Jornal Grande Bahia | Fonte: Alexandru Solomon
Publicado 25/01/2012 às 11:05:21 | Atualizado em 14/04/2012 20:47:35
Fábula sem moral

Revelações de um antigo manuscrito, encontrado por um arqueólogo amador. A autenticidade do documento suscita profundas controvérsias no mundo acadêmico. A hipótese de tratar-se de um documento apócrifo têm uma legião de partidários. Vamos ao papiro, ainda em excelente estado de conservação, antes que seja confiscado. Num reinado, onde em se plantando, tudo dá, o bobo da corte está fazendo anotações num caderno… Não para de escrever. Está concentradíssimo. O bobo-adjunto faz graçolas que, por vez, arrancam um sorriso real. O bobo-adjunto sonha tornar-se , um dia, o bobo-pleno. · – O que escreve aí, companheiro bobo? – pergunta – intrigado – o monarca Lulix I, o gaulês. O queixo do monarca treme – sinal de profunda impaciência. Os olhos majestáticos emitem relâmpagos no espectro ultraviolento. · – Anoto os nomes dos tolos do reino. A propósito, acabei de colocar o nome de Vossa Majestade nessa relação… com todo o respeito que jamais me faltará. · O queixo do monarca quase cai. Mal consegue reprimir a fúria que o acomete. O crime de lesa-majestade está tipificado. · – Mas que ousadia, verme imundo! Antes de mandar açoitá-lo, até seu lombo sangrar, esquartejá-lo ou atirá-lo num calabouço de onde jamais sairá com vida – ainda não decidi – pergunto-lhe qual o motivo dessa insolência? Já é um bobo estável no emprego. Quer perdê-lo, ficar sem o fundo de garantia? – a voz tonitruante da Majestade indignada faz vibrar os cristais do lustre do palácio real. Cesse tudo que a antiga musa canta, quando essa voz se alevanta. Um bardo caolho, de passagem, acha bonita essa parte e jura em sottovoce aproveitar essa observação. · O bobo faz uma profunda reverência e retruca, pálido ao perceber o quanto irritou o rei, arrasado pelas negras perspectivas quanto ao seu futuro próximo. Finalmente articula: · – O motivo é simples: Vossa Majestade entregou o Ministério X ao seu súdito, o Sr. Z da chamada base aliada. Ele vai roubar até cansar, se é que roubar cansaria o Sr. Z. Fraudar e roubar é só começar. · – Jamais prejulgue, serviçal indigno! E se não roubar, miserável fofoqueiro? Chega de dar ouvidos às maledicências do PIG! Por acaso grampeou as ligações telefônica do impoluto Sr. Z? Sua função – consta no job description, homologado pelo ISO – é divertir-me. Repito a pergunta: E se ele não roubar (ou pelo menos se o malfeito não for comprovado, por ser bem feito)? Responda, candidato à forca! · – Nesse caso retirarei o nome de Vossa Majestade e colocarei o dele… A partir desse ponto, o manuscrito torna-se ilegível   · *************** · … A substituição dificilmente acontecerá, dizem as más línguas.

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