Agora são outros 50, o resgate da verdadeira Brasília | Por Luís Salvi

2010 marca o jubileu da “nova” Capital Federal, a instigante Brasília de tantos sonhos e pesadelos. Mas para conhecer a verdadeira realidade de Brasília, tão elogiada quanto criticada, é preciso ir a fundo na sua História e no contexto maior que a criou.

Prevista em quase todas as Constituições republicanas do Brasil, e fruto de conjecturas que remontam ao Império na política iluminista pombalina, depois já nomeada de “Brasília” por José Bonifácio no contexto da Independência, o projeto de criação de Nova Capital terminou por virar um ícone maior de uma política socialista e desenvolvimentista de respaldo internacional.

Independentemente daquilo que ela possa representar em nossos dias, Brasília é, acima de qualquer outra coisa, fruto dos sonhos de realização de mudanças profundas na sociedade nacional. Juscelino Kubitschek era o herdeiro natural de Getúlio Vargas que, se paradoxalmente havia retirado da Constituição brasileira a idéia do translado da Capital, acabou na prática abrindo os caminhos para isto através da sua “Marcha para o Oeste”.

Havia não obstante uma tendência de Brasília ser colocada no Triângulo Mineiro, porém como isto iria criar ainda mais resistências ao governo do também mineiro JK, aproveitou-se uma interpretação de espécie de “lenda popular” para justificar a escolha de local no Centro-Oeste, que era o sonho de Bosco acerca do surgimento de uma grande civilização em locais ermos da América do Sul.

E como um marco do Futuro, destinado a intervir cada vez mais na História, Brasília foi consagrada aos “Ventos que virão”, o Venturis ventis inscrito na da sua bandeira, espécie de trocadilho latino que coaduna com as energias da Nova Era de Aquário, regida pelo Elemento Ar, e cuja projeção celeste incide justamente sobre o Brasil, donde ser correto se tratar este país do “berço do Novo Evangelho”, que é o do Espírito Santo, envolvendo ecologia, humanismo e espiritualidade, sob os entornos do Apocalipse de São João, alicerce eterno desta Nova Dispensação.

Um Espaço sagrado?

Soa a paradoxo que um pólo de cultura social seja aparentemente tão “elitista” já nas suas raízes. Porém, esta idéia não é estranha à lógica do poder, que trata de concentrar na área a atividade administrativa e proporcionar aos seus servidores as melhores condições possíveis, de resto necessárias face às privações e outras pressões a que estas pessoas comumente estão sujeitas. A própria localização remota, lembra a disposição das capitais planejadas dos impérios antigos, daí haver sído comparada à Aketaton (“Horizonte do Sol”) do visionário faraó Akenaton. Assim, mais do que elitista, Brasília apenas representaria um “local para as elites” nacionais.

É claro que este quadro sofreu sérias distorções, acarretando nos riscos que tem toda a “ilha cultural” de se converter rapidamente de ordem em tirania. Lamentavelmente, Brasília é como uma criança seqüestrada em seu berço para ser criada por vilões. O Golpe de Estado que ceifou o sonho dos brasileiros de ter uma nação mais justa, começou a fazer pressões já em 1962, no contexto da renúncia de Jânio Quadros. Tal coisa obstaculizou seriamente os projetos sócio-culturais que vinham sendo desenvolvidos há décadas no país, incidindo naturalmente toda esta problemática no centro principal de tomadas de decisões do país, com especial visibilidade a partir do momento em que o país retomou suas liberdades políticas após tristes 20 anos.

Existem, não obstante, muitos marcos transformadores na organização de Brasília, e alguns evocam o espírito da Grande Antiguidade, para além das eventuais semelhanças arquitetônicas com pirâmides e mastabas egípcias. A organização do Distrito Federal está sujeita a uma política geográfica especial, semelhante ao conceito imperial de Cidade-estado e de sistema “solar” geográfico, com cidades-satélites.

Além disto, ao modo da cultura tradicional, a cidade obedece a certo cânone arquitetônico, que aproveita os recursos modernos e um traçado tropical. A própria divisão das atividades por setores, obedece ao cânone da Cidade antiga. Finalmente, o seu Plano urbanístico cede lugar ao símbolo, ao ser evocativo de uma cruz (combinação de opostos) e de realidades aéreas, seja avião (tecnologia) ou pássaro (natureza), no caso, lembrando a íbis que no Egito Antigo simbolizava a Fênix da renovação –na sequência, teremos novas alusões a este mito.

O ciclo dos Tempos

Não deixa de ser interessante notar, ao lado disto tudo, a inserção desta data nos calendários tradicionais, especialmente o maia-nahua. A sabedoria antiga dava muito valor aos valores fractais, que são números proporcionais. Estamos falando aqui dos numerais 5.200, 520 e 52, referentes a ciclos de grande importância na filosofia antiga do Tempo, especialmente na versão meso-americana. O ciclo de 5 mil anos corresponde à Era solar que encerra todo um Conceito de Civilização –e é uma data assim que surge em 2012. 520 é como o ciclo-fênix dos egípcios, que previam ali fortes transformações culturais, assim como eram os ciclos do Templo de Jerusalém, corroborados nos sonhos de Daniel de “sete semanas de anos”, atestando isto a sua conotação espiritual. E 52 é o “Fogo Novo” dos maias e nahuas da Meso-América, data na qual as sociedades trocavam os seus governantes e se desfaziam de bens supérfluos, similar nisto ao jubileu dos hebreus instituído por Moisés, pelo qual a cada 50 anos haveria um grande concerto social onde os escravos seriam libertados e as terras redistribuídas.

Claro que um “aniversário” é sempre um momento para relembrar as coisas, e na cultura popular a data envolve o conceito de “bodas de ouro”, quando um casal celebra uma conquista maior na sua trajetória, que é resistir sob todos os aspectos aos desafios do tempo. No caso, este casamento seria o do poder com o povo que, em se tratando assim de entidades maiores, representa também um momento para se repensar as coisas e, quiçá, também retomar caminhos perdidos. A única solução para isto, é a própria sociedade assumir os seus deveres de controle e de fiscalização, porque votar em alguém é apenas o começo das coisas. A sociedade deve estar disposta a se mobilizar sempre que necessário para fazer valer a sua vontade.

É interessante uma Capital ser criada sob este marco transformador, pois 1960 é o ano-52 antes de 2012. Assim, Brasília poder ser vista como uma cidade destinada a preparar esta grande virada cultural, surgindo como estratégica dentro de um cenário maior, ao atuar como uma espécie de chave-de-ativação no cerne da “energia do tempo”. Ou seja, a realização de “outros 50” num contexto axial ou central desta natureza, poderiam desencadear “outros 500” e até “outros 5 mil”! Donde a dimensão quiçá planetária capaz de alcançar esta “ativação”.

Conclusão

Seria muito importante, por tudo isto, que neste ano houvesse uma mudança de poder em grande estilo na cidade e no país. De fato, sob o risco de intervenção federal, sucedeu a queda de um governador corrupto sob pressões populares que resolveram dar um basta à situação. O Movimento “Ficha limpa” é outra importante tentativa de redefinir a situação moral da política do país.

E é também um ano de eleições presidenciais, no qual seria muito significativa a vitória de um projeto de governo o mais próximo possível daquele que criou Brasília, sinalizando simbolicamente no próprio marco do local e da data, a recuperação de um Plano Nacional muito mais próximo dos anseios da sociedade e dos destinos de um grande país, devidamente adaptado às inevitáveis mudanças que os tempos sempre definem.

*Luís A. W. Salvi é Filósofo e escritor

*Por Luis Augusto Weber Salvi | [email protected]

Compartilhe e Comente

Faça uma doação ao JGB

Redes sociais do JGB

Publicidade

Publicidade

+ Publicações >>>>>>>>>

Manchete

Colunistas e Artigos

Sobre o autor

Redação
O Jornal Grande Bahia (JGB) é um portal de notícias com sede em Feira de Santana e abrange as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: [email protected]