Compositor André Mehmari traça ponte entre Schubert e favela paulista com Cidade do Sol

Todos os anos a Deutsche Welle encomenda uma peça a um jovem compositor estrangeiro. Em 2010 o escolhido foi o brasileiro André Mehmari, com formação autodidata e brilhante carreira também como pianista de jazz.

Forças inexplicáveis aparentemente guiaram André Mehmari na composição de sua abertura orquestral Cidade do Sol. Ao receber da emissora Deutsche Welle a encomenda de uma peça para a Sinfônica Heliópolis, o músico nascido em Niterói, de família paulista, propôs-se compor um retrato sonoro da orquestra, considerando suas peculiaridades e as aptidões de seus jovens músicos.

Duas “Cidades do Sol”

No decorrer das pesquisas para a obra, o compositor esbarrou com duas canções do romântico austríaco Franz Schubert, com o título Aus “Heliopolis” (em grego = Cidade do Sol). Mehmari conta que ficou “chocado” com as coincidências entre a história da favela Heliópolis, em São Paulo, e a “Cidade do Sol” dos poemas de Johann Mayhofer, amigo de Schubert.

“‘No frio e áspero norte se ouviu notícia de uma certa Cidade do Sol, onde havia alegria…’ E isso é um pouco o que existe nessa orquestra, esse entusiasmo. O poema é quase que uma profecia, fala inclusive do fogo que aconteceu e trouxe a esperança, talvez, para essas crianças. Houve um grande incêndio que destruiu metade da favela, em 1996, e a partir desse fogo o maestro [Silvio] Baccarelli resolveu ajudar a essas crianças através da música. Então é quase que uma gênese que está ali, escrita dessa vinda para cá.”

Musicalmente, as canções de Schubert lhe forneceram o material temático para a obra. E a oboísta Edileuza Santos Ribeiro, naturalmente dotada de uma bela voz lírica, aceitou o desafio de cantar pela primeira vez em alemão, logo em Bonn, a cidade natal de Beethoven. Mehmari diz considerá-la sua heroína – “miscigenada, corajosa”, “o Brasil, em todos os aspectos” e o símbolo daquilo que ele buscou com sua peça.

Ecletismo premiado

A formação musical de André Mehmari foi basicamente autodidata e é bem eclética. Além de sua paixão pela música erudita, em especial por Gustav Mahler e Igor Stravinsky, ele cultiva o talento de pianista de música popular e jazz, nas mais diversas formações instrumentais. Este, aliás, foi um dos muitos pontos a seu favor, no momento da seleção, como revela Gero Schliess, diretor de Parcerias da Deutsche Welle.

“A encomenda para o Orchestercampus tem um perfil bem específico. Ele é voltado para alguém que ainda seja jovem, que saiba escrever para orquestra. Mas que também, paralelamente a sua linguagem musical contemporânea, não esqueça as próprias raízes.”

Assim, o fato de Leandro Cândido, primeiro flautista da Sinfônica Heliópolis, ser um exímio tocador de chorinho foi um pretexto perfeito para Mehmari incluir em sua peça um momento de dança saltitante acompanhada por pandeira, e seguida por uma citação de Pixinguinha transformada em valsa, entre Viena e o Rio de Janeiro.

Retrato fiel

Roberto Tibiriçá, maestro titular da Sinfônica Heliópolis, é um grandes admiradores do compositor de 33 anos, que já considera um dos “grandes”. Ele reconhece perfeitamente sua orquestra no retrato composto por André Mehmari e estreado no festival Beethovenfest. E também acredita numa inspiração superior.

“Ele nos impressionou e nos emocionou! Ele conseguiu encontrar essas duas canções Aus “Heliopolis, dentro das 500, sei lá quantas, que Schubert escreveu. Parece que Deus arrumou direitinho até isso. Tornou-se uma peça maravilhosa! Tem tudo a ver com a gente. Ele colocou ali um frevinho, a orquestra canta, a orquestra assobia… Então eu acredito que foi uma peça muito bem inspirada e teve um resultado fantástico.”

Seguindo em sua primeira turnê pela Europa, a Sinfônica Heliópolis também levará a obra de Mehmari ao público de Berlim e Munique. Para alguns músicos da orquestra, ela é a peça preferida do programa, por apresentá-los de modo tão pessoal.

*Com informações do Deutsche Welle

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