Solidão: distância de si | Por R. C. Amorim Neto

Felipe deveria estar cheio de energia para começar uma nova semana. O feriado de 15 de novembro de 2015 havia sido perfeito para descansar. Entretanto, ao acordar naquela terça-feira, Felipe sentia-se mal. Era como se algo de muito errado tivesse acontecido. Em vez de levantar-se e abraçar o dia que começava, encolheu-se sob as cobertas e fechou os olhos para conter as lágrimas.

Seria melhor dormir e ignorar aquele aperto que sentia no peito. Por mais que tentasse, Felipe não conseguiu dormir e sem que fizesse esforço algum, quatro palavras saíram de sua boca em um tom de confissão inesperada: “Me sinto tão sozinho”. Muito embora Felipe fosse uma daquelas pessoas com dezenas de contatos no seu telefone celular, o sentimento era verdadeiro. Estava sempre rodeado por tantas pessoas, mas não conseguia se conectar com elas de modo mais íntimo. A nenhuma delas havia aberto o coração.

Para dar vazão à tristeza que trazia em si, Felipe acessou em sua memória um repertório de músicas tristes. Percebendo a estupidez daquela cena, interrompeu a sequência de músicas deprimentes, levantou-se, olhou no espelho e disse para si mesmo, como se fosse um desafio: “Sou um homem de 32 anos, tenho uma vida estável e venho crescendo profissionalmente, mas não tenho uma pessoa especial com quem partilhar minhas vitórias.”
De fato não há nada mais legítimo para um adulto do que encontrar aquela pessoa com quem partilhará sua vida, fará planos, construirá sonhos e se sentirá em casa pelo simples fato de estar uma na presença de quem ama. Entretanto, o que Felipe no fundo esperava era alguém que aparecesse em sua vida de modo arrebatador e o libertasse de si mesmo. Alguém que tomasse conta de sua vida. Uma pessoa que lhe trouxesse redenção e preenchesse todas as lacunas de sua vida emocional.

O que o brilhante engenheiro não havia entendido é que a origem da solidão está dentro de cada um. À medida que se distanciava de si mesmo em busca de alguém que o consolasse, a solidão apenas aumentava. A busca por relações interpessoais jamais reporia aquela conexão emocional interna que em algum momento havia sido quebrada. Não importa quão estimulante seja um relacionamento, quanto mais a pessoa busca fora de si aquilo que está dentro dela mesma, maior será a sensação de estar sozinho.

Buscar nos outros o remédio para o vazio no peito é também um modo de destruir um relacionamento. Fazer-se dependente do outro é o início de jogos de manipulação, onde um se coloca sempre no lugar de vítima, e coloca nas mãos do outro a responsabilidade sobre si mesmo. É como deixar sua carteira com talão de cheques e cartão de crédito dentro do carro, e entregar as chaves do mesmo ao primeiro desconhecido que você encontrar.

Felipe precisa se reconectar com a força que existe dentro de si, e simplesmente se enamorar de sua existência. Quanto mais procurar a resposta fora de si, mais vazio de sentido ficará. Apenas pessoas com sérios problemas emocionais conseguem alimentar por muito tempo as expectativas de um adulto dependente que espera ter seus desejos atendidos tal como a criança que chora às 3 horas da manhã para ser amamentada.

O que Felipe, você e eu precisamos entender é que a pessoa capaz de cuidar de si mesma, jamais sentirá solidão, pois ela irradiará a luz que cultivou em sua interioridade o e não existe nada mais atraente do que alguém feliz consigo mesmo.

*Por R. C. Amorim Neto

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