As Guerras do Futuro: o fator-Brasil |Por Luis Salvi

O Brasil tem razões para ser um país “pacífico”, afinal os seus desafios internos são tão espetaculares, que dificilmente ele teria energias para se ocupar muito do externo. De fato, esta seria mesmo a sua grande vocação, não obstante, a sua própria segurança interna lhe exigir uma política internacional complexa e atuante.

Com um potencial de crescimento fantástico, em função da sua grandeza e rica natureza, o país pode cada vez mais se tornar alvo da cobiça internacional. Se sabe que, em alguns estabelecimentos norte-americanos, a Amazônia já vem sendo apresentada como um “zona internacional”. Nisto, existe hoje um ponto crítico em Roraima, no extremo Norte, onde cresce a movimentação de estrangeiros para além do controle. O remoto do local, a presença de nações indígenas internacionais e a proximidade da Guiana de fala inglesa, são fatores que facilitam esta permeabilidade.

Eis que o mundo deverá começar a entrar em convulsão ainda neste século, e aquilo que observamos agora já é o “começo das dores”. O cenário que se anuncia é dos mais dramáticos. Citemos o resumo da resenha de uma obra recente sobre o assunto, e que já servirá de indicação de leitura:

“Em ‘Guerras Climáticas – Porque Mataremos e Seremos Mortos no Século XXI’ (Geração Editorial), o cientista e psicólogo alemão Harald Welzer afirma que as guerras deste século serão provocadas pelas mudanças de clima e vão aterrorizar a humanidade como nunca aconteceu. Os espaços vitais encolherão e provocarão conflitos armados permanentes. Este cenário apocalíptico já mostra os seus primeiros e inegáveis sinais por meio de furacões, terremotos, enchentes e falta de água em muitas regiões do planeta.” (“Correio do Povo”, 2/5/2010)

O endurecimento da política de imigração nos países desenvolvidos, verificada nos últimos anos é, junto a uma crescente onda xenófoba, sinal evidente destas tendências, que se acirrarão terrivelmente daqui para frente.

Embora o Brasil não seja um país rico, ele possui muito potencial econômico e estabilidade ambiental, já a partir da sua diversidade e amplidão. O país está ensaiando entrar no seleto mundo desenvolvido, e comparativamente às restantes economias regionais, ele é muito superior, no tocante à América Latina.

Seus recursos naturais elementares, como água e florestas, serão vistos como fatores de segurança vital, até de âmbito mundial, num mundo em que as águas se tornam cada vez mais poluídas e as florestas escasseiam.

Ao mesmo tempo, a sua vizinhança passará a olhar com olhos cada vez mais atentos aquilo que existe e acontece aqui dentro. No futuro, muito dependerá da diversificação da matriz energética e também da matriz econômica. O petróleo e o carvão, cada menos poderão ser usados. Por sua diversidade e amplitude, o Brasil estará em posição confortável. O mesmo não ocorre com muitos vizinhos seus. Parte significativa dos ecossistemas e da economia sul-americanos, dependem das geleiras que em breve desaparecerão. Importantes economias regionais também se assentam sobre a pecuária, porém as pastagens poderão sofrer com secas ou, um pouco mais para frente, até o contrário, na sua eventual submersão sob a elevação do nível dos Oceanos.

Quadro semelhante acontecerá em todo o mundo. Secas endêmicas e alagações, terremotos e vulcões, tudo isto acarretará num cenário de caos planetário, onde grandes revisões culturais serão ensaiadas e os esforços se dirigirão para o mais elementar, que é a sobrevivência do corpo e também da alma, sem negligenciar obviamente o avanço tecnológico em termos ambientalmente sadios.

Desde um ponto de vista estratégico, os Estados Unidos parecem especialmente seguros, porque, à exceção do México, as suas fronteiras são estáveis. Quase outro tanto se pode dizer da Europa, embora aqui a pluralidade de países europeus e a diversidade cultural circundante, torna o quadro todo mais complexo.

De todo modo, não se descarta que os países ricos possam vir a ser invadidos pelos pobres. Poderá se juntar motivos para isto, entre eles o ressentimento, mas sobretudo a estabilidade econômica. Se criará um grande Tribunal Internacional, onde as nações ricas serão julgadas pelas pobres e emergentes, onde se relevará a sua colonização que desmantelou culturas e economias pelo mundo afora, e também pela poluição produzida acumulada -e a conta da Grande Crise lhes será apresentada. Citemos um texto nosso sobre o Estado-de-direito e valores neste mundo em mudança:

“O que pode ser um direito numa época e local do mundo? Tudo depende daquilo que é possível oferecer. Um mundo em crise ambiental não pode permitir mais devastação e poluição, especialmente aquelas que o afetam de imediato e em ampla escala. Um Tribunal Internacional deverá julgar também este tipo de crime, que poderá ser inclusive considerado como de lesa-humanidade. Estados negligentes com seu meio-ambiente deverão ser julgados neste Tribunal, onde multas e penalidades serão determinadas aos seus protagonistas.” (em “As Cidades da Luz”)

E então, as sociedades desenvolvidas sobretudo, serão sistematicamente cobradas, diante da necessidade vital das nações pobres. Boicotes e revoltas internas prejudicarão as economias internacionais, e o supérfluo será cada vez mais abandonado. Os países ricos também se desestabilizarão, e dificilmente poderão conter as pressões migratórias, que se somarão às forças insurgentes internas dos migrantes e pobres ali já existentes, cada vez mais reprimidos e discriminados. O quadro poderá ser mal comparado com a queda do Império Romano, quando a decadência interna permitiu as invasões bárbaras.

Estes são prováveis aspectos da gênese do Futuro.

O desafio brasileiro

Muito diferente dos EUA é a situação do Brasil, tendo mais da metade de seus limites definidos por fronteiras com países potencialmente problemáticos. Com isto, o meio-ambiente sofrerá um especial risco, assim como a soberania e a segurança nacional.

Obviamente, o país também sofrerá tremendamente com as mudanças climáticas, mas ainda assim preservará amplas possibilidades, despertando cobiças e atenções.

Como o Brasil poderá se preparar para esta situação? Três frentes deverão ser abertas para isto: uma frente Internacional, uma outra frente Regional, e uma terceira frente Local. Citemos, então, aquilo que poderia ser considerado como um “programa mínimo”, diante desta nova situação histórica:

1. Globalmente, o país deverá estar preparado para conter as pressões das grandes potências, seja da ganância ou dos interesses legítimos, ao passo que oferece ao mundo segurança, produtos sustentáveis e cultura sã.

a. Estratégia: Para isto, deverá apresentar uma imagem de segurança e estabilidade, não dar pretextos para invasões, através da preservação das florestas e das suas águas, águas que eventualmente poderão ser negociadas ao mundo sedento, se houver excedente interno.

b. Diplomacia: Neste caso, a diplomacia e a mídia nacional devem realizar no exterior, um trabalho de divulgação das progressivas conquistas do país, além de oferecer cultura e alternativas ambientalmente seguras.

c. Segurança: No mais, a nação deverá contar com recursos de defesa modernos, em número e diversidade suficientes.

2. Regionalmente, caberá avaliar sempre com muito critério a estabilidade das sociedades vizinhas e a permeabilidade que estes países representam, como pontos vulneráveis para o ingresso dos interesses internacionais. Dentre as medidas mais importantes, estarão:

a. Cooperação: Estreitar e fortalecer cada vez mais os laços com os países vizinhos, através de intercâmbios econômicos generosos de bens essenciais.

b. Cultura:Estender o intercâmbio para a área cultural, numa troca rica e sincera de valores e conhecimentos, assim como de usos e costumes.

c. Diplomacia:Ampliar diplomaticamente o seu próprio controle sobre a segurança regional, mediante tratados de cooperação militar.

3. Internamente, além das medidas já citadas que se refletem aqui, cabe o seguinte:

a. Estratégia: A sociedade nacional deverá ser amplamente mobilizada para ocupar os territórios vagos do país, especialmente nas regiões fronteiriças, dentro de modelos de ocupação ambientais e militares ao modo dos kibutzins israelenses, distribuídas ao longo das zonas fronteiriças de propriedade do Estado. Não se tratam, pois, de quartéis, mas de comunas regulares mais ou menos auto-suficientes, voltadas para a segurança do país.

b. Política: Nisto, caberá a adoção de uma política “verde” ostensiva, visando fomentar valores novos na sociedade nacional, mas que possivelmente nem sempre poderá se prender às regras democráticas habituais, sob pena de inoperância. Em tudo existe exceção, especialmente em favor da defesa daquelas realidades estratégicas. A mudança das leis deverá consolidar as transformações culturais, cujo alicerce será, todavia, a própria consciência das lideranças e seus atos criativos em favor da segurança nacional. Nada está acima da lei, senão aquilo que a própria lei excepcionalmente limita ou prejudica em termos emergenciais. Todo julgamento deverá equacionar estes dois pólos: vontade e legislação.

c. Cultura: Ao mesmo tempo, a cultura interna deve ser desenvolvida em termos mais espirituais, e novos valores devem ser suscitados, oferecendo alternativas ao homem de amanhã. O modelo cultural indígena deverá ser seriamente avaliado e valorizado, como “alternativa” histórica longamente corroborada. Com isto se vai preparando o futuro, e diminuindo a pressão sobre o mundo material, na medida em que o planeta vai aos poucos se curando dos males sofridos, no ocaso deste último grande ciclo de aprendizado humano.

Nenhuma destas três frentes, poderão ser negligenciadas. Descurar de qualquer uma delas, representará abrir brechas fatais e colocar em risco muito mais do que um grande país, mas uma nação que se destina a ser o Berço do Futuro.

*Luis Salvi, filósofo e escritor | http://agartha-edicoes.blogspot.com

www.yahoogrupos.com.br/group/projeto-exodus

*Com informações de Luis Salvi

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