A afetividade no contexto do combate à fome

Deveras louvável é a cruzada mundial de combate à fome travada por organismos internacionais como a FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations (Em português: Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), missão humanitária esta que tem o Brasil como um dos protagonistas, a julgar pelo Programa Fome Zero implementado pelo Governo Federal.

Menos a título de avaliação política e mais à guisa de reflexão, a pergunta que não quer calar é: No mundo de hoje, qual das “fomes” é a maior e mais preocupante, a fisiológica ou a afetiva?

Neste mesmo diapasão, partindo do irrefutável entendimento de que a comida nutre o corpo e o afeto alimenta a alma, por analogia equivale indagar: Qual das “pobrezas” é a maior e mais preocupante, a material ou a de espírito? (questionamento dirigido aos não materialistas).

Segundo algumas concepções da sociologia, ambos os aspectos ora discutidos acerca desta mazela que acomete o planeta (a fome) devem ser encarados como dois lados de uma mesma moeda. Todavia, na perspectiva do planejamento e das ações político-institucionais, a afetividade como um dos fatores inerentes à necessidade humana, ainda não está deliberadamente convencionada como sendo um dos latentes vieses da “fome”, de que atualmente padece a humanidade.

Poderia a questão afetiva, enquanto algo que transcende o universo ético-moral e as clausuras da estética social, constituir-se em dever do Estado e um direito do cidadão? È passível de que a figura do afeto esteja expressa e ou implicitamente consagrado na Magna Carta Política do nosso Estado Democrático de Direito?

No entendimento de alguns doutrinadores, o afeto constitui-se em um direito da personalidade implícito no basilar princípio constitucional da dignidade da pessoa humana, sendo, portanto, digno de tutela por parte do Estado.

De outro norte, do ponto de vista da religião enquanto instituição social, os aspectos afetivo e fisiológico da fome afiguram-se indissociáveis na subjetividade do ensinamento bíblico, máxime no trecho da oração mais conhecida do cristianismo, que assim reza: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido…”. Aqui, o pão e o perdão consubstanciam-se em um só alimento para o corpo e para a alma.

Segundo Antônio Soares Abreu, em sua obra “A Arte de Argumentar: Gerenciando razão e emoção”, o mundo atual passa por uma realidade em que a única coisa constante são as mudanças econômicas, tecnológicas, políticas, mudanças de crenças e de valores. Apesar disso, o homem continua o mesmo dentro de sua alma e de seu deseja de ser feliz.

Assim sendo, para que considerável parcela dos terráqueos não fique a “chorar de barriga cheia” ou mesmo a “comer o pão que o diabo amassou”, é preciso que as políticas mundialmente desenvolvidas tenham o condão de combater, por meio de ações integradas, a fome no seu sentido lato, a bem da efetiva construção da paz e da justiça social.

“Forjar no trigo o milagre do pão e se fartar de pão” não prescinde de “afagar a terra e conhecer os desejos da terra”[1], afinal de contas, “agente não quer só comer, agente quer prazer prá aliviar a dor”[2].

DIAS, Maria Berenice. A estatização do afeto. IBDFAM, Belo Horizonte, 2002.
ABREU, Antônio Soares. A arte de argumentar: Gerenciando razão e emoção. Cotia: Ateliê Editorial, 2006.

[1] Trechos da música “Cio da Terra”, de Milton Nascimento de Chico Buarque.
[2] Trecho da música “Comida”, de Titãs.

*Por  Décio Nascimento

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