O primeiro debate do segundo turno | Por Alexandru Solomon

A candidata Dilma Rousseff (de acordo com Chávez) abandonou o figurino “paz e amor”. Se foi ou não uma boa idéia, o futuro dirá. De qualquer maneira, o pugilato teve baixa audiência – segundo a Band, variou de 4 a 6 pontos. É forçoso admitir que sem uma boa dose de masoquismo, permanecer acordado até o final é praticamente impossível. Provavelmente, os eleitores de Tiririca e de seus equivalentes em outros estados não presenciaram a troca de farpas e tijoladas. Abandonando o perfil adocicado e partindo para a versão ‘pitburlesca’, Dilma fez a aposta que ‘El comandante’ impôs.

O debate foi marcado pela “maldição da tréplica”. Com efeito, esse modelo de debate interrompe o diálogo, como se com uma tréplica se encerrasse o assunto de maneira definitiva. É um engessamento até agora mal resolvido.

Para ilustrar esse fenômeno de uma maneira simplificada, até grotesca, imaginemos a seguinte sequência;

A: Por qual motivo você não gosta do povo?
B: Gosto, sim. Afirmar o contrário só pode ser baixaria.
A: Não é verdade, nos últimos anos você demonstrou não gostar.
B: É tudo mentira orquestrada por sua campanha! Blá, blá, até esgotar o tempo.
Fim. Os candidatos passam, obrigatoriamente, para o próximo round tenham ou não sido prestados os esclarecimentos que a platéia insone merece. Ou não merece? Sem contar que perguntas abrangendo mais de um questionamento correm o risco de serem parcialmente respondidas – com omissão voluntária ou não de um ou mais tópicos incômodos. Desse mal ambos os candidatos padeceram.

Dilma bateu insistentemente na tecla que igual a Lula foi e continua sendo vítima de calúnias, segundo ela vindas da campanha de Serra – o homem das ‘mil faces’ (superior à Hidra de Lerna com apenas nove cabeças). Serra estaria disseminando o ódio num país em que ‘árabes e israelenses sentam à mesma mesa (sic)’. Mais comedido, mas não menos contundente, Serra contentou-se em atribuir apenas duas faces à adversária.

De qualquer maneira, um ataque sem base real não é uma estratégia vencedora, a partir do momento em que se revela a inexatidão dos ataques. Por exemplo, Dilma mencionou dois bons planos educacionais de Alckmin descontinuados por Serra. Terminado o debate, quando entrevistado, Geraldo Alckmin desmentiu a interrupção dos tais planos. Como ficamos? A candidata precisa ”informar-se melhor” – ela adora essa expressão – ? Geraldo mentiu? Como saber? Merecemos saber, já que deixamos de dormir ou assistir um filme no TV Cult?

Uma outra acusação, desta vez na anunciada linha dos ataques antiprivatistas, foi a insinuação de que Serra – atendendo a uma suposta afirmação do ex da ANP, contidas num estudo/artigo, estaria propenso a privatizar o pré-sal, fonte de riquezas capaz de acabar com as injustiças no Brasil. O que seria, em primeiro lugar, “privatizar o pré-sal”?

Pausa para meditação. Apesar de Serra ter negado, invocando uma trajetória iniciada na presidência da UNE, sempre a favor da Petrobrás, vale a pena refletir um pouco.

Dilma apresentou como trunfo a recente capitalização da Petro, em contraposição à venda durante o governo FHC de ações. (milhares de quotistas do FGTS não devem ter achado ruim). Misturando um pouco os números, afirmou ter aumentado a participação do governo – logo do povo – de 31 para 48%. Ocorre que o 48% representa a participação do governo, somada ao Fundo soberano e ao BNDES. Como ocorreu e qual a vantagem desse aumento?

Em termos de controle – que permite subordinar a Petrobrás a políticas do governo, por exemplo; definir percentagem de nacionalização de insumos em novos projetos – não há diferença entre possuir 50%+1 ações ou 99,999% das ações com direito a voto, e isso a candidata Dilma sabe perfeitamente. O tempo à disposição dos candidatos impossibilitaria qualquer discussão mais aprofundada. Mas qual a vantagem da operação, tal como foi realizada, com aumento da participação “do povo”?

A diferença reside no montante de dividendos que a União+BNDES+FSB receberão. Num primeiro momento, como houve um aumento de ações e o lucro não deverá variar sensivelmente a curto prazo, garante apenas “grosso modo” a manutenção do montante dos dividendos “do povo”.

Se quisessem discutir um pouco a cessão onerosa na capitalização, concluiriam que a União vendeu bilhões de barris para a Petrobrás, e com esse aumento da participação, a União+BNDES+FSB compraram mais barris… da União, do que se o tal acréscimo não houvesse ocorrido. A União comprou, através da Petro, algo como a metade de seus próprios barris. Em resumo, menos dinheiro novo para os investimentos da Petrobrás, já que a moeda “barril remoto” é de difícil conversibilidade. Mais papel da dívida interna… e com um pouco de honestidade intelectual, a aceitação de um fato simples: O decantado aporte de 120 bilhões de reais não se deu exclusivamente em dinheiro disponível para financiar a expansão da estatal intocável. Não era o momento de analisar a evolução das cotações da Petro, já que oscilações, mesmo as negativas, acontecerão sempre, e não é o discurso inflamado de NOSSOPRESIDENTE que influirá nisso.

O termo ”privatização” virou sinônimo de crime de lesa-pátria. Há uma boa dose de exagero nisso. A privatização, ou desestatização como prefere o professor Kanitz, não significa “entregar de graça” uma empresa a capitalistas vorazes daqui e de fora. É uma operação de venda não necessariamente ruinosa. As vantagens óbvias são a redução do passivo da União e a diminuição de cargos objeto de barganhas políticas. Se a Petro deve ou não ser desestatizada é uma outra história.

Venda de ações de uma estatal não pode ser considerada uma heresia, tanto é que recentemente o governo Lula vendeu ações do BB, outro ícone sagrado da visão estatizante. Parte dessas ações (ou ADRs, para ser mais preciso) foram parar em Wall Street – antro ainda insuficientemente satanizado.

Por falar em Banco do Brasil, poderia alguém falar algo a respeito do Banco da Itália, da França, da Inglaterra, dos EUA? Não vale falar nos respectivos bancos centrais.

Serra perdeu uma excelente oportunidade de responder à pergunta: “Como acreditar em quem registra em cartório a promessa de não sair candidato a governador, enquanto na Prefeitura”. A resposta mais óbvia teria sido:” Essa pergunta poderia ser dirigida aos eleitores que deram a vitoria de Serra na eleição para governador, à qual concorreu atendendo o desejo da coligação”.
Quanto aos projetos futuros, reformas, sustentabilidade e trem-bala(brás), paciência. Essas informações ficaram para uma outra nova e imperdível oportunidade.

*Por Alexandru Solomon

Compartilhe e Comente

Faça uma doação ao JGB

Redes sociais do JGB

Publicidade

Publicidade

+ Publicações >>>>>>>>>

Manchete

Colunistas e Artigos

Sobre o autor

Redação
O Jornal Grande Bahia (JGB) é um portal de notícias com sede em Feira de Santana e abrange as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: [email protected]