Rússia e China estreitam laços econômicos e diplomáticos

As duas potências assinaram uma série de acordos bilaterais durante visita do premiê russo a Pequim, a despeito de antigas disputas e desconfianças. Visita de Putin coincide com 60º aniversário das relações diplomáticas.

“Tradicionalmente, esses países enfatizavam sua soberania no combate conjunto ao extremismo religioso, o separatismo e a unilateralidade norte-americana”, argumenta Holslag. “Mas, desde a intervenção russa na Geórgia, esse denominador comum perdeu força. A China se recusa a reconhecer a independência da Ossétia do Sul e da Abkházia, como a Rússia gostaria. E os chineses também criticam os planos russos de construir novas bases militares na Ásia Central.”

Comércio bilateral acelera aproximação

Principalmente parcerias nas áreas de comércio e energia foram acertadas. A China é o segundo maior parceiro comercial da Rússia, atrás apenas da União Europeia. E, mesmo que a crise financeira tenha feito o comércio bilateral cair 36% para 24 bilhões de dólares nos oito primeiros meses de 2009, a expectativa é que ele volte a subir para entre 60 e 80 bilhões de dólares em 2010.

No entanto, é a China que impulsiona as relações bilaterais, uma vez que a economia chinesa deixou a russa para trás. Afinal, seu PIB segue crescendo, enquanto o russo encolheu em consequência da crise.

“A China responde por menos de 10% do volume de comércio da Rússia e o déficit comercial russo continua aumentando”, analisa Holslag. “Mesmo assim, está claro que, a longo prazo, a Rússia almeja intensificar a cooperação econômica com a China, a fim de reduzir sua dependência em relação ao mercado consumidor europeu. Ela aprovou grandes projetos de construção de gasodutos até a China e está buscando transformar seu território numa ponte ligando Ocidente e Oriente. O Oceano Ártico é outro trunfo com o qual a Rússia tentará acelerar seu avanço econômico.”

Expandindo a cooperação energética

Também a China está tentando lucrar com a insatisfação da Rússia com a Europa como parceira e consumidora de energia. Embora ainda aposte suas fichas no Ocidente, Moscou está em busca de compradores alternativos para suas reservas de petróleo e gás natural, e a China deixou claro que está interessada nos enormes recursos minerais russos.

“Ao contrário da Europa, a Rússia está muito interessada na ‘segurança da demanda’, especialmente diante de políticas mais severas de proteção ao clima”, argumenta Arno Behrens, responsável pelo setor de pesquisa energética do Centro de Estudos de Política Europeia, com sede em Bruxelas.

“A Rússia procura diversificar sua estrutura de demanda e a China seria um parceiro ideal, capaz de garantir a demanda em alto nível a longo prazo. Ao mesmo tempo, a China poderia melhorar sua imagem perante o Ocidente ao ampliar a cooperação com a Rússia em substituição aos chamados rogue states”, disse Behrens.

Já em abril de 2009, foi assinado um acordo que poderá intensificar a cooperação energética sino-russa, através do qual a China, em troca de 300 milhões de toneladas de petróleo russo ao longo de 20 anos, concordou em conceder um empréstimo de 10 bilhões de dólares ao monopólio estatal de oleodutos russo Transneft e outros 15 bilhões de dólares à petrolífera estatal Rosneft.

Os investimentos chineses no oleoduto Sibéria Oriental-Pacífico contribuirão para garantir sua finalização até 2010 e poderiam permitir o fornecimento de 15 milhões de toneladas de petróleo bruto à insaciável indústria chinesa.

Crescimento chinês alavanca construção de gasodutos

A China também poderia se tornar um grande consumidor de gás russo, caso o monopólio Gazprom consiga superar o impasse com os chineses com relação ao preço e levar adiante um acordo de 2006 que previa a construção de dois grandes gasodutos até a China.

“De acordo com a Agência Internacional de Energia, a China é o segundo maior consumidor de energia do mundo e também o que mais cresce, devendo tornar-se o maior consumidor já em 2010”, afirma Behrens. “A demanda primária total de energia quase triplicou entre 1980 e 2005 e espera-se que volte a dobrar entre 2005 e 2030. Mas, apesar desse enorme potencial, as relações energéticas com a Rússia continuam subdesenvolvidas.”

*Com informação de Nick Amies

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