se tornando Patrimônio Imaterial da Bahia em 2009 via decreto do Estado

Uma das festas baianas mais importantes registrada como Patrimônio Cultural Intangível pelo Estado desde 2009 tem como principais estrelas artesãos, costureiras, aderecistas e músicos que são completamente anônimos para o grande público da Bahia e do Brasil. Mas, o programa Outros Carnavais criado pela Secretaria de Cultura do Estado (SECULT) neste ano (2012), dentre outras ações, quer mudar este quadro.

O objetivo do programa é justamente apoiar manifestações carnavalescas que ainda guardam tradições e características culturais locais, auxiliando a preservar e difundir a festa, visando manter as raízes do fazer cultural , explica o diretor geral do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), Frederico Mendonça. Autarquia da SECULT, o IPAC foi responsável pelos dois anos de pesquisas em Maragojipe cidade a 15 km de Salvador que culminaram com o registro da festa como Patrimônio Imaterial da Bahia, em 2009.

O registro de bem imaterial coloca a festa como prioridade nas linhas de financiamento público cultural, sejam elas municipais, estaduais, federais ou até internacionais. Neste ano (2012), graças ao programa Outros Carnavais a festa maragojipana recebeu investimento de R$ 270 do IPAC/Secult.

Identidade – O patrimônio imaterial tem uma característica própria a partir do fazer cultural, ou seja, o bem intangível só existe se determinada comunidade o considerada como um ato de identidade seu, de reafirmação cultural do povo com a sua cultura, com desejo de realização periódica e permanente por parte daquela sociedade , esclarece Mendonça. Por isso, os bens imateriais estão em constante mudança e são avaliados periodicamente geralmente 10 em 10 anos para verificar se ainda devem receber a chancela dos poderes públicos.

Com vistas a documentar a memória e divulgar o conhecimento cultural da comunidade que faz permanecer o Carnaval de Maragojipe, o IPAC já publicou livro download no www.ipac.ba.gov.br e produziu um vídeo-documentário em DVD, a partir dos trabalhos de historiadores, antropólogos, fotógrafos e videastas que pesquisaram documentos antigos e entrevistaram os mestres e fazedores culturais locais que guardam a memória da manifestação.

Já ganhei o 1º lugar nas categorias luxo e estilista com as fantasias Espanholas que fiz no ano passado, relata a costureira Antônia Carneiro, que produz roupas carnavalescas a mais de 30 anos em Maragojipe. Os trajes da festa maragojipana têm influências européias francesas e italianas fazendo releituras de personagens da Commedia dell’Arte (século XVIII), das caretas da década de 1970 na Bahia, mas também com inclusões contemporâneas típicas da globalização, como as máscaras de personalidades, artistas e até políticos que são conhecidos internacionalmente.

Costumo cortar os tecidos durante á noite e confecciono a fantasia no turno diurno com equipe de 10 a 20 pessoas , relata a experiente costureira. Ela leva 30 dias para confeccionar as roupas, cobrando R$ 30 para uma fantasia de Pierrot e R$ 60,00 para uma da Colombina. Já as máscaras vêm toda branca e só passa a cola e coloca o brilho e as lantejoulas. Ela tira a medida da pessoa e a própria pessoa dá o tecido, ela só faz a mão de obra. O prazer da costureira é ver nossa roupa em desfile nas ruas , comemora Antônia.

É fundamental compreender a dimensão transformadora e viva de um bem imaterial, já que o patrimônio intangível é feito graças a cada geração de pessoas que recebem o fazer cultural dos seus antepassados, mas contribuem e transformam uma determinada manifestação com itens da sua contemporaneidade , adverte o diretor do IPAC.

O artesão Raimundo Barbosa, mais conhecido como Bafão confecciona máscaras com chifres de espumas e tecidos a cerca de 30 anos. Aprendi a fazer a partir do modelo de um mascarado bem tradicional da nossa cidade, o Boronga , que já faleceu , diz Barbosa. Segundo ele, dispõe de um ateliê próprio e também vende na rua, com saída de 80 máscaras durante quatro dias de carnaval. Em Maragojipe existem outros 10 fabricantes de máscaras tradicionais de Pierrot com chifres, e utilizamos nylon espumado para o chifre, nariz e boca, e radiosa no rosto , diz o já famoso Bafão . O carnaval daqui existe por causa dessa tradição, se acabar os mascarados, a festa de Maragojipe também acaba , finaliza Barbosa.

O Carnaval de Maragojipe aconteceu deste sábado (18) até terça-feira (21). A programação começa às 15h e, geralmente, termina por volta da meia-noite. O governo estadual também apóia a folia maragojipana com pavimentação de ruas via Secretaria de Infra Estrutura e contratação artística da Bahiatursa da Secretaria do Turismo. Em 2012, a SECULT realiza também Carnaval Ouro Negro, Carnaval Pipoca e Carnaval Pelourinho em Salvador, totalizando R$ 13,5 milhões em investimentos.

Além de bens intangíveis Maragojipe detém patrimônios culturais materiais tombados pelo IPAC, como o Terreiro Ilê Axé Alabaxé (2005), além de bens reconhecidos pelo Ministério da Cultura/IPHAN, como a casa grande e capela da Fazenda São Roque, o Forte do Paraguassú, a Igreja Matriz de São Bartolomeu e o Prédio do Paço Municipal. Confira a programação do Carnaval de Maragojipe 2012 no site www.maragojipe.tur.br, mais dados dos carnavais da Secult no www.cultura.ba.gov.br, e ações do IPAC no www.ipac.ba.gov.br.

Serviços: Localizada cerca de 150 km de Salvador, Maragojipe encontra-se cercada de rios e manguezais que correspondem a ¾ do município -, a maioria ainda intactos. Para se chegar, deve se acessar a BR-324, por 59 km, até o entroncamento da BA-026, depois até Santo Amaro. Segue-se para Cachoeira (BA-026) por mais 38 km, atravessando a ponte D. Pedro II e seguindo mais 23 km até Maragogipe. Ou então, pelo ferry-boat e passando pela mesma estrada. Com clima ameno, tem 44 mil habitantes, culinária baseada em frutos do mar, como camarão, siri, lambreta, sururu, sarnambis e pratos exóticos como bobó de inhame, moqueca de carne seca com jiló e pirão de café com carne de fumeiro. Dentre os locais turísticos, Cachoeirinha e Paraguaçu, cachoeiras de Guimarães e Bule-bule. Com 15 pousadas e hotéis, e mais de 20 restaurantes e bares, o município tem como atender a demanda populacional do carnaval. Mais informações no site www.maragojipe.tur.br.

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