Cachoeira e Maragojipe: Livros e DVD garantem memória e salvaguarda de bens imateriais baianos

Livros e DVD garantem memória e salvaguarda de bens imateriais baianos.

Livros e DVD garantem memória e salvaguarda de bens imateriais baianos.

Até 2011 IPAC e FPC, ambos da SecultBA, totalizam 10 lançamentos de livros e vídeodocumentários sobre patrimônios culturais intangíveis da Bahia

Foram lançadas nas cidades de Cachoeira e Maragojipe, região do Recôncavo da Bahia, os livros com DVD “Festa da Boa Morte” e “Carnaval de Maragojipe”. Os quatros produtos integram a série de publicações do Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia (IPAC) em parceria com a Fundação Pedro Calmon (FPC), órgãos da Secretaria de Cultura do Estado (SecultBA). Os lançamentos contam com colaboração da Universidade Federal do Recôncavo (UFRB) e prefeituras municipais de Cachoeira e Maragojipe.

A iniciativa propicia registro da memória e reflexões sobre bens culturais intangíveis da Bahia, garantindo a salvaguarda dessas manifestações que são patrimônios culturais do povo baiano. Os dois livros e os dois vídeodocumentários integrarão atividades nas redes públicas de ensino municipais e estaduais na Bahia e de alguns estados do Brasil, assim como, de faculdades, universidades e entidades artístico-culturais, entre outras instituições.

De acordo com o diretor geral do IPAC, Frederico Mendonça, a série de publicações intitulada coleção ‘Cadernos do IPAC’ reúne trabalhos desenvolvidos pelas equipes de técnicos e especialistas da instituição, além de trechos dos dossiês que possibilitaram o registro oficial de bens intangíveis como Patrimônios Culturais Imateriais da Bahia. “Além de promover a preservação dos bens culturais, o IPAC tem por obrigação regimental, pesquisar e promover a produção técnica e científica com a qual trabalha e colaborar na formulação da política de educação patrimonial, e com as publicações e os DVD, cumprimos essas prerrogativas”, afirma Mendonça.

O lançamento da primeira publicação da coleção Cadernos do IPAC, ocorreu em abril deste ano (2010) no Solar Ferrão, Centro Histórico de Salvador (CHS), e abordou o Pano da Costa. Segundo alguns historiadores, o pano da costa foi o principal produto africano exportado e consumido na Bahia nos séculos 18 e 19, uma referência cultural para as nações da costa oeste da África e indumentária sagrada para candomblés baianos. A intenção da parceria entre FPC e IPAC é publicar livros e produzir videodocumentários que abordem manifestações consideradas patrimônios culturais.

“O livro Pano da Costa trouxe artigos de historiadores, sociólogos e especialistas do IPAC, além de artistas plásticos e artesãos, constituindo importante estudo sobre a história e o método de tecelagem dessa peça têxtil”, explica o gerente de Pesquisa (Gepel) do IPAC, Mateus Torres. A publicação possibilitou, ainda, resgate histórico e homenagem ao mestre dessa arte, o baiano Abdias do Nascimento Nobre (1910-1994), nascido no bairro de Santo Antônio Além do Carmo, em Salvador, e descendente de africanos.

POLÍTICA PÚBLICA de PATRIMÔNIO CULTURAL – Nos últimos quatro anos a Bahia se destacou como referência nacional por trabalhos que visam a salvaguarda dos seus patrimônios imateriais. Os lançamentos do IPACsão mais uma ação que reafirma essa posição. “Através de decretos, o governador já possibilitou, de 2007 a 2010, os reconhecimentos de Patrimônios Imateriais da Festa da Boa Morte em Cachoeira, Carnaval de Maragojipe nesta cidade e Festa de Santa Bárbara em Salvador”, relata o diretor Frederico Mendonça. Até dezembro (2010), o IPAC termina a pesquisa sobre Desfile dos Afoxés, e até 2011, estudos sobre Ofício dos Vaqueiros, Ofício dos Mestres Organistas e Festa do Bembé em Santo Amaro. Todos terão publicações exclusivas e vídeodocumentários em DVD.
A distinção de imaterial ou intangível começou a ser utilizada a partir de 1997 pela Organização das Nações Unidas para Educação Ciência e Cultura (Unesco). Modos de fazer, ofícios tradicionais, celebrações, festas, danças e outras manifestações são exemplos de bens imateriais. O patrimônio imaterial abrange tradições que determinado grupo pratica e deseja preservar em respeito à ancestralidade, à importância do ato e com objetivo de resguardá-las. “Com o registro oficial esses patrimônios imateriais passam a ter prioridade nos programas e linhas de financiamento cultural municipais, federais e até internacionais, facilitando a preservação dessas tradições”, enfatiza o gerente Mateus Torres.

Os estudos para o registro de um bem imaterial duram de seis meses até dois anos, a depender do tema pesquisado. “O dossiê deve provar, através de reconstituição histórica, com registros documentais, imagéticos e depoimentos, que é um bem a ser considerado Patrimônio do Estado e não somente de uma localidade”, esclarece Torres. As prefeituras são responsáveis por patrimônios de relevância municipal, o governo estadual por bens de representatividade para a Bahia, enquanto o governo federal fica com tutela dos bens de proeminência nacional. Mais informações são obtidas no sitewww.ipac.ba.gov.br ou na Gepel/IPAC via telefone (71) 3116-6741.

Livro FESTA da BOA MORTE – A publicação “Festa da Boa Morte” será lançada nesta quarta-feira, dia 10, às 14 horas na sede regional do IPAC em Cachoeira, que fica em uma das principais ruas da cidade, a 25 de Junho, nº8, próxima à Câmara Municipal. O evento contará com a presença do governador do Estado, secretários e dirigentes estaduais, além de deputados, vereadores e prefeitos da região. A programação consta de exposição de fotos da festa e bonecões de São Félix, exibição do videodocumentário, lançamento do livro e, ao final, apresentação do Grupo Samba de Roda Suerdieck.

O livro é composto por 120 páginas, 18 fotografias, no formato de 21 por 29,7 centímetros, fechado. Dentre os textos e capítulos estão artigo sobre Metodologia de autoria da coordenadora de Educação Patrimonial do IPAC, Ednalva Queiroz, texto intitulado “Cachoeira: ponto de confluência do Recôncavo Baiano” de Magnair Barbosa, que também escreve o artigo “Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte: entre o Aiyê e o Orum”. Magnair contribui, ainda, com “Organização hierárquica e relação de poder”.

A publicação ganha destaque com um artigo inédito do conceituado antropólogo e museólogo Raul Lody, intitulado “Abiyamo Obirin Di Oku: mãe, mulher, morte”. O livro é finalizado com os depoimentos das irmãs da Irmandade da Boa Morte e com o parecer técnico que permitiu o registro oficial da Festa da Boa Morte como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia, de autoria de Mateus Torres, gerente de Pesquisa e Legislação do IPAC.

Livro CARNAVAL de MARAGOJIPE – Já o livro “Carnaval de Maragojipe” é composto por 120 páginas no mesmo formato e com as mesmas características do da Festa da Boa Morte. Os artigos tratam das festividades carnavalescas da cidade de mesmo nome que é classificado oficialmente desde fevereiro de 2009, como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia pelo Governo do Estado. Segundo estudos do IPAC, a festividade remonta ao final do século 19 e tem inspiração nas similares que ocorriam na Europa, onde predominavam as fantasias de figuras folclóricas como os antigos carnavais que, hoje, só acontecem em salões privados. Esse carnaval mescla culturas de matrizes africanas e européias ou ibéricas, advinda da miscigenação típica do Recôncavo.

Pesquisas mostram, por exemplo, elementos dos carnavais europeus do início do século 19, como o hábito dos moradores de se fantasiarem de pierrôs, magos e diabos para desfilarem, além da influência africana, presente na religião, na musicalidade e na culinária. A presença das bandas de sopro como animadoras da festa também é um traço característico. Com três dias de duração os festejos têm caretas e pierrôs que desfilam pelas ruas, com grupos que fazem questão de investir a cada ano com suas fantasias que não somente remetem a um passado remoto como também dialogam com questões contemporâneas, expondo-as nas fantasias.

Desde 2007, equipe formada por historiadores, sociólogos, antropólogos e museólogos, realizam coleta de materiais para os estudos que formaram o dossiê de registro, o livro e o vídeodocumentário. “Em parceria com a TV Educativa conseguimos 10 horas de gravação do carnaval de 2008 e entrevistas com personalidades locais”, diz Mateus Torres, gerente do IPAC. A equipe multidisciplinar do IPAC coletou, ainda, dezenas de documentos em papel, oriundos do início do século 20 até os dias de hoje, e 500 fotos antigas e contemporâneas. Músicos, carnavalescos, políticos, historiadores, pesquisadores e artesãos locais que confeccionam as fantasias e máscaras, além de organizadores do concurso de fantasias, foram entrevistados. O produto final foi um vídeo-documentário com 30 minutos de duração. “Todo o material coletado integra o dossiê que embasa a proposta de registro desse bem cultural como patrimônio da Bahia”, comenta o gerente do IPAC. Outras informações sobre o tema são disponibilizadas através na Gepel/IPAC através dos telefones (71) 3116-6731 e 3116-6726.

FESTA DA BOA MORTE: acontece anualmente na cidade de Cachoeira, a 110 km de Salvador, em meados do mês de agosto. Mas, a história da confraria religiosa da Boa Morte é mais antiga e segundo estima-se foi criada na capital em finais do século 18 ou início do 19, mas ao se sentir pressionada pelo general Madeira de Mello, que então comandava a cidade, transferiu-se para Cachoeira, que por cerca de três séculos foi a segunda mais importante cidade da Bahia. A irmandade é constituída por mulheres negras, e a festa de três dias realizada pelas irmãs obteve expressão internacional, talvez pelo forte apelo, características e contrastes racial, étnico e de gênero, em uma sociedade escravagista e patriarcal. Segundo estudos, a irmandade da Boa Morte manteve estreito contato com a do Rosário da Barroquinha. Pesquisas afirmam que os atos litúrgicos originais da Irmandade de cor da Boa Morte eram realizados na Igreja da Ordem Terceira do Carmo de Cachoeira, templo tradicionalmente freqüentado pelas elites locais. Posteriormente as irmãs transferiram-se para a Igreja de Santa Bárbara, da Santa Casa da Misericórdia, onde existem imagens de Nossa Senhora da Glória e da Boa Morte. Desta, mudaram-se para a Igreja do Amparo demolida em 1946. Daí saíram para a Igreja Matriz, sede da freguesia, indo depois para a Igreja da Ajuda. Não se garante o início exato da Irmandade, mas estudos apontam para o ano de 1820, na Igreja da Barroquinha, tendo sido os escravos e ex-escravos da nação Jeje que se mudaram para Cachoeira, os responsáveis pela sua organização.

Outros ressaltam a mesma época, divergindo quanto à nação das pioneiras, que seriam alforriadas Ketu. De qualquer modo essas confrarias cultuavam santos católicos e orixás patronos dos seus afiliados. Ao tempo que aparentemente atendiam exigências eclesiásticas e legais, constituíam-se em verdadeiras associações de classe, reservadas, e por trás de suas aparências de fachadas davam curso aos interesses secretos dos seus membros. No caso da Boa Morte, integrada por mulheres bastante simples e quase todas idosas – entre 50 e 70 anos – os recursos arrecadados em vida buscaram sempre, a concessão de um funeral decente, cujo preparo, face à dupla militância religiosa de suas adeptas, exige rigor e entendimento, além de um certo pecúlio fúnebre. Durante o mês de agosto, uma longa programação pública atrai a Cachoeira gente de todos os lugares, com ceias, cortejos, missas, procissões, e até samba-de-roda. A festa tem calendário que inclui a confissão dos membros na Igreja Matriz, cortejo representando o falecimento de Nossa Senhora, uma sentinela, seguida de ceia branca, composta de pão, vinhos e frutos do mar obedecendo a costumes religiosos que interditam o acesso a dendê e carne na sexta-feira dia dedicado a Oxalá, criador do Universo, e procissão do enterro de Nossa Senhora da Boa Morte, onde as irmãs usam trajes de gala. A celebração da assunção de Nossa Senhora da Glória, seguida de procissão, em missa realizada na Matriz com música e dança que se prologam por diversos dias, a depender dos donativos arrecadados e das condições de pecúlio do ano.

MARAGOJIPE: Localizada a 133 km da capital baiana, na região do Recôncavo, a cidade de Maragogipe ou Maragojipe, era ocupada por índios da tribo Marag-gyp, que se dedicavam ao cultivo do solo, à pesca e à caça. Posteriormente, exploradores resolveram fixar residência no local, dedicando-se à extração de madeiras, plantação de mandioca e de cana-de-açúcar, construção de engenhos e casas de farinha. As terras do atual município estavam inclusas no território da Capitania do Paraguaçu (ou Peroaçu), doada a D. Álvaro da Costa, filho do governador-geral D. Duarte da Costa, por Carta de Doação de 20.11.1565. A cidade foi fundada em 1725.  Maragojipe está situada na Baía de Todos os Santos à direita do estuário do Rio Paraguaçu. O município é rico em recursos naturais, apresentando potencial para o desenvolvimento de atividades ligadas ao turismo ecológico, rural e principalmente náutico, incluindo a pesca desportiva. Último paradeiro náutico do Recôncavo Baiano, a cidade ainda abriga, no porto do Cajá, dezenas de canoas e saveiros. As antigas embarcações à vela eram muito utilizadas, até recentemente, para o transporte das mais diversas mercadorias no interior da Baía de Todos os Santos. Como outras cidades da região do Recôncavo, Maragojipe é marcada pela tradição religiosa católica e pelo candomblé. Cidade pacata se transforma durante o carnaval em fevereiro e na festa do padroeiro, São Bartolomeu, no mês de agosto.

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