Por um olhar de honestidade e misericórdia | Por Roque do Carmo Amorim Neto

Semana passada, meu amigo Michael colou na prova de Estatística. Dois meses atrás o senador norte-americano Roy Ashburn foi preso ao sair de um bar frequentado por homossexuais e tentar dirigir bêbado. Dois dias atrás, Michael Bennet, senador do estado da Flórida foi flagrado acessando conteúdo pornográfico durante uma sessão no senado. O que estas três pessoas têm em comum além do fato de serem norte-americanas? A resposta talvez intrigue alguns leitores: os três se intitulam “conservadores”.

Ontem a noite depois de uma animada conversa sobre alguns dos muitos casos envolvendo pessoas que se auto-definem “conservadores” cheguei a algumas conclusões. A primeira delas é que há algo de imoral no comportamento de alguém que impõe aos outros regras que ele mesmo sabe não ser capaz de viver.

Comecemos pelo primeiro exemplo. Meu amigo (Sim! Eu o considero meu amigo.) Michael movido por motivações religiosas é uma daquelas pessoas que pelo menos uma vez por mês passam algumas horas diante de clínicas de aborto com símbolos religiosos nas mãos amaldiçoando aqueles que ali trabalham e aquelas que procuram os serviços de tais clínicas. É claro que há diferenças entre abortar e colar em uma prova. Só que desde o meu ponto de vista, Michael está sendo incoerente com seus ideais de honestidade, especialmente quando ele usa argumentos religiosos para defendê-los. Se outros desobedecem as leis divinas, meu amigo ora para que sejam condenados, mas quando ele é desonesto, está tudo bem, afinal é apenas uma prova…

Outra conclusão a que cheguei é que muitos dos que se dizem conservadores, assim o são porque na verdade tentam esconder algo sobre si mesmos que não toleram ou que pelo menos não conseguem administrar adequadamente. E esta conclusão é baseada no caso do senador Roy Ashburn. O que para mim é óbvio neste caso é que por não conseguir lidar com sua homossexualidade, enquanto político ele se posicionou contra todas as propostas de reconhecimento dos direitos civis de casais e indivíduos homossexuais. Não quero aqui discutir o conteúdo de tais propostas, pois não tenho o devido conhecimento das mesmas. Apenas quero apontar para a ironia do fato de um senador que se posicionou contrariamente aos direitos dos homossexuais e fez disto uma bandeira de seu mandato, ser flagrado ao sair de um bar gay, e ainda tentar dirigir alcoolizado.

Conservadores de modo geral usam a moral, a religião, os bons princípios ou valores para defender seus posicionamentos, e ao fazê-los geralmente se posicionam contra as minorias, ou contra certas fragilidades do ser humano. Por exemplo, aqui nos Estados Unidos, são os conservadores que bloqueiam qualquer discussão razoável sobre as leis de imigração. O problema por trás deste comportamento é que eles perdem a oportunidade de olhar para si mesmos e perceberem suas próprias fragilidades, e finalmente poderem entender que assim como eles, outras pessoas têm limitações e que isto não faz delas seres inferiores.

Não quero assumir a mesma atitude que aqui estou criticando, mas ao longo de minha vida, tenho percebido que quanto mais moralista e inflexível é uma pessoa, mais limitada e mesmo hipócrita ela é. Particularmente falando, sou contra o aborto porque acredito que a vida humana tem seu início biológico no momento da concepção, quando óvulo e espermatozoide se encontram e também por acreditar que o aborto deixa marcas psicológicas negativas e profundas naquelas que o cometem. Todavia, isto não me dá o direito de julgar estas pessoas, de condená-las ou pedir a Deus que as castigue.

Algumas pessoas têm feridas no rosto e estão expostas. Outras têm feridas nas costas e podem escondê-las, embora isto não as ajude a curá-las. O fato é que todos nós carregamos nossas próprias feridas e não precisamos que outros passem a vida a nos condenar por ser aquilo que somos. Honestidade para consigo mesmo e misericórdia para com os demais talvez ainda sejam a melhor opção para aqueles que se julgam superiores.

 

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