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Construção de barreira entre Israel e Egito serve a vários propósitos

O governo israelense construirá uma nova barreira de segurança, desta vez na fronteira com o Egito. Objetivo oficial é barrar a entrada de imigrantes africanos, mas o contrabando de armas pelo Hamas também está na mira.

O premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou na semana passada o início da construção de uma barreira de alta tecnologia, a ser instalada ao longo dos 266 quilômetros que separam o país do Egito, ao longo da península do Sinai. A barreira custará aproximadamente 374 milhões de dólares e irá dispor de uma série de elementos de alta tecnologia, como radares, por exemplo.

Uma vez construída a nova barreira, Israel estará praticamente cercado por todos os lados, pois o país já tem fronteiras altamente patrulhadas ao longo de seus limites com o Líbano, a Síria e a Jordânia, além de estar construindo um muro dentro de suas próprias fronteiras para separar o país dos territórios palestinos.

A nova barreira na fronteira com o Egito é, contudo, diferente das demais. A região se tornou a principal rota de trânsito para imigrantes africanos que deixam seus países por razões econômicas, requerentes de asilo e traficantes de drogas, entre outros. Estimativas apontam que mais de mil pessoas cruzam todos os meses aquela fronteira para entrar em Israel.

“O problema dos imigrantes ilegais ao longo da fronteira sudoeste é uma ameaça ao caráter judeu e democrático do Estado de Israel. Quero ver resultados concretos com relação ao início das obras nas próximas semanas”, declarou Netanyahu.

Solução para dois problemas

Gershon Baskin, um dos diretores executivos do Centro de Pesquisa e Informação Israel-Palestina, afirma que a ampla maioria dos israelenses apoia a nova construção. “Muitos israelenses dão grande apoio porque temos aqui um problema com o qual ninguém sabe lidar”, disse Baskin à Deutsche Welle. “Temos estimativas de que 15 mil pessoas cruzam a fronteira anualmente e tem gente que acha que esse número vai dobrar nos próximos anos se a barreira não for construída”, completa.

Baskin insiste que se trata de um tipo muito diferente de barreira, se comparado à imensa massa de concreto e aço que vem sendo erigida na Cisjordânia. “É uma situação completamente diferente. O muro que vem sendo construído entre israelenses e palestinos tem por meta prevenir que homens-bomba entrem em Israel, embora algumas pessoas o vejam como uma apropriação da terra”.

Mas enquanto Baskin descreve as fronteiras no Sinai como “muito tranquilas em termos de segurança”, há quem aponte que se trata de um ponto usado com frequência pelo braço militar do Hamas para contrabandear armas para dentro de Israel.

Margret Johannsen, pesquisadora do Instituto de Pesquisas de Paz e Políticas de Segurança (IFSH), sediado em Hamburgo, afirma que “o Hamas realmente tem o que temer com a construção da barreira”. Essa é, segundo ela, obviamente outra razão para os altos investimentos do governo israelense na construção.

Inimigo comum

O Egito diz que a construção da barreira é problema de Israel. “Esse assunto não nos diz respeito de forma alguma”, afirmou Ahmed Aboul Gheit, ministro egípcio do Exterior, quando os planos para a construção foram anunciados pela primeira vez. “Israel está construindo algo em seu próprio território e não há nenhuma ligação entre essa barreira de segurança e nossa construção ao longo da fronteira com a Faixa de Gaza”, concluiu.

Mas, para muitos observadores, esse aparente desinteresse esconde um interesse ativo do Egito em controlar tal fronteira. “O Hamas é um inimigo comum tanto de Israel quanto do Egito”, disse Johannsen à Deutsche Welle. “O Hamas tem seus fundamentos na Irmandade Muçulmana, que questiona a legitimidade do regime egípcio”, completa.

“O problema é que o governo egípcio pratica uma política ambígua em relação à Irmandade Muçulmana, que é oficiamente ilegal e não pode se candidatar às eleições, mas angaria apoio entre a população egípcia, que vê o Hamas como um Davi lutando contra Golias.”

Reais objetivos

O governo egípcio é forçado então a encontrar um equilíbrio entre o apoio da população ao Hamas e a pressão ocidental e de Israel para controlar a fronteira. Enquanto, para os israelenses, os assuntos imigração ilegal e segurança são totalmente distintos, na fronteira do Sinai fica difícil distingui-los, especialmente para a guarda fronteiriça.

Os palestinos escavaram milhares de túneis para contrabandear mercadorias, combustível e armas do Egito para a Faixa de Gaza depois que Israel impôs um bloqueio rígido ao território há mais de dois anos. E muitos imigrantes africanos pagam traficantes para passarem para o lado israelense, com a esperança de encontrar um emprego e escapar da pobreza.

A rede de túneis continua a florescer, apesar do muro de aço subterrâneo que o Egito construiu ao longo da fronteira com a Faixa de Gaza. Dezenas desses túneis são descobertos todos os dias e destruídos tanto pelas autoridades egípcias quanto pelas israelenses.

Para agravar ainda mais a situação, os guardas egípcios de fronteira costumam atirar em imigrantes africanos, e muitos foram mortos. O incidente mais recente aconteceu no último sábado, quando a polícia egípcia matou um sudanês e deixou outros dois feridos quando eles tentavam cruzar a fronteira. Outros sete imigrantes escaparam e entraram em Israel, depois que os contrabandistas trocaram tiros com a polícia de fronteira.

Johannsen diz que, embora as preocupações de Israel com a imigração possam ser reais, o governo do país tem outras prioridades. “É verdade que os imigrantes africanos são um problema e essa é uma das várias formas que eles usam para chegar ao norte, mas não creio que esse seja o problema principal, mas sim o contrabando. Quando essa fronteira for ‘à prova de contrabando’, isso vai acuar o Hamas mais e mais. Esse é o verdadeiro objetivo”, completa.

Diante dos altos custos da nova barreira e dos desafios técnicos e de engenharia que ela representa, é possível que sejam necessários vários anos para que ela esteja pronta.

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