Mino Carta e a mídia | Por Emiliano José

Minha amizade por Mino Carta vem de algum tempo. Antes, acompanhando-o de longe, estimulado de perto por Bob Fernandes, era só admiração. Há alguns anos, tornou-se um amigo querido. Tivemos a satisfação de recebê-lo, em Salvador, dia 16 de abril de 2010, para a conferência O partido político da mídia, numa iniciativa do Grupo de Estudos de Comunicação e Política da UFBA, do qual sou líder. O auditório lotado da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia ouviu o conferencista com uma atenção impressionante. Foi brindado com uma visão crítica, profunda do grande jornalista.

Não cabe lembrar toda a conferência. Não custa, no entanto, pontuar alguns aspectos centrais, sem que pretenda fazê-lo de modo literal. Mino foi à nossa história marcada pela escravidão, pela crueldade dos senhores de escravos, adentrou a República, e evidenciou o quanto nossas classes dominantes fizeram para manter os seus privilégios e deixar o povo brasileiro à margem. Foi em busca da gênese do poder no Brasil, ele que é sabidamente um admirador de Raimundo Faoro, que tão bem diagnosticou os donos do poder em nosso País. A mídia não se aparta dessa gênese, está indissoluvelmente ligada ao poder conforme o que Mino diz de modo recorrente.

E aí chegou aos tempos mais recentes, e tratou do partido político da mídia. Certamente, fala de uma mídia geograficamente estabelecida, aquela situada mais ao Sul, aquela dos barões midiáticos, aquela dos poucos monopólios que controlam o discurso no Brasil, que impõe uma interpretação sobre o Brasil, uma interpretação que não quer oposição, uma espécie de pensamento único. Essa mídia, no entanto, na visão de Mino Carta, vem sofrendo derrota sobre derrota, ao menos se a análise se atém às eleições de 2002 e 2006, quando o partido político midiático se empenhou de modo obsceno pela eleição dos adversários de Lula. E perdeu. E não aprendeu.

Tanto não aprendeu que durante todo o segundo mandato de Lula e mais agora quando se aproximam as eleições, tem se dedicado de modo cotidiano, seja pela cobertura que realiza, seja pela ação de seus colunistas, a tentar evitar a eleição da ex-ministra Dilma Rousseff, não importando se, para tanto, tenha que inventar tantas coisas sobre ela, construir dossiês falsos ou formular afirmações que não são dela como se dela fossem. O jogo da mídia começou e os barões midiáticos orientam para que se atinja o adversário – na verdade, a adversária – de qualquer maneira, de preferência com golpes baixos. Mino lembrou um episódio que não custa repetir.

Recentemente, no dia em que o ex-governador de São Paulo, José Serra, era celebrado como candidato do tucanato à presidência da República, a Folha de S. Paulo publicou uma longa entrevista, ao longo da qual ele, Serra, falava na necessidade de um Estado forte. E, para dizer de modo ameno, a mídia ignorou essa afirmação, feita provavelmente de modo nostálgico, quem sabe recolhendo algumas heranças cepalinas. A afirmação não tem qualquer laço com a realidade tucana de hoje, que celebra cotidianamente o deus mercado e que abomina a intervenção do Estado, quanto mais um Estado forte. A mídia preferiu o silêncio, um silêncio que falava mais do que muitas palavras.
Nas ocasiões em que a ex-ministra Dilma Rousseff falou na importância do papel do Estado, ou disse que era imprescindível um Estado forte para defender os interesses do povo, foi um deus-nos-acuda. A mídia promoveu um escândalo. Gastou tinta e voz e imagens à vontade para dizer da natureza quase bolchevique da ex-ministra, do autoritarismo que o País teria pela frente caso ela viesse a ganhar as eleições, o que é uma hipótese bastante provável, como se sabe. Esses dois pesos e duas medidas não devem assustar ninguém. O partido político da mídia já está em ação e tem candidato nessas eleições, e é o ex-governador de São Paulo, como já está evidente. Outra vez, ela optará pelo tucanato. Mino defendeu o fato como fundamental para o exercício do jornalismo. Não parece que será escutado pela maior parte de nossa imprensa, que continua a ser uma das mais partidarizadas do mundo.

*Por Emiliano José

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