Câmara debate trabalho das unidades terapêuticas para viciados em drogas em Feira. Leia esta e outras notícias da CMFS

A Câmara de Feira de Santana realizou nesta sexta-feira (19/11/2010) uma sessão especial para discutir as ações desenvolvidas no Município em torno da comunidade terapêutica – entidades que assistem a pessoas que lutam para libertar-se do vício das drogas. O evento contou com a presença de vários dirigentes de instituições nessa área e do secretário de Prevenção à Violência, Mizael Freitas. A iniciativa de propor a sessão foi do vereador Justiniano França, que presidiu os trabalhos. Após a abertura, ele concedeu a palavra para os dirigentes de casas terapêuticas que estavam presentes no plenário.

O pastor Ari Araújo Santos, presidente da Comunidade Terapêutica, foi o primeiro a falar. Considerou importante a iniciativa da Câmara. “Estamos dando um passo, na medida em que se concede esse espaço para o debate de um assunto que necessita de toda a atenção”, disse ele. Para o pastor, se os pais não abraçam e cuidam do seu filho, o traficante o fará. “Não é apenas registrar uma criança. Mais importante que o documento é cuidar. Precisamos de gente que faz, não apenas ficar projetando, realizando reuniões, mas fazer, com urgência”. O palestrante ressaltou que a demanda nesses centros de recuperação é absurdamente grande. “Estão lotados e precisamos saber o que fazer”.

Erivelton Ferreira, presidente do Centro de Recuperação Gênesis, informou que já lidava com a questão da assistência a pacientes das drogas antes mesmo de dirigir uma entidade. “Vi que o problema é gravíssimo. É uma entidade beneficente sem fins lucrativos, que não cobra qualquer tipo de valor à família dessas pessoas”. Ele salientou que normalmente o nível de escolaridade dos internos é baixo. “Em muitos casos não conhecem os pais e os valores de uma família”.

De acordo com o dirigente, muitos dos assistidos são profissionais de diversas áreas, que sucumbem ao poder das drogas. “Temos uma terapia ocupacional de modo a evitar a ociosidade, além de palestras diárias sobre temas como os princípios da vida, a disciplina”. Em sua opinião, essas unidades funcionam, no entanto, como paliativo. A solução do problema está em suas famílias. “Muitos parentes nem os recebem mais. Se são rejeitados, é porque causaram danos”.

Ele Defende uma legislação mais rigorosa no setor. “Alguns, quando sentem falta das drogas, fogem dos centros terapêuticos. Creio que deveria haver um pulso mais firme. Os usuários precisam saber que estão ao alcance do braço da Justiça”.

Com insuficiência de recursos, unidades estão sempre lotadas

Secretária da Fazenda Esperança, unidade da Igreja Católica, Ana Cláudia Machado, disse que a instituição tem 27 anos no país, mas em Feira de Santana foi implantada há apenas dois anos. Não existem mais vagas para internos. “Parte o coração dizer que não há vaga. A preocupação é grande. Temos projeto de ampliação, mas não sabemos quando vai estar sendo executado”.
Ela observa que não é somente o paciente que precisa de assistência. A família precisa estar preparada para recebê-lo. “Muitos chegam ao local imaginando que estão se instalando em um presídio. Na verdade, desejamos elevar o papel da família em suas vidas”. Um detalhe curioso apresentado pela representante da Fazenda Esperança é que o menor número de assistidos na entidade é de feirenses. A maioria chega de outras cidades e até de outros estados.

A representante do Centro de Recuperação Feminino, Délia Maria, informou que atua na assistência a pacientes das drogas há décadas. “Levava pessoas de Feira de Santana para São Paulo. Apelava por passagens. É uma oportunidade para agradecer pelo apoio recebido”. Em sua avaliação, os centros de recuperação para mulheres enfrentam mais dificuldades. As unidades que assistem a homens recebem pedreiros, marceneiros, pessoas que conseguem desenvolver atividades. As mulheres não têm essas habilidades e são mais necessitadas de atendimento médico, diz ela.

“Peço às autoridades que assistam com mais interesse a esses centros de recuperação. Quando levados para o CAP’s, os pacientes enfrentam problemas. Encontram pessoas fumantes no local e como estão em abstinência, não suportam esse ambiente”. Segundo ela, o Centro de Recuperação Feminino precisa de psicólogo e psiquiatra pelo menos um dia por semana. “Não temos condições de custear. A Prefeitura deveria arcar com essas despesas”. Sugeriu ainda mudanças na legislação. “Atualmente, o menor pode tudo. Precisa ser dado um freio”.

O Centro de Recuperação Nova Vida é um dos mais antigos de Feira de Santana. De acordo com seu representante, Clóvis da Silva, nasceu em 1987, através da iniciativa de um grupo de jovens. O vereador Justiniano foi um dos fundadores. Milhares de pessoas passaram por lá. Anualmente, 700 ou 800 pessoas. Atualmente, são assistidos 110 homens. Foi criado para atender jovens, mas o cenário mudou. “Não apenas adolescentes experimentam o crack. Hoje, é uma droga que atinge pessoas adultas e até de certa idade”.

Ele observa que há um avanço do número de usuários do sexo feminino. A instituição tem o objetivo de adquirir uma área, para criar um atendimento para as mulheres. Mas é necessário que o poder público dê o seu apoio. “Essas instituições necessitam de ajuda financeira, para que possam custear suas despesas, bem como disponibilizar especialistas, além de ampliar a assistência às famílias”. Ele diz que as comunidades terapêuticas têm necessidades semelhantes.

Josafá Vieira, relações públicas da instituição Desafio Jovem, disse que a entidade existe há mais de 30 anos. Próximo domingo (21) estará completando 31 anos. Na ocasião, será realizada mais uma formatura de alunos, às 13h30min. Serão reintegrados 48 pacientes, todos homens. As dificuldades, segundo ele, são inúmeras. A unidade conta com uma fábrica de vassouras, que funciona como alternativa de renda para os internos e um importante referencial para depois que eles deixam a instituição.

Há uma sala de aula, onde os internos são alfabetizados. Os custos mensais dessas atividades somam mais de R$ 18 mil. Obreiros são remunerados e têm carteira assinada. “Precisamos de mais pessoal, a exemplo de psicóloga, psicanalista e assistente social”. Cobrou a visita dos vereadores às instituições, visto que elas prestam serviço de relevância para a sociedade.

Para Wilson Silva dos Santos, do Centro de Recuperação Esquadrão Redentor, os viciados em drogas que vivem em Feira de Santana são encaminhados para outras cidades por uma questão estratégica. Eles são deslocados a outras cidades, para fugir do ambiente local, onde se inseriu no universo das drogas. Disse que está nascendo em Feira o 1º Centro de Recuperação para Adolescentes. Em 60 dias, aproximadamente, inicia atividades. ‘“O Dia Municipal Antidrogas é marcante para o Município, mas não se está colocando em prática o que é tratado nas reuniões”, critica.

Justiniano apela por políticas públicas em apoio ao setor

O vereador Justiniano França, autor do requerimento que proporcionou a sessão especial e que presidiu os trabalhos, defendeu que políticas públicas sejam implementadas, em Feira de Santana, com o apoio dos diversos organismos, para que as unidades terapêuticas que assistem a pessoas que lutam para se livrar das drogas tenham uma maior estrutura e a sociedade possa contar com um suporte à altura do problema.

“É possível, a partir de agora, discutir sobre essas políticas públicas e, inclusive, fazer funcionar o Conselho Municipal Anti-Drogas. Creio que faltam propostas. As casas terapêuticas podem apresentá-las ao poder público”, afirmou.

O vereador Carlos Alberto Costa Rocha salientou que os relatos deixaram claro que há grande carência de material humano nesses centros terapêuticos. Defendeu que é preciso, na prática, que o Poder Executivo tome decisões que auxiliem o trabalho. “Ou vamos ficar no discurso”. Em sua opinião, o Legislativo pode atuar como mecanismo de pressão para que essa ajuda seja viabilizada.

Representante do Sest-Senat, Márcia Oliveira declarou que o órgão tem interesse em participar da causa. “Já atuamos, junto à Polícia Rodoviária Federal, nesse combate. Mas temos médicos e outros profissionais que podem ajudar essas unidades terapêuticas, principalmente na assistência relacionada à saúde e oficinas que proporcionem o aprendizado de atividades que possam garantir uma renda a esses pacientes”. Ela prometeu manter contato com a gerência do Sesi e do Senai, que também podem apoiar iniciativas.

Secretário fez pesquisa sobre o funcionamento das unidades terapêuticas

O secretário de Prevenção à Violência, Mizael Freitas, ressaltou que há necessidade de se definir quais políticas públicas existem ou devem ser implementadas para os que estão prestes a adentrar o mundo das drogas e aqueles que já se encontram nesse universo. Observou que a maioria dos centros terapêuticos é de iniciativa das igrejas evangélicas, entendendo a ausência do poder público nessa questão.

Ele realizou uma pesquisa no setor. Chegou à conclusão que indica aproximadamente 1.850 alunos são recuperados por ano nessas unidades terapêuticas em Feira de Santana. “A cidade, conforme o Censo em 2009, teria 591 mil habitantes. Não se sabe quantos são os usuários de drogas, mas deve ser grande o número”. Para Mizael, a maior parte das entidades sobrevive pelo amor à causa dos seus dirigentes. “Não há, do Governo Federal, do Estadual e Municipal, políticas públicas para aplicar recursos na ressocialização dessas pessoas”.

Propôs criar uma legislação de incentivos fiscais para empresas que contribuam com a recuperação de crianças e jovens, tal qual existe no esporte. “O Conselho Municipal Anti-Drogas, de 2003, nunca funcionou. Esperamos que os secretários de Educação, Saúde, Desenvolvimento Econômico e Desenvolvimento Social, passem a agir de maneira mais firme para que a entidade efetivamente venha a atuar”.

Compartilhe e Comente

Faça uma doação ao JGB

Redes sociais do JGB

Publicidade

Publicidade

+ Publicações >>>>>>>>>

Manchete

Colunistas e Artigos

Sobre o autor

Redação
O Jornal Grande Bahia (JGB) é um portal de notícias com sede em Feira de Santana e abrange as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: [email protected]