Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de lançamento dos editais para licitação da Ferrovia Oeste

Luiz Inácio Lula da Silva.

Luiz Inácio Lula da Silva.

Ilhéus-BA, 26 de março de 2010 

Meus queridos companheiros e companheiras de Ilhéus,
Queridos companheiros e companheiras da Bahia,
Querido companheiro governador do estado da Bahia,. Jaques Wagner,
Querida companheira ministra Dilma Rousseff,
Querido companheiro Geddel Vieira, ministro da Integração Nacional,
Querido companheiro Franklin Martins, ministro da Comunicação,
Meu querido companheiro governador do estado do Tocantins, Carlos Eduardo Gaguim, que está aqui abocanhando um pedaço da Ferrovia Oeste-Leste,
Meu caro amigo César Borges, senador da República,
Deputados federais Alice Portugal, Geraldo Simões, João Carlos Bacelar. José Rocha, Lídice da Mata, Mário Negromonte, Maurício Trindade e Veloso,
Meu caro companheiro Nilton Silva Lima, prefeito de Ilhéus,
Senhor Paulo Patos,
Companheiro Paulo Sérgio, secretário-executivo do Ministério dos Transportes,
Nosso querido companheiro Juquinha, presidente da Valec,
Meu caro Márcio Scherer, diretor de Projetos de Saneamento do Ministério das Cidades,
Companheiro Hereda, da Caixa Econômica Federal,
Meus companheiros jornalistas,
Companheiros empresários,
Companheiros da imprensa,

Eu vou ser muito breve, porque esse horário agora era para a gente estar chegando em São Paulo, e eu ainda estou aqui em Ilhéus. Significa que, quando eu chegar em São Paulo, eu vou ter uma galega chamada Marisa brava quem nem… porque eu vou chegar às nove, quando deveria ter chegado às seis.

Mas eu não poderia deixar de vir a Ilhéus. Eu poderia ter ido a Salvador, mas eu preferi vir aqui, para poder ter uma conversa com vocês, muito franca, sobre o que está acontecendo aqui. A primeira coisa, a primeira coisa é que a gente não pode, nessa época do ano, em cada cidade que a gente chega, a gente ficar prometendo fazer uma coisa, porque nem vocês acreditam, nem o povo acredita, e a imprensa e a Justiça Eleitoral vai dizer que a gente está fazendo campanha e prometendo coisas demais. Então, não é correto. A ponte que vocês querem não tem projeto ainda. Então, é preciso fazer o projeto para a gente saber se é possível financiar a ponte.

Eu tenho dito, na minha experiência como presidente da República: não adianta nenhum governador, nenhum prefeito dizer que precisa de uma obra, eles têm que mostrar o projeto. Se o projeto for consistente, aparece o dinheiro. Por exemplo: a rodovia 415 e o contorno em Ilhéus e Itabuna – eu fui andando de carro até Itabuna e voltei, e essa rodovia tem que ser duplicada e tem que fazer o contorno. E aí, nós assumimos o compromisso de fazer juntos, nós assumimos o compromisso, da mesma forma que nós assumimos o compromisso de fazer essa ferrovia. Essa ferrovia é uma ferrovia muito grande. O projeto original dela liga Ilhéus a Figueirópolis, em Tocantins, a 400 quilômetros depois da ferrovia Norte-Sul. É uma ferrovia muito importante, porque ela vai tanto fazer uma integração da Bahia com o Centro-Oeste brasileiro, como ela vai ligar a Bahia ao porto de Santos. A gente, portanto, vai ter o Porto de Itaqui, o Porto de Belém, o Porto de Ilhéus e o Porto de Santos, tudo ligado por um esquema ferroviário poderoso.

Nós estamos recuperando aquilo que foi abandonado na década de 50, quando veio para cá a indústria automobilística. Vocês estão lembrados que… Vocês estão lembrados que na década de 50, quando Juscelino falou em integração, aqui nessa região veio uma caravana de carros. Aqui veio Romi Isetta, aqui veio DKW-Vemag, porque era o sinônimo da integração via rodovia. E agora nós estamos recuperando o sistema de integração via ferrovia. E vai acontecer exatamente o que deveria ter acontecido há muito tempo: a gente construir um sistema intermodal de transporte, que utiliza a hidrovia, que utiliza a ferrovia, que utiliza a rodovia e ainda utiliza aeroportos. Porque também na nossa política de aeroportos que foi apresentada pelo Ministro da Defesa vai entrar, para os próximos anos, um novo aeroporto aqui na cidade de Ilhéus.

Pois bem, a coisa sagrada que nós queremos dizer para vocês é que o Brasil voltou a aprender a investir em obras de infraestrutura. O Brasil ficou 25 anos sem fazer investimentos e, portanto, o Brasil praticamente teve uma geração e meia que não viu investimentos em infraestrutura. Se eu pegar para vocês alguns presidentes e perguntar se vocês lembram qual a obra que eles fizeram, certamente vocês não vão lembrar de quase nenhuma obra importante que os presidentes fizeram. Teve presidentes da República que passaram muitos anos no governo e não fizeram uma única universidade nesse país. Teve presidente da República que passou o mandato inteiro apenas preocupado em resolver o pagamento da dívida com o FMI. Hoje nós não devemos nada ao FMI e é ele quem deve US$ 14 bilhões para o Brasil, porque hoje nós fizemos uma reserva importante para o Brasil.

Então, companheiros e companheiras de Ilhéus, dia 31 de dezembro está terminando o meu mandato. Eu irei para casa… eu irei para casa com a certeza de que nós fizemos muita coisa neste país, mas irei para casa também com a certeza de que ainda temos um grande caminho a percorrer para que a gente possa recuperar o atraso a que a maioria do povo brasileiro foi submetida ao longo de séculos e que o povo pobre foi abandonado neste país. A gente não pode esquecer… A gente não pode esquecer que neste país a mulher só conseguiu votar a partir da década de 30, portanto, faz pouco tempo. A gente não pode esquecer nunca que mesmo quando foi proclamado o fim da escravidão, o negro ainda não era tratado como um ser humano neste país, era tratado como cidadão de terceira categoria. Então nós não vamos mudar em oito anos, ou em dez anos, aquilo que foi construído de desgraça, neste país, em 500 anos. Mas eu vou dizer uma coisa para vocês, eu vou dizer uma coisa para vocês: se tem um dia que eu fiquei alegre na vida, foi quando eu soube da notícia… eu fiquei triste porque eu não ganhei do Alckmin no primeiro turno, mas fiquei feliz porque, aqui, o nosso galego deu uma surra e ganhou as eleições no primeiro turno.

E foi importante, e foi importante que ele ganhou… foi importante que ele ganhou e derrotou, aqui… ele e o Geddel estavam juntos, no mesmo palanque, e eu imaginava que eles iam continuar no mesmo palanque, mas me parece que tem um pouquinho de divergência entre o Vitória e o Bahia. Agora, a gente não pode se tratar como inimigo. A gente sabe que a eleição é apenas um episódio na nossa vida. Depois das eleições, a gente vai ter que trabalhar, e muito, para que a gente possa garantir que o povo da Bahia continue avançando, para que o povo da Bahia continue trabalhando e recebendo os benefícios do governo.

Uma coisa eu vou dizer para vocês, uma coisa eu vou dizer para vocês, companheiros e companheiras: o Nordeste brasileiro nunca mais será tratado como se fosse uma região de segunda classe, nós não podemos aceitar. Nós não queremos tirar nada de nenhuma região do país. Eu sou grato a São Paulo, porque foi lá que eu aprendi tudo na vida. Acho que o Brasil é grato a São Paulo, o Brasil é grato ao Rio Grande do Sul, o Brasil é grato ao Rio de Janeiro. Nós não queremos tirar nada de nenhum país [estado], mas nós queremos que o Nordeste tenha carne na mesa, que o Nordeste tenha educação, que o Nordeste tenha emprego e que o Nordeste possa competir em igualdade de condições com as outras regiões do país. É por isso que nós estamos fazendo um forte investimento no Nordeste, é por isso que está gerando muito emprego no Nordeste, é por isso que estamos fazendo uma refinaria em Pernambuco, uma no Maranhão, uma no Ceará e uma no Rio Grande do Norte. É por isso que estamos fazendo 6 mil quilômetros de ferrovia neste país, é por isso que já fizemos 14 universidades federais novas e 105 extensões universitárias, é por isso que vamos fazer 214 escolas técnicas. E o Nordeste brasileiro, daqui a dez ou quinze anos, terá a mesma quantidade de doutores, de mestres que tem São Paulo, que tem Rio, que tem Minas Gerais, porque é isso que vai permitir que o Nordeste se desenvolva.

Por isso, meus companheiros e companheiras, eu não poderia deixar de vir aqui. Tem gente que acha: “Bom, por que o Lula vai construir uma ferrovia de 1.500 quilômetros lá na Bahia? Por que não faz uma aqui no Sul?” Nós vamos fazer no Sul quando precisar fazer. Mas agora, é a vez da Bahia, é a vez da Transnordestina, ligando Pernambuco, Ceará e Piauí. É a vez do Nordeste se desenvolver. E, ao mesmo tempo, estamos fazendo muitos investimentos na região Sudeste.
O PAC demonstra o seguinte: esse governo não discrimina ninguém. Pode perguntar para os prefeitos do DEM aqui na Bahia; pode perguntar para os governadores do PSDB, em qualquer lugar do Brasil; pode perguntar para os prefeitos do PSDB se, em algum momento, a gente deixou de dar o dinheiro que eles tinham direito porque eles eram meus adversários. Eu não governo para prefeito ou para governador. Eu governo para o povo brasileiro, e por isso nós governamos de forma republicana.
Companheiros e companheiras, eu queria dizer três coisas antes de ir embora. Eu estou cansado, estou cansado. Político não gosta de falar que está cansado, mas eu estou cansado.

Eu queria, primeiro, dizer ao pessoal da demarcação: hoje eu liguei para o presidente da Funai para saber o que estava acontecendo. Ele disse que esse é um processo que está apenas iniciando. Que é um conflito entre as tribos dos tupinambás, se não me falha a memória, e eu disse para ele, eu disse para ele: companheiro, você tem que lembrar que naquela área mora gente há 80 anos, há 50 anos, há 200, há 100 anos. Então, é verdade que a Universidade pode escolher especialista, fazer investigação, é verdade que pode ter sido terra de índio mesmo. O Brasil inteiro era de índio. São Paulo era de índio, o Rio Grande do Sul era de índio, é verdade. Então é verdade que eles têm direito à terra, mas é verdade que tem gente morando na terra e que a gente precisa tratar os dois como brasileiros. Então, pode ficar tranquilo que nós vamos tratar isso com muito carinho e com muito respeito.

Segundo… Segundo: a questão do pessoal da polícia que reivindica o piso. Meus companheiros e companheiras, eu aprendi uma coisa. Eu sou um homem que um dia, um dia, o meu filho caçula, que tem hoje 25 anos, chegou em casa da escola e falou assim para mim: “Pai, a minha… a minha classe inteira vai para a Disneylândia, e eu queria ir”. É muito difícil um pai dizer para um filho: “Você não vai”. Mas é muito mais difícil você prometer o que você não tem condições de fazer. E eu, em vez de mentir para o meu filho, eu disse: “Você não vai, porque nós não temos dinheiro para mandá-lo para a Disneylândia. Então, você não vai. No dia que tiver, você vai”.

Então, com a mesma coragem que eu tive de falar para o meu filho, eu tenho que falar com vocês: vocês merecem ganhar um salário decente, a polícia merece ganhar um salário decente. Eu mesmo, eu mesmo fui lá na polícia de Brasília anunciar o piso de R$ 3.500,00 para a polícia de Brasília. Agora, é importante apenas lembrar que na hora que o Congresso Nacional aprovar o piso, ele tem que dizer de onde é que vai vir o dinheiro, porque vocês sabem que a maioria dos estados está em uma situação de pobreza. Então, é preciso que haja uma combinação, que na hora em que o Congresso Nacional estiver discutindo a PEC, ele discuta, concomitantemente, onde é que a gente vai criar o fundo para poder pagar o salário. Não pensem que eu acho que R$ 3.500,00 é muito salário, não. Se a gente quer policial honesto, trabalhador, servindo a sociedade, a gente tem que pagar bem. Porque se a gente tiver policial mal remunerado, que não consegue cuidar da própria família, a gente não pode exigir nada de policial.

Eu conheço muita gente da polícia neste país, muita gente. E eu sei que tem gente que mal leva para casa o que comer com o salário miserável que ele ganha. E, se ele não for um cara honesto, ele ainda começa a levar propina para casa. Então, nós temos que pedir a Deus que tenham muitos policiais honestos pedindo aumento de salário e que a gente possa criar as condições de melhorar – e vamos criar. Nós criamos agora o Bolsa-Copa para os estados, vamos criar a Bolsa-Olímpica e, se Deus quiser, nós vamos criar condições para poder constituir um fundo para poder pagar o salário que a polícia brasileira precisa, senão a gente não vai enfrentar a questão da segurança pública com decência. Um policial andando na rua com a bota furada e um ladrão andando com um cromo alemão, é difícil essa disputa e nós então precisamos criar as condições.

A outra coisa que eu queria falar aqui: Não tem faixa, não tem nada, mas tinha um companheiro aqui gritando: “E os aposentados, Lula, e os aposentados, Lula?” Eu vou dizer uma coisa para vocês: ninguém, ninguém neste país defende mais trabalhador do que eu. Pode defender igual, mas mais eu duvido. No meu governo, além da gente ter aumentado o mínimo em mais de 70%, os aposentados que ganham mais do que mínimo em nenhum momento receberam menos do que a inflação. Eu sei que, durante muito tempo, o salário do aposentado foi corroído, ele foi diminuído. Porque teve governantes que nem pagaram aquilo que a inflação comeu. Mas os trabalhadores têm que entender que a Previdência é do próprio trabalhador e que ela tem uma receita, entra dinheiro e sai dinheiro. E que, portanto, se a gente for dar mais do que a gente arrecada, a gente termina quebrando a Previdência Social, que é do próprio trabalhador. Nós fizemos um acordo com as centrais sindicais, propusemos um pequeno aumento acima da inflação, isso está para ser votado no Congresso Nacional, e eu espero que os congressistas votem isso para a gente resolver a questão dos aposentados no Brasil.
No mais, ditas essas três coisas, eu quero dar um beijo em cada mulher, um abraço em cada homem, e até outro dia, se Deus quiser, companheiros.

*Com informação do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.

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