O milagre da política | Por Emiliano José

Ano novo é sempre um tempo de reflexão. Tem o simbolismo da mudança, da proposta de mudança, de caminhar pra frente. De rever planos. Mudar rumos. Ajeitar gavetas. Destruir papéis. Cultivar o novo. Pode ser, e é, um momento festivo. De irmanar-se. Reunir família. Amigos.

Mas, volto ao início: é um tempo de reflexão. Ou deveria ser.

Li, por esses dias, por sugestão de um psicanalista, um texto interessante de Heidegger. Um texto curto denominado serenidade. Que me foi presenteado por João Carlos Salles, este um filósofo de mão cheia e amigo eterno.

Eu tinha – ou quem sabe ainda tenho – preconceitos graves em relação a Heidegger. Como a sugestão veio de uma pessoa que tem parentesco com a sabedoria – e eu considero a sabedoria muito maior do que a erudição – andei a cata, pedi a um, pedi a outro, até que João Carlos Salles o encontrou e me presenteou.

No texto, Heidegger distingue o pensamento que calcula do pensamento que medita, que reflete. O pensamento que calcula não é um pensamento que reflete sobre o sentido que reina em tudo o que existe. Heidegger distingue em suma dois tipos de pensamento, legítimos e necessários segundo ele: o pensamento que calcula e a reflexão que medita. O texto é de outubro de 1955.

Penso que esses momentos, entre um ano e outro, que nos impuseram aleatoriamente, é tempo de refletir, é tempo do pensamento que medita. Não do pensamento que calcula, embora o homem contemporâneo tenha muita dificuldade de separar um e outro, e dê muito mais importância ao cálculo.

E para refletir, para meditar, não é preciso nenhum misticismo – e nada contra os que tenham reverência com o misticismo. Basta, diz o próprio Heidegger, que nos demoremos junto do que está perto e meditemos sobre o que está mais próximo. Sobre aquilo que diz respeito a cada um de nós, aqui e agora. Aqui – como diz ainda Heidegger – neste pedaço de terra natal. Agora, na presente hora universal.

Pensar no mundo. Nas incertezas do mundo. Ele falava, naquele texto, dos riscos da era atômica, que continuam.

E quantas são as incertezas. As dúvidas. Todas próprias do pensamento que medita, da reflexão. A incerteza diante da fúria da natureza, que reage à fúria humana, ao progresso voraz de que falava Walter Benjamin. O anjo de Benjamin olha apavorado para o passado, para o acúmulo desastroso da herança nefasta deixada pelo que se conhecia e se conhece como progresso. A dúvida, a quase perplexidade diante da velocidade do capitalismo, do consumo desenfreado, dos milhões de deserdados por esse modelo consumista. E penso que poucos vacilam em aceitar que a dúvida é um elemento fundamental para impulsionar o pensamento, para ajudar o conhecimento.

Para onde caminha a humanidade?

Volto a meditar.

O caminho depende de nós. Da própria humanidade. Das escolhas que venha a fazer.

Depende da política. Das escolhas políticas.

Não há destino certo. Não há caminhos traçados previamente.

Assustamo-nos diante de realidades estranhas, como se fossem estranhas. Nada do que é humano me é estranho.

A humanidade pode ser dona de seu destino. Ou pode também deixar-se levar por forças cegas, impulsionada pelo pensamento que calcula, e apressar o seu fim.

Não sou catastrofista. Longe disso. Nem quero filosofar. Filosofar só em alemão.

Apenas penso que a vivemos um momento decisivo, um momento de escolhas decisivas. Copenhague foi um exemplo disso. Demos passos tímidos, apesar dos esforços do Brasil, dos apelos de Lula. O capitalismo é cego. As forças centrais que o sustentam são cegas. E estou falando apenas de um problema – o do meio-ambiente. Há outros, como a repartição de renda em todo o mundo, que dependerão, para serem resolvidos, de mudanças políticas e estruturais profundas.

É a política de novo, sempre ela, sempre fundamental. Meditamos, meditamos e chegamos à política. A única que pode produzir milagres, como diria a sabedoria de Hannah Arendt. Eu continuo a acreditar no milagre da política. Sem ela, é a barbárie.

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