A morte do animalzinho de estimação

Alguns destes animais que desencarnaram aqui na Terra para seguir o seu caminho evolutivo, deixaram doces saudades, por terem sidos bons companheiros.

Sou criador de animais de estimação. Cães e gatos. Os cães são em número de dois, três … raras vezes quatro. A convivência com estes animais nos faz colecionar deliciosas histórias — hilariantes, bizarras, surreais…

Alguns destes animais que desencarnaram aqui na Terra para seguir o seu caminho evolutivo, deixaram doces saudades, por terem sidos bons companheiros.
Já outros, que por algum motivo fugiram do lar ou foram entregues a novos donos… me deixaram uma sensação de alivio.
Como, por exemplo, o cão Chocolate, mestiço de labrador e vira-lata, presente de grego da Querida Amiga Ximenita Moreno.

O insuportável e trapalhão Chocolate conosco conviveu por quatro anos, sempre aprontando… o que o Marley fez para o seu dono — que ficou milionário com o livro e filme — foi pouco comparado ao que Chocolate fez aqui em casa… Creio que eu também merecia uma compensação…
Quando o Chocolate foi levado para morar com o seu novo dono numa chácara da Grande Salvador, a sensação que eu tive foi de: primeiro calçar um sapato apertado… sofrer sofrer sofrer o dia inteiro. Chegar em casa à noite e tirá-lo… ai que alívio!
Ou o intolerável poodle médio Bob que, ao ser levado para tosar na clínica veterinária, fugiu pelas barras do gradil da cela e ganhou o mundo, a rua, para nunca mais voltar.
Esposa e filha muito sofreram com o desaparecimento. Eu… não conseguia sofrer, por mais que tentasse. O que de fato me vinha era uma sensação de alivio… como calçar um sapato apertado e… etc etc etc.

Mas a história não acabou aí: a consorte procurou incansavelmente o dito Bob por semanas. Até que se deparou com um poodle igualzinho a ele. E chamou:
— Bob!
E não é que o tal cãozinho atendeu efusivamente…
Porém, surpresa, eis que surge uma senhora reivindicando a maternidade ops a posse do tal Bob. As duas discutem e a minha cônjuge vence. Traz o tal do Bob para casa.
Passam-se alguns dias e a observadora filha denuncia:
— Este não é o nosso Bob.
Após alguns testes, semelhantes ao processo sucessório de um dalai lama, atestamos: não é o nosso (lá delas) Bob.
A patroa, constrangida, leva o Bob de volta ao seu lar, ensaiando reiterados pedidos de desculpas, quando é surpreendida pela nova atitude da proprietária do já insuportável Bob:

— Não! Pode ficar com ele para a senhora.
Ah… Aí quem não aceitou o Bob de volta foi este que vos escreve…
Agora as boas recordações: lembremos da doce Babilunga, uma poodlezinha importada de São Paulo, chácara do saudoso sogro, filha do iniciador de uma grande linhagem de poodles: o muito estimado Toy, presente nas nossas vidas desde quando da chegada da Querida filha.
Ou do muito amado Fidel, um boxer albino que conviveu por uma década entre nós, cujo rito de desencarne foi dirigido por mim e a companheira, seguindo os passos ensinados n’O livro tibetano do viver e morrer.

Agonizante, o cão Fidel resistia, até que, respirando junto com ele, no mesmo compasso, afirmei:
— Pode ir Fidel. Nós te amamos. Vá em Paz!
Com o olho espiritual desperto, a consorte viu a sua alma desprender-se do corpo físico, passear pela casa, pelo jardim — em despedida — e voar para os planos invisíveis.
Não olvidemos do gato Sansão, que adoeceu e faleceu rapidamente, com pedras nos rins. Ainda desperto, no caminho para a clínica, eu e Sansão trocamos um último olhar, que pressenti ser de despedida.

Ou do gato tigrado Tiger que, nas suas andanças por telhados da vizinhança, não mais retornou ao lar. Suspeitamos que virou churrasquinho de fim de semana da vizinhança carente — ainda não existia a muito bem-vinda bolsa-família governamental.
As mortíferas pedras no rim também foram a causa do óbito de Raj, o muito amado cão american staffordshare da nossa compadecida filhinha.
Conservo o meu humanismo para os humanos e — como homem espírita — não temo a morte. Todavia, a morte de um animal de estimação lá em casa é sentido profundamente pelos familiares.

A muito tempo que estabelecemos um ritual religioso de despedida e encaminhamento da alma do animal, que repetimos a cada momento de desencarne destes entes queridos.
É simples: fazemos orações e rogos, e durante o singelo cerimonial é lido um trecho da Autobiografia de um Iogue, livro do venerável mestre Paramahansa Yogananda: “a morte do animalzinho de estimação”.

“Com 100m2 de terra fértil à nossa disposição, estudantes, professores e eu nos deliciávamos com períodos diários de jardinagem e de trabalho ao ar livre. Tínhamos diversos animais de estimação, inclusive um veadinho, ternamente idolatrado pelas crianças. Eu também amava o pequeno cervo a ponto de permitir que ele dormisse em meu quarto. Ao raiar a madrugada, a criaturinha aproximava‑se, tropeçante, de mi­nha cama, para uma carícia matutina.
Um dia, quando certo negócio exigia minha atenção na cidade de Ranchi, alimentei o animalzínho mais cedo do que de costume. Disse aos meninos que não lhe dessem comida até o meu regresso. Um deles, desobediente, lhe deu uma grande quantidade de leite. Ao voltar, à tarde, tristes novas me esperavam:
— O filhote de corça está quase morto, devido à superalimentação.

Em lágrimas, coloquei o bichinho inanimado em meu colo. Orei piedosamente a Deus para que a vida lhe fosse poupada. Horas depois, a pequena criatura abriu os olhos, ficou de pé e caminhou, muito fraca. A escola inteira gritou de alegria.
Naquela noite, porém, aprendi uma lição profunda, que jamais po­derei olvidar. Eu permanecera velando o animalzinho até duas horas da madrugada, quando adormeci. O veadinho apareceu‑me em sonho e me disse:
— O senhor está me segurando. Por favor, deíxe‑me ir; deixe‑me ir!
— Muito bem — respondi em sonho.
Acordei imediatamente e gritei:

— Meninos, o veadinho está mor­rendo! — As crianças correram para junto de mim.
Precipitei‑me para o canto do quarto onde colocara o animalzinho querido. Ele fez em último esforço pata levantar‑se, cambaleou em mi­nha direção e em seguida tombou a meus pés, morto.
De acordo com o carma de um grupo que guia e regula os destinos dos animais, o prazo de vida do veadinho chegara ao fim, e ele estava pronto para progredir a uma forma mais elevada. Entretanto, com meu profundo apego, que mais tarde reconheci ser egoísta, e com minhas preces fervorosas, eu conseguira reter aquela vida nas limitações da forma animal enquanto sua alma lutava por se desembaraçar. A alma do veadinho fez sua súplica em sonho porque, sem minha amorosa permissão, ele não podia ou não queria partir. Assim que concordei, ele se foi.

Toda tristeza me abandonou; compreendi mais uma vez que Deus quer que Seus filhos amem a cada coisa como uma parte Dele, e não sintam ilusoriamente que a morte é o fim de tudo. O homem ignorante vê apenas o muro intransponível da morte, ocultando para sempre os amigos queridos. Mas o homem sem apego, o que ama os outros como expressões do Senhor, compreende que na morte os seres amados ape­nas regressaram para um hausto de alegria em Deus.”

Recentemente, quando da morte do cão Raj, o seu amigo e companheiro Xampu, câozinho mestiço de yorkshire, chorou desconsoladamente por quatro seguidas noites. Algo o atemorizava.
Com as preces e as rogativas pelo encaminhamento da alma do cão Raj, intuímos que fomos atendidos pelo Divino e o Raj foi acolhido lá no plano espiritual destinado aos bons cachorros.
Nesta mesma noite o cãozinho Xampu dormiu tranquilo e aliviado — e nas noites seguintes também.

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Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]