Marina teve papel de modernização política, diz Touraine

Para sociólogo, há risco de retrocesso populista se Dilma usar capital político de Lula de forma pouco cautelosa Francês diz que Serra não errou na eleição e que apoio do presidente Lula foi um “maremoto” que derrotou o tucano Uirá Machado. Folha de São Paulo. 16 de novembro de 2010

O sociólogo francês Alain Touraine, 85, afirma que Marina Silva (PV) teve nas eleições um papel de modernização da política brasileira.

Doutor honoris causa por 15 universidades, Touraine participa hoje às 17h do seminário “Queda e renascimento das sociedades ocidentais?”, promovido pela Emplasa, em São Paulo (hotel Tivoli Mofarrej, na al. Santos, 1437).

Folha – O sr. tem manifestado interesse pelos movimentos ambientais. Qual sua avaliação sobre o desempenho eleitoral de Marina Silva (PV)? Há quem diga que ela aglutinou os votos dos descontentes.

Alain Touraine – É uma coisa positiva a busca por uma solução nova. Marina teve um papel de modernização política. Como um terceiro partido ganhar uma eleição presidencial é uma meta difícil, o desempenho eleitoral dela foi uma ótima surpresa.

Isso significa que as pessoas não apenas dizem não a algo que está aí mas também estão procurando soluções novas. É uma tendência que se encontra em vários países.

As novas classes médias não têm suas referências no socialismo, mas nos movimentos ambientais, na diversidade cultural, no papel da ciência. O mundo não viverá mil anos na briga entre liberais e socialistas.
A vitória de Dilma Rousseff (PT) tem algum sentido simbólico por ser a primeira mulher presidente do Brasil?

Francamente, acho que não. O tema da mulher que ganha uma eleição já é uma coisa bastante comum. Os problemas que ainda existem para as mulheres se dão mais no nível pessoal.
Qual sua avaliação política sobre a vitória de Dilma?

De maneira mais óbvia, há essa imensa popularidade de Lula e uma vitória de caráter pessoal. Dilma não existia, não tinha experiência política em sentido institucional.

Alguns dizem que ela será uma espécie de “bis” de Lula, uma presidente interina para que ele volte daqui a quatro anos. Creio que há algo de verdade nisso. Mas também há aí uma coisa ingênua, porque ninguém pode governar um país interinamente.

O que realmente preocupa é que há um perigo de retrocesso populista, pois há uma grande massa de excluídos.

No Brasil, o risco é o de que Dilma utilize o fantástico capital político de Lula de forma menos cautelosa que ele. Mas esse não é um perigo imediato, até porque ninguém sabe o que Dilma fará.
Por que José Serra (PSDB) perdeu as eleições?

Tecnicamente, Serra é infinitamente superior. Mas, diante de um Lula no poder… Não é que Serra fez algo errado. Foi um maremoto.

*Com informação do Folha de São Paulo. 16 de novembro de 2010.

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