Pesquisador Fernando Pedrão avalia visita do presidente Barack Obama ao Brasil e comenta sobre ataque dos EUA à Líbia; Confira entrevista exclusiva

Fernando Pedrão: o Conselho de Segurança é uma faca de dois gumes para o Brasil porque envolve compromissos muito caros e arriscados.

Fernando Pedrão: o Conselho de Segurança é uma faca de dois gumes para o Brasil porque envolve compromissos muito caros e arriscados.

Com exclusividade, o diretor do Jornal Grande Bahia(JGB), Carlos Augusto, entrevista o economista e professor Dr. Fernando Cardoso Pedrão que falou sobre a visita do presidente Obama ao Brasil, o ataque norte-americano ao governo Líbio, os problemas internos do presidente Obama nos EUA e o desejo de permanência na cadeira do Conselho de Segurança da ONU: “Quanto à cadeira no Conselho de Segurança das Nações Unidas a presidente Dilma Rousseff fez uma colocação, que é a primeira sensata que eu vejo há muito tempo. Ao dizer que para o Brasil o que interessa não é o formalismo da participação, mas a influência política real. Ou seja, abandona a política de Fernando Henrique que foi seguida por Lula de insistir no Conselho de Segurança”.

Ele é doutor em Ciências Econômicas pela Universidade Federal da Bahia, preside o Instituto de Pesquisas Sociais, professor visitante da Universidade Federal do Recôncavo e orientador de doutorado da Universidade Salvador. Tem extensa experiência internacional como técnico das Nações Unidas, como colaborador da CEPAL e como diretor de projetos de cooperação internacional, com experiência em planejamento, projetos e em politicas públicas com atuação internacional em Planejamento Urbano e Regional, atuando principalmente nos seguintes temas: desenvolvimento econômico, política econômica regional, economia política, economia do ambiente e da energia.

JGB – Como o senhor avalia a vinda do presidente Barack Obama ao Brasil?

Fernando Pedrão – O governo brasileiro aproveitou a oportunidade para apresentar uma pauta bastante objetiva de temas de interesse nas relações comerciais entre os dois países. E as colocações do presidente Obama foram vagas. Pouco indicativas, atendo-se a temas vagos.

JGB – Durante o período que o presidente Obama esteve no Brasil foi anunciado que o exército norte-americano estaria bombardeando a Líbia. Como o senhor analisa este processo?

Fernando Pedrão – O governo americano exerce uma liderança com um grupo de países europeus numa oposição ao regime de Kadafi, em que há interesses petrolíferos e algo não claro sobre a política dos estados árabes. Entretanto, desta vez, o governo norte-americano manifesta o cuidado de realizar um ataque rápido e pouco duradouro e transferir para outros países a responsabilidade do conflito. O Obama está, claramente, desvinculando os Estados Unidos de outras situações semelhantes, a exemplo das guerras do Iraque e Afeganistão.

JGB – Quem acompanha a política dos EUA, em especial os comentaristas políticos, dizem que todo presidente que não está bem internamente precisa de uma guerra. Essa é a guerra que Barack Obama precisa para se reeleger presidente?

Fernando Pedrão – Certamente não. Esta guerra, pelo contrário, constitui um prejuízo, uma dificuldade para o governo de Obama, pois os problemas que Obama enfrenta internamente correspondem principalmente ao manejo da crise economia americana e ao problema do emprego. Ele precisa ampliar a popularidade dele com os setores de classe média que é algo contraditório com uma guerra.  Eu acredito que Obama tentará evitar se envolver em novas guerras.

JGB – O Brasil teve uma posição contrária ao ataque à Líbia. Como o senhor avalia a posição do governo brasileiro?

Fernando Pedrão – Tímida. Porém, boa. O governo brasileiro, neste momento, não tinha condições de politicamente se opor, abertamente, ao grupo opositor liderado pelos EUA. Eu acho que o Brasil se oporia claramente se fosse somente os países europeus, mas não iria se opor abertamente aos EUA agora. O Brasil se absteve em apoiar o ataque e já solicitou firmemente que parem com o ataque. Este é um tema difícil na relação entre os dois, porém, muito mais difícil na relação entre o Brasil e os países europeus, que tenderá a se deteriorar.

JGB – Do ponto de vista econômico Brasil e Estados Unidos convergem em vários aspectos. Mas, porque o governo estadunidense não querem que o Brasil tenha uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU?

Fernando Pedrão – São três perguntas. Primeiro, eu não acho que exista muita convergência de interesses. Existem interações de capital, porém os interesses comerciais do Brasil se chocam com os interesses norte-americanos, principalmente, no que diz respeito, aos produtos básicos e em segundo lugar porque a expansão do comércio internacional brasileiro se dá na Ásia e não nos EUA.

Os EUA deixou de ser o principal parceiro econômico do Brasil. Neste momento os principais parceiros são a América do Sul e a China. O Brasil tem vantagens comparativas para ampliar as relações comerciais com os países islâmicos, coisa que os norte-americanos não têm, e o Brasil tem uma vantagem nítida em matéria de energia.

Quanto à cadeira no Conselho de Segurança das Nações Unidas a presidente Dilma Rousseff fez uma colocação, que é a primeira sensata que eu vejo há muito tempo. Ao dizer que para o Brasil, o que interessa não é o formalismo da participação, mas a influência política real. Ou seja, abandona a política de Fernando Henrique que foi seguida por Lula de insistir no Conselho de Segurança. O Conselho de Segurança é uma faca de dois gumes para o Brasil porque envolve compromissos muito caros e arriscados. O Brasil teria que mandar tropas para intervir em vários lugares do mundo, fato este que não nos interessa.

JGB – A equipe do Jornal Grande Bahia (JGB) lhe agradece pela entrevista e deixa com o senhor as palavras finais.

Fernando Pedrão – Eu acho interessante a oportunidade de conversar com um jornal do interior. Pois eu acho que devemos ter muito mais espaço do que se tem hoje em dia para debater. Principalmente se o jornal começa a publicar ideias de colunistas. Ele torna-se um jornal de caráter estadual. E um jornal não precisa ser publicado em Salvador para ter o status de estadual. Muito obrigado.

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Perfil do Autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518), Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia (SINJORBA), Associação Brasileira de Imprensa (ABI Nacional, Matrícula nº E-002907) e Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).

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