Gratuidade paga | Por Roque do Carmo Amorim Neto

Era para ter sido um dia chuvoso, mas o sol surpreendeu a todos pela manhã e se insinuou o quanto pode, mas no início da tarde a chuva cumpriu a profecia e caiu abundantemente. Quando os primeiros pingos de chuva começaram a cair, eu estava apenas a alguns passos da casa de meu professor David, que gentilmente me convidara para almoçar em sua residência.

Logo da porta de entrada, foi possível notar que se tratava da casa de um professor. Uma estante com livros na sala de estar, outra no corredor que levava à cozinha, onde também havia livros. Foi impossível ver a cor das paredes do escritório de meu professor, a sala inteira era forrada de livros… E foi ali, no escritório, que ele me apresentou sua esposa.

Claire nos convidou para ir à cozinha, onde almoçaríamos. Filé de salmão grelhado, aspargos e pão de azeitonas. O almoço estava delicioso. Entretanto, o diálogo não fluía e eu começava a me sentir incomodado. Finalmente, quando o professor David serviu a sobremesa, que era nada mais nada menos que torta de maçã, sua especialidade, pude finalmente compreender o que estava acontecendo ali.

– Esta torta já está famosa até no Brasil, David. Minha mãe, inclusive, quer a receita. – Disse entusiasmado.
– Fui eu que ensinei David a cozinhar. – Claire interrompeu.
Bingo! Por alguns instantes cenas daquele almoço passaram rapidamente em minha mente. Quando falamos do livro que David está escrevendo sobre psicologia infantil, ela disse que a ideia tinha sido dela. Quando mencionamos o trabalho voluntário que desenvolveremos na próxima semana em um hospital pediátrico, Claire rapidamente deu a entender que o marido só incluiu esta atividade no programa do curso que ele ministra graças à intervenção dela. O fato é que durante todo o almoço Claire tentou colocar-se no centro da conversa.
É possível que a esposa de meu professor tenha lhe incentivado em diversas áreas, inclusive na vida profissional e nisto não há problema algum. O difícil é quando a esposa, o amigo e quem quer que seja desenvolvem aquilo que chamo de “gratuidade paga”. Aquele favor que você nem mesmo pediu, mas que foi feito com esmero pela outra pessoa e pelo qual ela diz não querer nada, mas repetida e sutilmente cobra o reconhecimento e mesmo gratidão pela “gratuidade” feita.
É triste constatar que o horizonte da vida de muitas pessoas está limitado àquilo que elas receberão em troca pelo que fizeram. Ali não há espaço para doação de si, mas para o desejo incontido de receber confirmação de quem está ao seu redor. Algumas pessoas não conseguiram criar uma identidade suficientemente forte e positiva de si mesmas, e por isto necessitam a todo tempo que alguém lhes recorde seus méritos. Que certamente não são poucos, pois pessoas com esta limitação investem pesado em busca daquilo que lhes falta, mas que infelizmente não incluem gratuidade.
Não é raro ver mães lembrando aos filhos que o que eles são e têm devem a ela, como também não é raro ver alguns líderes políticos e mesmo religiosos, que insistentemente lembram às pessoas os favores que fizeram de “coração”, com o escondido desejo de receberem confirmação e reconhecimento.
“Este bolo está delicioso, não está? Fui eu que fiz”. Quem ainda não ouviu algo parecido? Pessoas que agem assim terminam afastando os demais de si, e quando não o fazem os dominam, pois você sempre deverá um favor, um reconhecimento, um “muito obrigado”, de preferência em público, para quem assim se comporta. A verdade é que, pessoas que dependem intensamente dos demais, não conseguem oferecer nada de si, pois a fome de afeto que sentem mancha as mais belas atitudes altruístas. Mesmo os mais nobres atos de generosidade são acompanhados por um desejo de reconhecimento que se não vier espontaneamente da outra pessoa, será gentilmente arrancado dela pelo herói falido.
Se, durante a leitura dos parágrafos anteriores, você reconheceu em si a intensa dependência pelo afeto alheio, está na hora de interromper o ciclo e procurar ajuda. Como já dizia minha avó, porta-voz da sabedoria popular: “a gente só oferece aos outros aquilo que se tem”. Se você realmente deseja ser mais livre para doar-se genuinamente aos demais, especialmente aos que você ama, sem esperar nada em troca e tampouco sem furtar gratidão e reconhecimento, procure ajuda para que você possa descobrir o tesouro que está escondido em você e não mais necessite mendigar gotas de reconhecimento e confirmação. O pior mendigo é aquele que tem um tesouro escondido em seu bolso e jamais o encontra, pois está com as duas mãos estendidas pedindo esmolas.

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