Repertório existencial | Por R. C. Amorim Neto

De tempos em tempos me deparo com a pergunta “O que você mais gosta em si mesmo?”. Nos últimos meses tenho procurado elaborar esta resposta, a qual finalmente consegui expressar de forma mais adequada. O que mais gosto em mim mesmo é meu “repertório existencial”.

Por repertório existencial entendo a habilidade que um ser humano tem de sentir-se bem ao adaptar-se aos mais diversos contextos e comunicar-se adequadamente com pessoas nas mais diversas situações… Isto está ficando complicado, não é mesmo? Tudo bem, serei mais concreto. O que mais gosto em mim é a habilidade de mudar sem deixar de ser eu mesmo. Por exemplo, eu sou o homem que escreve semanalmente para esta coluna e também sou o que senta no chão e brinca com as crianças de minha família como se fosse uma delas. Sou o estudioso que anda apressado em direção a livrarias à procura de livros sérios e também sou aquele que algumas vezes sente certo prazer ao ler revistas de fofocas e comentar sobre elas. Sou aquele que preocupa-se com a roupa que vai usar para andar distraidamente pela Avenida Paulista enquanto espera pelo início da peça de teatro e também sou o cara que usa uma camiseta qualquer, com uma bermuda velha e fica descalço no sítio do meu tio Joca, no interior do Piauí. Também sou o brasileiro que vive no exterior e tem orgulho imenso de meu país, mas que ao mesmo tempo é capaz de fazer um vídeo sobre as limitações de minha cidade natal e postá-lo na internet.

É isto que chamo de “repertório existencial” e é difícil falar sobre o tema sem dar a impressão de que estou usando este espaço para me exibir. Todavia, tenho orgulho desta minha habilidade porque foi algo que conquistei, e algo que luto para expandir ainda mais. Quando penso em quem eu era e no que me transformei, sinceramente sinto uma grande satisfação. Na adolescência, por exemplo, eu tinha um guarda-roupa monotônico. Eu era o menino azul. Até que um dia, intencionalmente, comecei a experimentar roupas amarelas, vermelhas, verdes, pretas… Até os 21 anos acreditava que as pessoas que não tinham uma religião ou que tinham uma religião diferente da minha eram ruins ou pelo menos não tão boas quanto poderiam ser… Até que, na universidade, conheci alguns amigos que são pessoas amáveis, capazes e generosas, que cresceram sem praticar religião alguma. Hoje meu círculo de amizades inclui ateus, mórmons, judeus, católicos, hindus, espíritas, entre outras.

Assim como ninguém gosta de cantores de uma música só, acredito que pouca gente realmente gosta de pessoas com um repertório existencial extremamente limitado. E não se trata de expandir o próprio repertório apenas para ser querido pelas pessoas, mas se trata de ampliar-se para poder criar uma comunicação mais efetiva com pessoas que vivem em situações tão diferentes. Do que adianta todo o meu esforço intelectual para conquistar o título de “doutor”, se não sou capaz de me comunicar adequadamente com um adolescente de Brazlândia, no Distrito Federal, ou com um agricultor do interior do Rio Grande do Sul, ou ainda com uma mãe de seis filhos que nunca foi à escola e que vive da pesca no litoral do Sergipe?

Fico cada vez mais impressionado quando lembro a forma como eu limitava os horizontes de minha vida. Já cheguei a ignorar outras pessoas com base em sua orientação política, religiosa, afetiva etc., acreditando que assim estava sendo “autêntico”. O que eu não percebia é que ao me relacionar apenas com quem pensa, veste, vota e ama da mesma forma que eu fazia, estava perdendo a oportunidade de crescer. Hoje considero que a vida que eu levava naquele período era tão divertida quanto aquela piada que você ouve pela centésima vez. Felizmente tomei consciência e fiz opções que me conduziram a outros modos de viver.

Subir no palco da vida com repertório existencial amplo continua sendo um desafio para mim. Apesar de já sentir orgulho dos passos dados, contemplo o horizonte e percebo que ainda há muito para caminhar. E o que me alegra nesta caminhada é saber que o prazer encontrado nela depende da variedade de papéis que vou desempenhar na vida. Minha existência certamente seria de menor qualidade se eu não quisesse transitar entre os opostos complementares.

Amplie seu repertório existencial, no palco do mundo há uma plateia gigantesca esperando por você. Quanto maior for seu repertório, maior será o palco e mais animada será a plateia.

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