Luta de Emiliano José em defesa da Bahia é reconhecida pela ALBA

Luta de Emiliano José em defesa da Bahia é reconhecida pela ALBA.

Luta de Emiliano José em defesa da Bahia é reconhecida pela ALBA.

O jornalista, professor, escritor e ex-deputado federal Emiliano José recebeu o título de cidadão baiano em concorrida sessão especial realizada na tarde de ontem (06/05/2010) no plenário da Assembleia Legislativa da Bahia. Falar na presença de multidão não chega a ser um exagero: além das muitas pessoas, entre autoridades, familiares, amigos e anônimos, que não encontraram cadeira e permaneceram de pé, as galerias e quatro das cinco salas de comissões permaneceram lotadas. Esse fato foi ressaltado pelo líder de PT na Assembleia Legislativa, Paulo Rangel (PT), durante o discurso de elogio, procurando demonstrar quão justa foi a homenagem, proposta pela bancada petista e chancelada pela unanimidade dos parlamentares.

Entre os presentes, o ex-governador Waldir Pires, grande parte do secretariado, como o chefe de Gabinete, Fernando Schmidt, que representou o governador; representantes do Tribunal de Justiça, a exemplo da presidente em exercício, desembargadora Maria José Sales; o procurador Geral da Justiça adjunto, José Brito; a Defensora Pública Geral, Teresa Almeida; muitos jornalistas, militantes de esquerda da época da ditadura e grande representação do PT, incluindo prefeitos, deputados federais, estaduais, vereadores e dirigentes partidários.

Uma forte percussão envolveu o plenário, adornado por painéis com motivos afros, quando o presidente Marcelo Nilo designou a comissão de recepção formada pelos deputados Paulo Rangel, Valmir Assunção, Capitão Tadeu, Neusa Cadore e Álvaro Gomes. A comitiva foi recebida no recinto de pé e por um aplauso entusiasmado que se confundiu com o ribombar dos tambores. Do discurso de Paulo Rangel veio a explicação para a decoração e a música: filho de Oxóssi. Emiliano foi um grande defensor da cultura e religião negras, durante a Assembleia Constituinte de 1989 e, em outro mandato, ocupou a presidência da Comissão Especial para Assuntos da Comunidade Afrodescendente. Afinal, uma cultura que o paulista de Jacareí aprendeu a respeitar e amar.

LUTA

O pronunciamento de Rangel foi precedido por uma exibição de vídeo, mostrando passagens da vida de Emiliano. Ali se pode ver ele ainda jovem, com os vários contatos e diversos aspectos ao longo da vida, incluindo uma foto em preto e branco em que ele ostentava um volumoso bigode, à imagem e semelhança de Zapata, homônimo mexicano que personificou a revolução naquele país. O líder petista foi bastante objetivo, fazendo questão de deixar claro que aquela homenagem era da Assembleia, por iniciativa da bancada do PT.

Rapidamente, citou o nascimento, em 1946, e o espírito de luta. “Apesar das dificuldades, nunca deixou se abater pela dura realidade da família”, disse, considerando que ele “nunca desistiu de lutar e assim prossegue até os dias de hoje”, servindo de exemplo como ser humano. “Os obstáculos nunca o enfraqueceram e as descobertas sempre o impulsionaram. Foi esta disposição que o levou para a política ainda estudante, chegando à diretoria da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes).

Com o advento da ditadura de 1964, passou para a clandestinidade e entrou na Ação Popular. Como militante da AP, “ele se fazia presente onde e quando fosse preciso, acreditando que, mesmo sob a forte repressão do AI-5, ainda era possível continuar na luta revolucionária”, contou. Foi assim que Emiliano chegou à Bahia, no início da década de 70.

AGRADECIMENTO

Em seu discurso de agradecimento, Emiliano lembrou desse momento, citando nome por nome, todos os que o acolheram, até ele ser preso, no final daquele mesmo ano, ficando na Penitenciária Lemos Brito por quatro anos. “Conheci o inferno”, definiu, citando muitos dos colegas de infortúnio, como Luiz Contreiras, presente ao evento, e Magno Burgos, morto no ano passado.

Como serviços prestados à Bahia, Rangel citou não só o trabalho de resistência política, como o exercício do jornalismo, profissão que abraçou ao ingressar na Tribuna da Bahia. Citou os diversos veículos em que atuou e as várias reportagens, a exemplo de Chumbo Neles, matéria publicada em 1977, pelo jornal Invasão, que denunciava a contaminação pelo chumbo dos operários da Cobrac, em Santo Amaro.

Já na década de 80, Emiliano passou a transmitir seus conhecimentos, também como professor da Faculdade de Comunicação da Ufba. Nessa época, ele já havia se voltado para a política partidária, tendo sido eleito, além de deputado constituinte, vereador de Salvador, em 2000, e novamente deputado estadual, entre 2003 e 2006, tendo ficado na suplência de deputado federal, tendo assumido o mandato no ano passado. Desde 1997 no PT, para Rangel é “uma referência para o partido”.

ÉTICA

O protocolo da sessão especial de entrega de título foi quebrado para permitir o pronunciamento de Waldir Pires. Ele elogiou a Assembleia pela homenagem e disse que fez uma exortação à democracia e afirmou que a iniciativa “é sinal do tempo de civismo que estamos vivendo”. Sobre Emiliano, disse que, quando era governador, travou conhecimento com o jovem deputado e o identificou “como um homem de grande vocação pública e política”. Waldir pregou ainda a democracia e disse que “a ética da democracia é a solidariedade”.

Emiliano ocupou a tribuna para agradecer à Assembleia por “esse batismo”. Ele lembrou as duas ocasiões em que exerceu mandato na Casa e garantiu que, apesar das diferenças políticas, fez muitos amigos. “Este é um daqueles dias que marcam nossas vidas para sempre”, disse, citando a presença da mãe, Maria Aparecida, o irmão Edvard com a esposa, e o filho Teodomiro, “parceiro de toda a vida”.

“Celebro a presença tão carinhosa, tão emocionante, que torna esse batismo ainda muito mais especial”, disse. No discurso, ele também fez uma homenagem a todos aqueles que amaram a revolução. “Hoje é curioso observar que, em tempos tão sombrios como aqueles, sob uma ditadura tão violenta, fôssemos embalados por sonhos tão generosos e ousados”, afirmou. Ao final do pronunciamento, Emiliano surpreendeu a todos cantando versos da música Marinheiro Só.

A homenagem contou ainda com a participação especial do cantor, compositor e violeiro Xangai, que citou trecho da “Cantiga do estradar”, de autoria do músico baiano Elomar, e cantou a música “Canção primeira”, do paraibano Geraldo Vandré, para o delírio dos presentes.

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Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: [email protected]