Em entrevista, Ildes Ferreira declara: “partidarizar as secretarias de planejamento e de ciência e tecnologia não é uma coisa boa para a Bahia”

Ildes Ferreira : "Acho que Wagner teve a sorte e a felicidade de começar a mudar a história dessa Bahia. O nosso falecido ACM tinha quase meio século de poder e Wagner teve a sorte de quebrar esse ciclo. Nos primeiros quatro anos Wagner ensaiou esse novo caminho e a esperança é grande.".

Ildes Ferreira : “Acho que Wagner teve a sorte e a felicidade de começar a mudar a história dessa Bahia. O nosso falecido ACM tinha quase meio século de poder e Wagner teve a sorte de quebrar esse ciclo. Nos primeiros quatro anos Wagner ensaiou esse novo caminho e a esperança é grande.”.

Na terceira parte da entrevista, Ildes Ferreira comenta sobre os processos judiciais que o Ministério Público move contra ele em função da construção do Parque Tecnológico de Salvador. Critica a atual direção da Secretaria de Ciência e Tecnologia (SECTI) e a indicação do deputado federal do PT, Zézeu Ribeiro para o planejamento. Faz um balanço de sua gestão à frente da SECTI e destaca projetos. Ele também revela em primeira mão para o Jornal Grande Bahia fato inusitado no registro de imóvel. Conferia a seguir a última parte da entrevista:

JGB – O senhor é historicamente filiado ao PMDB, mas mantém uma relação de afinidade com o PT. O senhor desenvolveu várias linhas de projetos através do MOC por meio do pensamento político ideológico do PT. Que balanço o senhor faz dos oitos anos de governo LULA? E quando o senhor pode ter uma ideia do que realmente é ser governo?

Ildes Ferreira – servir a sociedade e eu enquanto governo fiz isso. Acho que a Secretaria de Ciência e Tecnologia é a secretaria mais democrática. Colbert foi quem me indicou num acordo com Wagner, mas o próprio Colbert acertou com Pinheiro e Zezeu alguns cargos. Eu trabalhei num ambiente legal com pessoas legais. Trabalhei sem perseguição.

Então, primeiro é isso colocar o Estado a serviço da sociedade e não do partido. O que nós estamos vendo que não é fácil. Com essa convicção, partido para mim é uma coisa muito secundária. Na minha vida é muito secundária a filiação partidária.

Eu avalio o governo Lula como um salto qualitativo enorme que nós demos neste país. É claro que a educação, a saúde ainda tem que melhorar, porém o fato é que já começamos a melhorar e a mudar uma história de 500 anos e isso repercute na Bahia. Acho que também estamos ensaiando alguma mudança e eu estou neste circuito. Não preciso estar num partido, num governo. Eu estou colaborando, estou fazendo aquilo que eu acredito e gosto. Então, estamos trilando por aí. Se minha ideologia se assemelha a ideologia do PT não acho que isso seja ruim. Isso é bom.

Acho que minha ideologia se aproxima mais dos partidos de centro-esquerda, minha história foi ligada aos partidos de esquerda. Meu mote foi nessa linha de construir a soberania popular, construir a autonomia dos movimentos sociais. Acredito que este país vai mudar de fato não é pelo partido, mas, sim, pelos movimentos sociais. Os movimentos sociais, por sua vez, estão num momento muito difícil. E isso é preocupante. Para mim o motor da história não é o partido político, mas os movimentos da sociedade. Os partidos sempre foram aliados, mas a direção do processo é dos movimentos sociais.

JGB – Falando com o cientista e professor acadêmico. Qual sua opinião a respeito do presidente Lula. Vários veículos de imprensa tentam desconstruir a imagem de Lula como um homem capaz. O senhor enquanto cientista que conhece desde o homem do campo aos pesquisadores mais destacados. Como o senhor analisaria o perfil intelectual do presidente Lula?

Ildes Ferreira – Quando eu fui para o estado o governador Wagner brincou assim comigo: Ildes quem é o cientista da Secretaria de Ciência e Tecnologia? Ou você é líder como eu? Eu respondi: governador eu nenhum expertise, nem cientista, porém não sou nenhum leigo. Ser secretário de ciência e tecnologia, para mim, não precisa ser físico, biólogo, químico, nem sociólogo. Tem que ser gestor e ter a capacidade de agrupar pessoas que possam ajudá-lo e fazer a ciência e tecnologia acontecerem.

Para mim Lula teve essa sagacidade. Lula não é nenhum cientista, nenhum PHD, nenhum acadêmico. Mas, teve a inteligência de cercar-se de pessoas que o ajudaram a fazer um grande governo. Acho que a inteligência de Lula está nisso. Eu o considero uma das figuras mais capazes. Não que ele seja um super gestor. Mas, ele teve a humildade e a capacidade de juntar as melhores pessoas para trabalhar no seu governo.

JGB – Como o senhor avalia o primeiro governo Wagner e o seu novo conjunto de secretários?

Ildes Ferreira – Acho que Wagner teve a sorte e a felicidade de começar a mudar a história dessa Bahia. O nosso falecido ACM tinha quase meio século de poder e Wagner teve a sorte de quebrar esse ciclo. Nos primeiros quatro anos Wagner ensaiou esse novo caminho e a esperança é grande. Porém, lhe confesso que fico preocupado com as novas acomodações políticas que estão ocorrendo.

Por exemplo, independentemente da competência do Zezeu Ribeiro (PT), não sei se é o melhor nome para a Secretaria de Planejamento. Essa secretaria exige um perfil mais técnico. O mesmo ocorre com a Secretaria de Ciência e Tecnologia que precisaria de uma pessoa menos partidária. Acho que partidarizar as secretarias de planejamento e de ciência e tecnologia não é uma coisa boa para a Bahia. Os acordos políticos ficam acima das questões que me parecem fundamentais. Porém, continuo acreditando no governo Wagner e no seu projeto.

JGB – Olhando para o período em que o senhor foi secretário de ciência e tecnologia quais sonhos do professor Ildes puderam ser realizados?

Ildes Ferreira – Foi um período ímpar na minha história e na história da Bahia. Tive a oportunidade de colocar a ciência a serviço da sociedade. Ciência não é para quatro ou três cientistas. Ela é para servir a sociedade. A ciência não pode ficar nos guetos acadêmicos a serviço dos “PHDeuses”. Agora, para fazer o que eu fiz tem que ter paixão pelo conhecimento, que, aliás, não vi isso nos meus sucessores.

Os secretários de ciência e tecnologia devem entender que o conhecimento não é um bem privado. É um bem público e quem deve oferecer esse bem a sociedade é o Estado. Então, nós buscamos colocar em prática o projeto que atenderia a academia sem deixar de atender a sociedade, pelo contrário iniciamos um projeto de levar a ciência para o dia-a-dia das pessoas. Agora, a sociedade deveria ter se mobilizado mais para compreender que a secretaria de ciência e tecnologia é uma secretaria de conhecimento e que consequentemente busca a sua democratização.

JGB – Olhando para os projetos que pode executar, quais o senhor destacaria?

Ildes Ferreira – Vou destacar três. O projeto de inclusão digital que iniciamos em que levou centros digitais para as comunidades e para o interior da Bahia, em locais que crianças, jovens de periferia e comunidades rurais nunca tiveram acesso à internet e a um computador.

O segundo projeto que considero mais importante é o da escola de ciência em Serrinha. Eu não tenho dúvida de que se essa escola for levada a sério ela trazer um grande diferencial para o nosso semiárido. E acredito que com oportunidade teremos cientistas provenientes do semiárido.

O terceiro (considero o maior) projeto que começamos foi o parque tecnológico. O mundo hoje compreendendo os países desenvolvidos e emergentes trilham pelos parques tecnológicos, criando nichos de pesquisa e desenvolvimento. Como exemplo, temos o pré-sal que possui cinco eixos de pesquisa determinadas pelo governo federal o que faz desses parques centros importantes de pesquisa e qualificação profissional. Esse projeto foi feito na Paralela, em Salvador em 8 hectares de terra.

Enfim, esse é um projeto apaixonante, na época fizemos muitas parcerias com empresas, institutos internacionais de pesquisa e universidades, dentre elas a UFBA (Universidade Federal da Bahia), UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia) e as quatro estaduais.

JGB – O senhor está sendo processado no Ministério Público por este projeto, que é de grande importância para o progresso tecnológico. Até que ponto um gestor público, secretário, tem responsabilidades sobre um projeto que envolve não somente a secretaria que coordena como também outras secretarias? E Existem interesses econômicos e imobiliários por traz disto?

Ildes Ferreira – Sim. Existem grandes interesses. O parque está sendo construído na área mais cobiçada e valorizada de Salvador, na Paralela. A cidade de Salvador está crescendo para aquele lado. Na área em que está sendo construído o parque tecnológico está previsto, aprovado e licenciado pelo órgão ambiental um loteamento que vai comportar 2.700 casas. Aí, é que o meio ambiente vai embora.

O parque tecnológico está lá e vai preservar 70% da mata nativa e a fauna. Desculpe-me os ambientalistas, mas ali não tem mais Mata Atlântica, não. Não encontramos uma árvore adulta ali. Encontramos lá várias armadilhas para capturar animais, caçadores com arma de fogo, degradando o ambiente de forma total ali. Só o estado pode preservar isto ali, construindo o parque que preservará 70% da mata e fauna ali existente. O parque é para que o projeto preservar o resto de Mata Atlântica.

Aí, vem a denúncia do Ministério Público, que eu suspeito muito que são ambientalistas laranjas, fazendo o jogo do capital imobiliário. Suspeito muito disso. O Ministério Público infelizmente fez a denúncia. Não é um projeto meu é um projeto do governo, um projeto do estado da Bahia, um projeto que tem 70% do dinheiro do Ministério de Ciência e Tecnologia. Ninguém entendeu porque eu fui acusado disso, mas neste país é assim.

JGB – Este projeto foi licenciado junto ao ministério?

Ildes Ferreira – O ministério não tem que licenciar. O Ministério de Ciência e Tecnologia aprovou o projeto, ele deu a chancela. Apresentei plantas, cronogramas, licença ambiental do IMA, antes era o CRA, licença de remoção de fauna e flora do órgão da prefeitura. O que eles alegam na acusação é que nós começamos a obra doze dias antes de chegar o papel da licença. A queixa-crime é essa.

Mas, tem um detalhe. No estado quem constrói, não é a secretaria. É a SUCAB. No caso eu como secretário passei o dinheiro para a SUCAB, tenho um termo de compromisso que nós assinamos em que transferi o dinheiro. A SUCAB contratou a empresa por meio de licitação, deu ordem de serviço, foi ela que fez tudo. Quem deveria saber se faltava ou não a liberação era a SUCAB. Eu acho que não faltava nada. É invenção daquele ambientalista laranja que defende os interesses imobiliários. Para mim está tudo licenciado, mas se não tivesse, quem tem a obrigação de ver era a SUCAB e não a secretaria.

JGB – Secretário o senhor fala em 70% da área preservada. O senhor fala de qual área?

Ildes Ferreira –  85 mil metros quadrados. Uma área grande. Nela está previsto um horto, rotas de passeio, enfim, são mais de 8 hectares de terra. É uma área razoável na Paralela que foi doada pela prefeitura de Salvador ao governo do estado, sendo tudo documentado. Esse terreno custa uma fábula hoje, sendo muitos os interesses ali.

JGB – O senhor em algum momento foi pressionado por alguém para que não desse sequência a esse projeto?

Ildes Ferreira – Pressão direta não. Mas, ocorreu um fato inusitado.  Nós, inicialmnete, não conseguimos escriturar o terreno, que era uma área de um loteamento imobiliário. Houve uma permuta da imobiliária com a prefeitura e nós escrituramos. Com a escritura em mãos levamos para fazer o registro no cartório. Meu servidor estava lá no cartório para registrar a escritura que estava assinada pelo prefeito e pelo governador.  A titular do cartório falou que só registrava essa escritura se doutor fulano de tal, que era da imobiliária autorizasse. O cartório era público e a titular disse isto. Eu ao saber do fato peguei o telefone e liguei para o doutor fulano de tal. Ele estava no Amazonas. Contei a situação a ele, ele ligou para a mulher do cartório e no outro dia o registro estava feito. É assim em Salvador. Tem três ou quatro que mandam inclusive nos cartórios.

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Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518), Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia (SINJORBA), Associação Brasileira de Imprensa (ABI Nacional, Matrícula nº E-002907) e Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia).