O desejo de um escândalo | Por Gabriel Perissé

Boa parte da mídia tentou transformar em terrível escândalo as falhas registradas na aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio deste ano; e, de quebra, em pretexto para atacar o ministro Fernando Haddad, uma das mais promissoras lideranças do PT. Artigos e matérias com a desesperada intenção de causar impacto lançaram mão de trocadilhos previsíveis: “Enem reprovado” (IstoÉ), “Reprovado, Dr. Haddad” (IstoÉ Dinheiro), “O Enem levou bomba de novo” (Época), “Enem: em recuperação ou já reprovado?” (Correio Braziliense), “Exame repetente” (O Estado de S.Paulo), “E o Enem levou pau” (Cruzeiro do Sul, de Sorocaba, SP).

Na ânsia de suscitar a fúria da opinião pública, foram usadas palavras drásticas, expressões desmoralizadoras: “Espanta o amadorismo” (Veja), “Erros primários” (Época), “As vítimas do Enem” (editorial IstoÉ), “Vítimas de erros do Enem” (O Estado de S.Paulo). A ideia é fazer com que os leitores experimentem o drama, lamentem a tragédia, sintam-se atingidos pela desgraça.

Augusto Nunes superou-se em sua crítica:

“Deu tudo errado. Troca de cabeçalho, erros de digitação, informações equivocadas, vazamentos, questões com números duplicados – houve um pouco de tudo na comédia de péssimo gosto que reduziu o Enem a outro caso de polícia. Mais de 3 milhões de inscritos ainda não sabem se as provas serão anuladas ou não. O que se sabe é que nem Lula conseguirá manter o ministro no cargo em 2011.

“Dilma Rousseff não deu um pio sobre o assombroso espetáculo da incompetência. Ainda bem que a campanha eleitoral acabou em outubro. Se não tivesse terminado, estaria proibida de acusar José Serra de querer destruir o Enem. Fernando Haddad já conseguiu.” (Direto ao Ponto, 08/11/2010)

Tropeços e problemas 

O desejo de revelar um Enem catastrófico e um MEC descuidado e irresponsável é claramente enviesado, para não dizer manipulador. A batalha judicial que Haddad empreendeu (e venceu) para evitar que a maioria dos estudantes fosse prejudicada com o cancelamento da prova, e sua disposição para responder a todas as perguntas e explicar o real tamanho das falhas, e de como podiam ser contornadas (ver entrevista do ministro ao Bom Dia Brasil, em 9/11), manifestam empenho e capacidade de fazer o melhor.

Ao abordar a questão no dia 14/11, a Folha de S.Paulo não acompanhou o tom panfletário de tolerância zero contra o Enem e o MEC. Fábio Takahashi e Ricardo Gallo contaram ao leitor o que outros meios omitiram. Por exemplo: que muitos educadores e autoridades acadêmicas acreditam que o Enem (criado nos tempos de FHC/Paulo Renato Souza, aperfeiçoado na gestão Lula/Fernando Haddad) deve continuar como instrumento de seleção de candidatos para universidades federais e como estímulo para tornar o currículo do ensino médio menos conteudista conforme os vestibulares tradicionais exigem que o seja. Importante lembrar que o novo Enem prioriza habilidades reflexivas e analíticas.

A Folha também se dignou informar que o Enem, neste momento de crise (ou de crise induzida), está recebendo o apoio da UNE (União Nacional dos Estudantes), do Consed, que reúne os secretários estaduais de Educação, e do Sieeesp (Sindicato de Escolas Particulares de São Paulo). O que não é pouco, e ajuda a perceber que os que participam do coro dos descontentes, inclusive torcendo para que milhares de alunos saíssem às ruas liderados por meia dúzia de marionetes, estão agindo mais por ressentimento do que por bom-senso.

Teria sido ainda mais justa a (um tanto inusitada…) posição da Folha, e muito mais equilibrada a de outros órgãos da imprensa (mesmo que estes não simpatizem com as iniciativas do MEC de 2002 para cá), se levassem em consideração que em qualquer concurso ou exame há tropeços e problemas. Os imprevistos são inevitáveis. Especialmente se estivermos falando de um exame do porte que o Enem assumiu nos últimos dois anos, com alcance nacional, envolvendo 4,6 milhões de inscritos.

Intransigência com uns e benevolência com outros

Bastaria recordar, por contraste, a benevolência (ou a conivência…) com que a mídia tratou os erros e dificuldades que ocorreram em 2009 na aplicação do Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo), avaliação externa da Educação Básica realizada desde 1996 pela Secretaria da Educação de São Paulo:

** As provas, que seriam realizadas por cerca de 2,5 milhões de alunos, foram adiadas em uma semana. Não aconteceram nos dias 10, 11 e 12 de novembro (de 2009) conforme anunciado. A empresa responsável pela aplicação do exame, o Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (CAED), não cumpriu o prazo estabelecido em contrato. O Saresp 2009 aconteceu nos dias 17, 18 e 19 de novembro, gerando reclamações dos alunos (devidamente não noticiadas…).

** No dia 18 de novembro de 2009, em Araraquara, as provas de português destinadas a 20 mil alunos estavam misturadas com as de geografia, que só deveriam ser conhecidas no dia seguinte, com a prova de história. Também se verificou ausência de provas em várias cidades, obrigando a que professores e fiscais fizessem cópias xerografadas por conta própria, com muito jeitinho, improvisação… e desinformação do grande público.

** Em várias escolas, encontraram-se cadernos de respostas errados, houve falta de informações e questões misturadas (conforme noticiado no Portal Terra, em 19 de novembro de 2009).

** Sérias suspeitas de que professores passaram cola para alunos (segundo matéria na Época).

** Vários acidentes e incidentes relatados no blog NaMariaNews, sob o título SARESP 2009: o rescaldo.

Nenhum desses problemas, contudo, foi visto como prenúncio do fim do mundo ou da carreira de Paulo Renato. O coordenador do Saresp, Manuel Palácios, considerou que ninguém seria prejudicado, conforme essa notícia, e ponto final. Ficou por isso mesmo.

*Com informação de Gabriel Perissé

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