Visita de Dilma a Cuba é dominada por temas econômicos

Agenda da presidente Dilma Rousseff prevê visita às obras de expansão do Porto de Mariel, financiadas pelo BNDES. Apesar das pressões, ela deve evitar comentários sobre direitos humanos, opinam especialistas.

Nesta segunda-feira (30/01/2012) a presidente Dilma Rousseff desembarca em Havana para a sua primeira visita a Cuba como chefe do governo brasileiro. O objetivo da visita de dois dias ao país, segundo o Itamaraty, é apoiar medidas de abertura econômica adotadas pelo presidente cubano, Raúl Castro, e firmar o Brasil como importante parceiro do país em várias áreas, incluindo agricultura, segurança alimentar, saúde e produção de medicamentos.

Da agenda da ex-militante de esquerda, que chegou a ser torturada durante a ditadura militar, não devem constar temas como direitos humanos ou liberdade de expressão, calcanhares de Aquiles do regime comunista comandado por Castro.

Mas pressão para que ela comente a atual situação em Cuba não deve faltar. Dilma chegará à ilha caribenha poucos dias após a morte do preso político Wilmar Villar Mendoza, que no último dia 19 sucumbiu após uma greve de fome em protesto contra sua detenção.

Coincidentemente, a visita do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Cuba, em fevereiro de 2010, também foi marcada pela morte de um dissidente do governo Castro que fazia greve de fome. À época, Lula fora bastante criticado por não ter externado apoio aos prisioneiros políticos nem ter condenado a situação.

A visita de Dilma se dá ainda no momento em que a conhecida blogueira cubana Yoani Sánchez tenta uma permissão de Havana para assistir no Brasil, no próximo dia 10, à estreia do documentário Conexão Cuba-Honduras, que fala justamente sobre a liberdade de imprensa nos dois países. O visto para a estada no Brasil já foi concedido pela embaixada brasileira em Havana na última quarta-feira.

Em recente entrevista à DW Brasil, Sánchez disse que espera contar com a intervenção da presidente brasileira para conseguir a autorização do governo cubano. “Dilma é uma mulher que sofreu na própria carne o autoritarismo, a repressão, a desproporção de forças [existente] entre um governo autoritário e uma cidadã. Então penso que ela tem a sensibilidade, a capacidade de compreender minha situação”, disse a blogueira.

Observadores avaliam que a presidente evitará falar sobre temas como esse. “Rousseff assumiu o compromisso de intervir em favor dos direitos humanos. Mas ela não faria nada que pudesse parecer hostil ao governo cubano, ou que pudesse ser entendido como uma intromissão na soberania nacional”, diz o cientista político Bert Hoffmann, do Instituto Alemão para Estudos da América Latina (Giga), em Berlim.

Investimento brasileiro

Dentro da agenda econômica está prevista uma visita da presidente às obras de expansão do Porto de Mariel, realizadas com um investimento de 683 milhões de dólares do BNDES – o equivalente a 88% da obra. O porto fica a 50 quilômetros de Cuba e é o mais importante polo de exportação do país.

O comércio do Brasil com o país socialista cresceu 31% de 2010 para 2011, alcançando um recorde de 642 milhões de dólares no ano passado. Em números gerais, porém, a importância de Cuba para a economia brasileira é muito baixa.

“Do ponto de vista brasileiro, Cuba não é exatamente um importante parceiro comercial. Já para Cuba o Brasil é um parceiro comercial importante, especialmente agora que eles precisam abrir mais a sua economia”, afirma Hoffmann, ressaltando que haveria interesse cubano tanto para investimentos de estatais brasileiras, como a Petrobras, como para receber indústrias de pequeno e médio porte.

Brasil como mediador

O historiador Osvaldo Coggiola, da USP, avalia que a aproximação entre Cuba e Brasil é um sinal de que os cubanos querem sair do isolamento político. Ele ressalta que, neste momento, é importante para Raúl Castro fortalecer os laços com a América Latina.

“O bloco socialista não existe mais, os países da Europa ficam muito longe e vivem uma crise galopante, os Estados Unidos continuam com o embargo. Então Cuba precisa obter apoio político na América Latina”, afirma.

Uma relação mais estreita com o Brasil também abriria espaço para uma eventual intermediação brasileira junto aos Estados Unidos, a fim de suspender o embargo econômico imposto há décadas à ilha socialista. Assim o governo brasileiro se reafirmaria como principal interlocutor no continente, papel frequentemente assumido por Hugo Chávez, da Venezuela.

Para o professor da USP, o fim do embargo seria fundamental para o processo de abertura econômica cubana. Os poucos investimentos norte-americanos que ainda chegam a Cuba, explica o historiador, acontecem por meio de “triangulações”, ou seja, com o envolvimento de uma terceira empresa, de fora dos EUA.

“Dilma é identificada como sendo de esquerda, assim, teria afinidade ideológica com o governo cubano e poderia desempenhar um importante papel na costura de um acordo que reintegre Cuba a essa comunidade americana comandada pelos Estados Unidos”, avalia Coggiola.

Mais cético, no entanto, Hoffmann ressalta que “potencialmente” este poderia ser um papel desempenhado pelo Brasil. Mas, no momento, nem cubanos nem norte-americanos parecem muito dispostos ao diálogo.

Abertura econômica sem abertura política

Apesar do interesse em estimular a abertura de sua economia, o governo cubano não tem dados sinais de mudanças significativas no regime político. O modelo de abertura econômica sem abertura política leva a frequentes comparações com a China, que mantém o sistema comunista mesmo após uma série de medidas econômicas implementadas a partir da década de 80 e que impulsionaram o país a se tornar a segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos EUA.

Oggiola destaca, porém, que Cuba apresenta condições bem distintas da China de três décadas atrás. Além de a ilha comandada pelos Castro ser infinitamente menor em tamanho e em número de habitantes do que o gigante asiático, a posição geográfica de Cuba – vizinha dos EUA – torna a situação bem mais desconfortável.

*Com informações: Deutsche Welle

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