Parte da memória dos países latino-americanos foi relegada a pé de página

Processo de construção das identidades nacionais na América Latina se deu através do extermínio violento das memórias de “grupos subalternos”, aponta Reinaldo Martiniano Marques, professor da UFMG.

DW: Quanto à memória dos países latino-americanos: pensamos como os europeus ou nos negamos com frequência a registrar nossa história? Herdamos o ato de delegar importância aos arquivos ou, ao contrário, nos negamos a fazer isso?

Reinaldo Marques: É importante perceber como a memória é importante para a construção das identidades nacionais. O processo de construção das nações modernas na América Latina, por exemplo, implicou um remanejamento muito contundente e violento das memórias da nação. Algumas memórias foram privilegiadas, normalmente aquelas dos grupos hegemônicos, das classes dominantes.

Elas foram privilegiadas como “as memórias da nação”, em detrimento da memória de outros grupos como negros, índios etc., que foram subalternizados ou colocadas no pé de página. Ou não entraram nos arquivos. Ou seja, os registros dessas memórias de tradições orais não vão aparecer no arquivo da nação porque a memória oficial privilegiou primeiro uma cultura letrada, em detrimento das culturas ágrafas, orais etc.

Há uma violência muito grande na construção das identidades nacionais. A fundação dessas nações modernas se deu com base numa violência não só física, mas sobretudo numa violência simbólica muito grande porque ela implica privilegiar algumas memórias em detrimento de outras.

A literatura, por exemplo, era vista como “a” cultura letrada. Uma parte da cultura, que passou a representar o todo. Por aí você pode pensar, por exemplo, na importância dos romances de fundação nacional na América Latina, que cumprem um papel importante no sentido de encenar os conflitos, as contradições da nação e propor soluções imaginárias. Muitos deles contam uma história de amor, por exemplo, mas muitos deles têm a ver com a história da nação.

Esses romances entram no arquivo literário do país em detrimento de narrativas orais e de culturas ágrafas dos índios e dos negros, que não são contempladas no arquivo letrado e que vão merecer o pé de páginas, quando muito, da história literária da nação.

O esquecimento existe para omitir a violência que há na construção de uma identidade nacional. Para omitir essa situação de sutura de formação de uma sociedade heterogênea, diferente, com interesses conflitantes, que é transformada numa coisa homogênea.

Quando a seleção brasileira entra em campo, de mãos dadas, para se dar essas mãos entre brancos e negros, ricos e pobres, a gente tem que esquecer um processo histórico que foi extremamente segregacionista, violento e que destruiu muitas culturas e povos.

Hoje “esses saberes subalternos” ou “memórias selvagens”, como você define, estão sendo mais contemplados ?

Com a eclosão do discurso das minorias, que começaram a se fazer presentes na cena pública, os desejos e as aspirações das minorias começaram a rasurar esse tempo homogêneo e vazio da nação pedagógica, que a literatura, de alguma maneira, articulou no século 19.

Hoje, podemos perceber no Brasil como a organização das minorias – negros, índios, homossexuais etc. – através de diferentes grupos de representação, que buscaram ocupar espaços na cena pública através da política ou das ONGs etc. faz com que o pacto da nação seja diferente. A nação está tendo que lidar com as aspirações e desejos desses grupos subalternos, que tradicionalmente foram marginalizados e não foram ouvidos, cujas memórias não foram contempladas na memória da nação.

Muitos intelectuais latino-americanos pensam na necessidade de refundar o Estado-nação na América Latina, contemplando nessa refundação as memórias dessas minorias subalternas, que foram esquecidas quando se deu esse processo de formação dos Estados-nação com os processos de independência. Teríamos que refundar as nações latino-americanas, contemplando essas memórias que foram obliteradas, esquecidas, violentadas.

Numa suposta refundação simbólica desses Estados-nação, haveria maiores semelhanças entre todos os países latino-americanos, inclusive o Brasil? Ou o Brasil difere basicamente em sua história dos países de língua espanhola?

Hoje, com a globalização e a organização das nações em grupos e blocos, para poder fazer face às demandas do mundo globalizado, no enfrentamento dos tratados comerciais e do jogo político etc., você tem forças que vão procurar forças e articulações valorizando elementos de semelhanças e de culturas e visões comuns entre os países. As culturas de fronteiras, por exemplo, são valorizadas nesse tipo de perspectiva e de discurso.

Por outro lado, esse mesmo movimento que tende para o vetor da homogeneização, a gente percebe dentro dele movimentos no sentido de afirmar as diferenças e heterogeneidades da região, que considero também importante.

No caso do Mercosul, vemos por exemplo movimentos que tentam unir as universidades da região, como o Grupo de Montevidéu, em projetos comuns. Isso sem falar no plano econômico. Por outro lado, não podemos perder de vista que, culturalmente, a riqueza está na diferença. É a diferença que possibilita o enriquecimento de uma nação com a outra.

Em relação à independência, o Brasil se perpetuou como monarquia. Isso difere o país dos vizinhos latino-americanos?

No contexto do início do século 19, você tem as nações hispano-americanas, que vão se tornar repúblicas e que vão se fragmentando em nações, enquanto o Brasil, com dimensões continentais, se mantém como monarquia, preservando em muitos elementos uma visão colonial de mundo. Não há uma ruptura como se percebe no processo da América Hispânica.

No Brasil, a independência não significou efetivamente uma ruptura com a metrópole. Você tinha uma aparato de Estado funcionando no Brasil, mas não tinha uma consciência de nação. Isso difere de outros contextos como o dos palestinos hoje, por exemplo, que se sentem uma nação, mas não têm um Estado que represente essa nação e lutam por isso.

O Brasil, com a transferência da Corte, funcionava com todos os aparatos: câmaras, Legislativo, mas por ser um país tão diversificado faltava a consciência de nação, a identidade nacional. E a construção dessa identidade nacional no Brasil vai ser uma ação promovida pelo Estado.

A ideia de povo não é bem vista, é um povo miscigenado, não visto com bons olhos pela elites intelectuais. Somente na era Vargas [Getúlio Vargas 1930-1945] é que entra a ideia do popular como um elemento forte. O popular passa a ser valorizado. Aí você tem interpretações clássicas do Brasil como a de Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala, valorizando entre outros o negro na construção dessa identidade nacional.

Mas é uma visão paternalista, que diz que o povo deve ser mais ou menos dirigido, guiado, porque ele não é capaz de andar com as próprias pernas. Essa visão paternalista-autoritária perdurou durante o regime Vargas e se perpetuou até o regime militar. Talvez hoje a gente esteja pela primeira vez em busca de uma identidade que valorize o popular sem cair nesse viés paternalista.

Reinaldo Martiniano Marques é coordenador do grupo de pesquisa “A gestação da memória, da literatura, da crítica no exílio e outras interlocuções latino-americanas” e membro do grupo de estudos sobre “Teorias críticas de Literatura Comparada na América Latina”.

*Com informações de Soraia Vilela

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