Brasília: utopia e pesadelo urbanístico

Brasília: utopia e pesadelo urbanístico.

Brasília: utopia e pesadelo urbanístico.

Apresento a seguir dois interessantes e bem fundamentados artigos sobre Brasília. Ah Brasília… utopia e pesadelo de arquitetos e urbanistas que acreditaram no realismo socialista da arte soviética.

Consequências de uma utopia residencial.

Urbanistas já abandonaram a cartilha que deu origem a Brasília; o carro virou um vilão, a velha rua foi revalorizada e a separação de usos hoje é tida como um erro .

O conceito de cidade moderna, do qual Brasília é a mais significante realização, foi desenvolvido na primeira metade do século 20 em congressos internacionais. A vanguarda do pensamento urbanístico estabeleceu consensos como a setorização de usos (áreas comerciais, culturais etc.) e a separação de veículos e pedestres. Contudo, o cerne da questão era a habitação coletiva, uma das vedetes de Brasília.

Este conceito se contrapôs à insalubridade da cidade tradicional, caracterizada por edifícios sem recuos (como nas partes centrais de Paris ou São Paulo). Lucio Costa respondeu a questão criando a superquadra (uma célula com 300 metros de lado), com prédios dispostos livremente entre árvores. O plano brasiliense também reflete a questão política do urbanismo moderno: não existe lote e o térreo é público.

Para reforçar essa visão, os edifícios são elevados e qualquer um os pode atravessar. Este térreo vazio é chamado de pilotis -palavra francesa que significa coluna- e só a portaria, hall de elevadores, escadas etc. pertencem aos condomínios.

Não há salão de festas ou piscinas. O número de andares é limitado a seis (algumas quadras possuem três), há apenas um acesso de veículos visando trânsito local e uma escola primária pública para atender aos moradores.

Quatro superquadras juntas formam uma unidade de vizinhança, que dividem rua de comércio local, igreja, cinema, clube, escola secundária e escolas parques (com atividades extracurriculares).

Os modernistas focavam na moradia visando, sobretudo, solucionar a demanda habitacional do pós-guerra na Europa. Por isso, pesquisaram a industrialização, as dimensões mínimas das unidades e soluções para novas estruturas familiares. A superquadra torna-se contraditória quando estas questões são colocadas na mesa: se o urbanismo foi progressista ao estabelecer um térreo público, a arquitetura foi reacionária ao desenhar apartamentos convencionais.

Entradas de serviços e quartos de empregados, por exemplo, revelam cruel divisão de classes. Além disso, os prédios são ocupados somente pela classe média e não foram industrializados. Para piorar, o plano ficou incompleto: só uma das cerca de duas dezenas de unidade de vizinhança possui os equipamentos previstos (cinema, igreja, clube etc.); no restante, há apenas comércio e escolas.

A única unidade de vizinhança completa é a mais antiga, formada pelas Superquadras 107, 108, 307 e 308 Sul. Por isso, e pelo valor arquitetônico do cinema e da capela desenhados por Oscar Niemeyer, o conjunto é protegido pelo patrimônio histórico.
Como funciona este extrato de utopia após 50 anos? De uma maneira geral, o conjunto tem problemas semelhantes às outras superquadras. Em primeiro lugar, o limite entre o espaço público e o privado não foi bem assimilado. Grande parte do comércio, por exemplo, invade área pública. Nem os órgãos governamentais se entendem. Por um lado, o governo do Distrito Federal aprovou um projeto de anistia, apelidado de “lei do puxadinho”, que propõe disciplinar as invasões. Por outro, o governo federal move ações contra alguns comerciantes para que derrubem as irregularidades. “Não sei se terei que demolir ou serei anistiada”, conta Helvia Gomes, dona de uma doceria na 108.

Mas é o pilotis o principal palco deste embate. Grades são proibidas, mas são usuais as cercas vivas que definem áreas privativas imaginárias dos blocos dificultando a circulação de pedestres no pilotis e nos estacionamentos, sobretudo onde não há garagem no subsolo, como na 107 e 108, por exemplo.

Existe uma exceção: a 308 mantém o conceito original.

A ativa organização dos moradores representados por um prefeito, morador eleito pela comunidade, zela pelo raro bem comum da quadra: o paisagismo de Roberto Burle Marx. Em tese, a conservação das áreas verdes é responsabilidade da Nocavap, órgão público criado para construir a cidade.

“Temos três jardineiros”, conta Solange Madeira, prefeita da 308 (que administra uma verba de R$ 10 por apartamento). “Mas não temos segurança privada pois caracterizaria um condomínio”, argumenta. “Ai que bom: eles chegaram! Tenho que ficar em cima”, ela suspira, interrompendo a entrevista ao ouvir aliviada o barulho de um veículo da Novacap que aparava a grama entre a superquadra e a área comercial. “O mato está alto e facilita que moradores de rua durmam ali”, explica.

Com jardins e prédios bem conservados, na 308 não ocorre outro sintoma comum nas demais quadras: a personificação.

Negando o coletivismo e a abstração moderna, reformas descaracterizam os prédios ao procurar, equivocadamente, enobrecer e individualizar os blocos. No pilotis de diversos edifícios da 107 e 108, desenhados por Niemeyer, sancas de gesso emolduram as colunas originais, propositadamente simples, e pisos de granilite são substituídos por granito.

Outra deturpação é a troca de pastilhas de porcelana das fachadas por modelos cerâmicos maiores, muitas vezes formando desenhos gráficos que contrastam com concepção original. Também são rotineiras ações personalistas na área verde, tratada como um quintal privado. Mas, se as áreas verdes em geral não são paisagisticamente primorosas, o que importa é a quantidade e o porte das árvores.

A classe menos favorecida não mora nas superquadras, mas as frequenta diariamente, pois utiliza as escolas. Além do envelhecimento da população, a baixa qualidade do ensino público é o principal fator pelo qual os moradores da superquadras preferem instituições privadas. Um exemplo? Dos 450 alunos da escola da 107, somente um mora na superquadra (ele é filho de empregada doméstica que trabalha e mora em uma unidade).

Algumas escolas estão fechando por falta de usuários, como a da 315 Sul. O conflito entre estudantes e moradores é gerado, principalmente, pela violência gerada pelo tráfico de drogas. Segundo conta Cláudio dos Santos, diretor da escola da 107, seis alunos foram expulsos este ano pelo envolvimento com drogas. “É a gangue do boné branco”, diz o diretor, que proibiu o uso do acessório dentro da escola. O vandalismo também faz parte do cotidiano das superquadras. Nesta mesma área, alunos picharam parte do pilotis de um dos blocos. “A síndica veio aqui chorando, pois era uma pedra italiana que não existe mais”, relata Santos, constrangido.

Além do atrito entre classes sociais, também existe o embate entre usuários do comércio e moradores. “Cada superquadra deveria ter comércio local -açougue, padaria, cabeleireiro etc. Mas aqui temos dois supermercados que atraem clientes de outras áreas que estacionam dentro da nossa quadra”, zanga-se a prefeita Solange.

O dinamismo do comércio gera outro problema: algumas quadras possuem comércio especializado (“rua da elétrica”, “rua das farmácias” e “rua da moda”, por exemplo). Os casos mais graves estão nas superquadras próximas ao Eixo Monumental que são recheadas de bares e restaurantes. Resultado: o fim da tranquilidade dos moradores pelo fluxo imprevisto no interior da quadra.

Apesar das virtudes, nenhuma outra cidade terá uma área residencial como a da capital brasileira. Suas contradições e problemas foram fundamentais para a evolução do pensamento urbanístico. Desde os anos de 1960, os urbanistas não rezam mais a cartilha que gerou Brasília: a separação de usos é considerada um erro, a cidade tradicional e a rua foram revalorizadas e o carro virou vilão da sociedade.

Mas, para o bem ou para o mal, a utopia deixou seu legado.

Sua melhor face é a 308 Sul, que atrai caravanas de estudiosos.

Claro, tudo tem seu preço: um apartamento de dois quartos na quadra custa R$ 700 mil, e um de quatro chega a valer R$ 2 milhões -são os mais valorizados entre as superquadras.

“Olha os meus peixes”, apontou a zelosa prefeita ao observar as carpas enquanto atravessa o espelho d’água que ela recuperou recentemente: “Não são lindos?”, perguntou orgulhosa.

FERNANDO SERAPIÃO é arquiteto e urbanista. É editor executivo da revista Projeto Design.

A mais brasileira

Fiel a seu plano original, Brasília vive o paradoxo de ter sido idealizada para ser o oposto do país e ser a mais perfeita expressão de sua desigualdade

Brasília é uma cidade linear e dicotômica. Constituída por dois eixos, o rodoviário-residencial e o monumental, ela se estrutura através da nítida separação entre duas escalas, isto é, duas distintas dimensões da vida urbana: a vida cotidiana e a expressão simbólica do poder.

Antes uma cruz de fundação do que a imagem de um avião -quem usou a metáfora do avião foi Mário Pedrosa, e não Lucio Costa-, os dois eixos cruzados surgiram para delimitar as duas escalas da cidade: a urbs e a civitas, uma intimista, outra monumental.
Pai tanto da arquitetura moderna brasileira quanto do nosso conceito de patrimônio histórico, Lucio Costa procurou resgatar, na superquadra, a vida pacata das cidades coloniais, que tanto apreciava. Emolduradas por espessas cintas arborizadas, as superquadras deviam se configurar, segundo sua concepção, como “claustros urbanos”, isto é, unidades de vizinhança voltadas para dentro, e invisíveis aos olhos dos passantes motorizados, que atravessariam o eixão emparedados por uma cortina verde, e veriam surgir a “cidade” apenas no Eixo Monumental, com o amplo horizonte e os edifícios simbólicos projetados por Oscar Niemeyer.

O que ficou claro como problema, desde logo, é a ausência de uma escala intermediária: o lugar do comércio, da agitação da vida na rua, do encontro e do conflito. Tudo, enfim, que deu munição ao falso mito de que Brasília não tem esquinas. Essa escala intermediária, no entanto, estava prevista no plano de Costa. Chamada de “gregária”, ela devia existir como um anel em torno da plataforma rodoviária -o encontro entre os eixos-, e assumiria uma forma vernacular, com alusões à rua do Ouvidor e às vielas venezianas, formada por galerias cobertas e pátios. Ocorre que isso não saiu do papel. Tanto por razões de praticidade, quanto porque era o elemento menos desenvolvido do plano. Dicotômico em essência, o seu desenho não chegou a incorporar convincentemente a escala intermediária, que tanta falta faz.

Mas esse não foi um atributo -ou um problema- específico do seu projeto. Como toda a revisão crítica já mostrou, o propósito explícito de “matar a rua tradicional” estava na base da cartilha urbana modernista, que figurou a cidade como um parque de lazer pontuado por edifícios, para dentro dos quais se deslocaria toda a sociabilidade urbana. Apesar de sua abstração maquinista, o urbanismo moderno reagia à confusão da metrópole industrial, sendo atraído pelo bucolismo do modelo das cidades-jardim, que a partir dos anos 1950 começava a suburbanizar as grandes cidades, de braços dados com a proliferação do automóvel.

Brasília sobrevive à intensa polêmica entre modernos e pós-modernos, da qual foi vítima por tanto tempo. Na prova dos nove de sua experiência concreta, a avaliação da cidade parece também curiosamente dicotômica: ela é, em geral, amada por seus moradores, e detestada pelos visitantes e residentes temporários. O que nos leva à seguinte constatação: enquanto, por um lado, as famílias estabelecidas na capital desfrutam de uma qualidade de vida sem par no Brasil, uma vez que as superquadras são reservatórios idílicos de uma ética coletivista que foi desaparecendo cada vez mais, com a escalada da violência e do privativismo, por outro lado, visitantes ou moradores ocasionais são, via de regra, assaltados pelos efeitos da agorafobia (o distúrbio diante dos amplos espaços abertos), e tomados por uma irremediável melancolia com a vida bucólica das superquadras. Sem automóvel e isolado no setor hoteleiro, ou, ao contrário, refém de um carro alugado que o conduz a infinitas autopistas e cul-de-sacs, o forasteiro se sente desamparado, como em um tedioso faroeste sem bangue-bangue.

No fundo, o ideal de Lucio Costa era o de uma classe média generalizada, esclarecida e despojada, mas cujos traços de urbanidade conservassem as marcas de uma vida provinciana. E nisso ele foi, certamente, bem sucedido. Arrefecidas as grandes batalhas ideológicas em torno de Brasília, vemos hoje uma cidade que funciona quase que rigorosamente como foi projetada: o Eixo Monumental existe de fato enquanto imagem do poder, apenas para ser filmado e fotografado, e o eixo rodoviário-residencial é o paraíso da família pacata, da classe média e do funcionalismo público. A diferença é que a massa de trabalhadores atraídos para esse Eldorado nunca se tornou classe média, e ao inchar as cidades-satélites fez da grande Brasília um dos lugares de maior desigualdade social no mundo, como mostra o recente relatório da ONU. Quer dizer que a dicotomia original se espraiou para a relação entre o Plano Piloto e seu entorno. E assim, de forma paradoxal, aquilo que nasceu como o oposto do Brasil acabou explicitando a sua realidade profunda. Curiosamente, hoje Brasília é a mais brasileira das cidades.

GUILHERME WISNIK , crítico de arquitetura, é autor de “Lucio Costa” (Cosac Naify) e “Estado Crítico” (Publifolha).

por GUILHERME WISNIK http://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/fj2104201011.htm
especial para a Folha
por FERNANDO SERAPIÃO http://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/fj2104201009.htm

*Com informação : FSP, 21 abr 2010

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Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]