Brasileiros e alemães divergem em debate sobre energia alternativa

Debate realizado em Berlim pela Fundação Konrad Adenauer expõe as divergências entre brasileiros e alemães quando o tema é energia alternativa e ambientalismo.

Poucas oportunidades proporcionam uma ideia tão clara das divergências entre dois países na questão ambiental quanto o debate realizado nesta sexta-feira (12/11/2010) na Fundação Konrad Adenauer, em Berlim, enfocando as possibilidades de cooperação entre Brasil e Alemanha na área de proteção ambiental e de energias renováveis.

A mesa-redonda “Brasil e Alemanha, interesses comuns na proteção do clima e na segurança energética?” reuniu políticos e analistas alemães e brasileiros em Berlim, em um evento na sede da instituição ligada ao partido democrata-cristão alemão.

Enquanto os representantes brasileiros se preocuparam principalmente em ressaltar as vantagens do etanol e desmentir acusações de ambientalistas europeus sobre supostas ameaças da monocultura da cana-de-açúcar à floresta amazônica e à produção de alimentos, os alemães ressaltavam as potencialidades do Brasil como um mercado em expansão. Os europeus lembraram que a infraestrutura brasileira, carente de melhorias, representa um foco de grande interesse para os investimentos da economia alemã, a poucos anos da próxima Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos do Rio.

“Os grandes eventos que vão acontecer no Brasil, em um espaço curto de tempo, favorecem bastante um trabalho de cooperação conosco”, afirmou o deputado federal alemão Christian Ruck, da União Democrata Cristã (CDU). “Eles são um grande desafio para o país sul-americano, por causa dos problemas de uso da terra e da infraestrutura nas grandes cidades”, comentou. “Por outro lado, podem marcar um avanço do Brasil como potência na área da economia verde, com base mesmo no sucesso que o país já teve na redução do desmatamento da Floresta Amazônica”, acrescentou.

Brasileiros e europeus

Durante a discussão com o público, os participantes brasileiros tiveram que rebater perguntas sobre o suposto perigo da produção de etanol e biodiesel para o clima e para o fornecimento de alimentos.

“O Brasil é um país muito grande, que faz com que o cultivo da cana-de-açúcar em grande escala não represente uma ameaça à floresta e à produção de alimentos”, garantiu o deputado estadual pernambucano Augusto Coutinho, do DEM. Logo em seguida, ele lamentou o que chamou de “barreiras” impostas pelos europeus. “Precisamos tentar diminuir as barreiras ao etanol”, afirmou.

O governo alemão já expressou diversas vezes suas reservas quanto à produção de biocombustíveis no Brasil, pedindo um aumento dos controles ambientais, alegando risco perigo à manutenção da Amazônia.

Ao ser questionado por um dos participantes brasileiros da plateia, que levantou suspeitas de interesses econômicos por trás do discurso ecológico alemão, o deputado alemão Christian Ruck, vice-líder da bancada da CDU no Parlamento alemão, admitiu que “interesses menos nobres” também podem fazer parte da posição alemã em relação ao bioetanol brasileiro. “Mas, por outro lado, devo ressaltar que o componente político-ambiental contribui bastante”, ressalvou.

O diretor da seção brasileira da Fundação Konrad Adenauer, Peter Fischer-Bollin, resumiu como espectador a diferença no modo como brasileiros e alemães interpretam o problema ambiental. “Enquanto temos batalhas campais na Alemanha, por causa do depósito provisório de Gorleben, no Brasil o risco da energia nuclear é algo totalmente desconhecido”, afirmou. “A ponto de, durante uma conferência realizada no Brasil, ter havido um choque de culturas quando os alemães se irritaram ao ouvir os brasileiros citarem a usina nuclear como fonte de energia limpa.”

*Com informação de  Márcio Damasceno

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