O despertar de uma Classe | Por Luís A. W. Salvi

Uma grande transição caracterizará esta época, pelo amadurecimento social dos místicos e dos esoteristas, até mesmo dos religiosos. Eles têm muitos receios e preconceitos, afinal vivem em mundos subjetivos, e aparentemente não sentem o apelo da participação no mundo, um mundo em rápida mudança onde eles torcem pelo novo, mas que, ao final, tampouco compreendem bem a que se destina. E é natural, porque, chamados internamente para algo superior, também fazem parte do processo, muito embora destinados a serem protagonistas quando for chegado o seu momento.

Dividem-se naturalmente quanto à forma correta de servir o povo, uns optam pela evangelização e outros pelo serviço social, além de muitos venderem os frutos dos seus conhecimentos. Existe uma resistência comum quanto à política, em boa parte justificada porque esta forma de servir a sociedade é burguesa e comprometida. Nisto fica, todavia, sempre faltando algo, que apenas a união e a organização poderiam proporcionar, como forma de desencadear por fim um novo contexto cultural e a emergência de novos valores. Algo que os tempos potencializam sob a crise ambiental, reflexo direto da alienação cultural.

Enquanto isto, eles seguem o apelo das massas e endossam ideologias exóticas, importadas. Tal coisa está, não obstante, longe da verdadeira Sabedoria, da busca ousada e intransigente da Verdade que caracteriza o Iniciado. Notavelmente, o grande pecado do esoterista jaz na sua visão social –isto é, quando ela sequer se apresenta. Se existe, segue os passos da burguesia pensante (republicana) ou do proletariado esclarecido (democrata), denotando isto certa puerilidade ante os verdadeiros valores sociais que deveria alimentar um iniciado. O amadorismo é o reino da contradição. Nada para ser descartado de imediato, mas seguramente coisa para ser depurada ou, antes apurada com o tempo, quiçá sob a forja do calor crescente das mudanças.

A burguesia pensante se caracteriza pela “filosofia”. Aqui entra o termo filósofo textualmente como o “amigo da sabedoria”, mero simpatizante do saber, como vêem alguns. Talvez Pitágoras tivesse outra visão do termo que forjou, até porque entre ele e os seus outros famosos conterrâneos, haveria significativa distância, com exceção de Sócrates e Platão, é claro. Pitágoras era um Alto Iniciado tradicional, mestre e cabalista, com idéias políticas próprias, pelas quais pagou um preço, apenas menor que o de Sócrates, todos eles monarquistas. O “prudente” Platão teve os cuidados de revestir a sua proposta de Teocracia com o véu de uma “República” regida por “filósofos”, numa época em que quem não fosse republicano, corria o risco de morte, sendo este o modelo que os modernos tanto veneram e com o qual muitos “alternativos” também flertam.

Ora, a grande marca do iniciado está no heroísmo. Este é o diferencial com a espiritualidade burguesa. Heroísmo denota um idealismo ativo de renúncias, opções e sacrifícios. O verdadeiro iniciado busca a pureza, e não mistura indevidamente valores. A sua dedicação ao sagrado é notável, e na sua existência a balança dos valores pende para o espírito. A palavra “herói” (do latim heros, e este do grego ἥρως) teria relação segura com hiero, “sagrado”.

Existe um abismo significativo entre o Esoterismo e o Perenialismo Tradicional, que deve ser transposto pelos místicos conscientes da Nova Era. É necessário se espelhar na Filosofia Eterna para escapar das armadilhas de ilegitimidade espiritual. O desafio se impõe, na medida em que a Filosofia Perene não é comercial e nem prima pelo mercantil. Um esotérico optará por lecionar e instruir, que por vender um produto, mesmo de ordem intelectual, sabendo que as pessoas devem buscar o conhecimento para o seu próprio crescimento. O sábio esclarecido compreende que não existe solução para ele e nem para o mundo, fora da criação de uma nova sociedade.

Eis que se impõe um desafio para a mentalidade iniciática em nossos tempos, em toda a parte. Considerando a evolução do arco cultural das Idades do Mundo, a Europa (assim como a Ásia) vive o ciclo decrescente da cultura, caracterizado pelo materialismo. Os regimes anárquicos ali suscitados legitimamente (como a república, a democracia e até o comunismo), não favorecem a plenitude da sina iniciática. Por outro lado, as Américas vivem o ciclo ascendente da cultura, e ali o Nacionalismo tem lugar natural, como semente da Monarquia futura, e em breve também se começará a definir uma Hierocracia, semente de uma Teocracia vindoura.

Neste aspecto, vale muito ao buscador da Verdade, investigar os “investimentos” culturais maciços realizados por certas Tradições de Sabedoria em outras regiões do mundo, quando é chegada a sua hora e o próprio local se torna inoperante para a Luz maior. Para o Iniciado, o mais importante é a síntese, a possibilidade de edificar a Luz na forma do Reino sagrado. Ele não perde tempo “dando murro em ponta de faca”, especialmente quando uma avalanche crescente se assoma contra ele.

Assim, quando é chegada uma Idade de Bronze num continente, com toda a sua orientação burguesa e anárquica, o sábio naturalmente migra para o outro hemisfério, a fim de semear as sementes da Sabedoria em solo fértil. Então, estes porta-vozes de veneráveis Tradições e detentores de amplos saberes, podem chegar a ser recebidos como deuses e heróis. Os “deuses” que fecundaram o solo virginal das Américas na época do Buda, eram destas mesmas fontes. Eles eram egípcios, chineses, caldeus, aproveitando muitas vezes rotas comerciais antigas e contatos iniciados em séculos ou mesmo em milênios anteriores. Encontram ali populações jovens e ansiosas por aprender, sendo esta uma das explicações para o surgimento de tantos Iniciados na época citada.

No solo cultural em formação, florescem movimentos visando a ordenação superior da sociedade, forças que muitas vezes lutam contra a adversidade e as pressões criadas por interesses contrastantes ou pela “concorrência”, já que convivem no mundo tendências opostas, especialmente numa época de globalização como a nossa.

Nisto, todo o sucesso poderá depender de três fatores: a união interna dos interessados numa Nova Ordem (força social), a orientação correta na forma de atuação (estratégia), e os investimentos externos positivos (recursos materiais e intelectuais).

Tudo isto pode ser bem canalizado através da organização de novos territórios, sob propostas criativas e transformadoras, dentro dos amplos espaços do Novo Mundo. Neste quadro, a conquista da terra surge como uma base real, mas esta conquista deve ser ampla: econômica, social, cultural e espiritual. Tudo deve estar voltado para a conformação do Território sagrado, em nome da Justiça cósmica.

É o que tem a propor o Projeto-Exodus – um Mundo para Todos, a todos os Filhos do Amanhã.

*Luís A. W. Salvi é Filósofo e escritor

Compartilhe e Comente

Faça uma doação ao JGB

Redes sociais do JGB

Publicidade

Publicidade

+ Publicações >>>>>>>>>

Manchete

Colunistas e Artigos

Sobre o autor

Redação
O Jornal Grande Bahia (JGB) é um portal de notícias com sede em Feira de Santana e abrange as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: [email protected]