Presidente Lula comenta sobre crise nos EUA e economia no Brasil; Confira a entrevista

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República.

Lula: nós liberamos R$ 100 bilhões do compulsório, para irrigar o sistema financeiro. Logo em seguida, nós fizemos com que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal agilizassem ainda mais a liberação de crédito.

Confira entrevista coletiva concedida pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT/SP), no Centro Cultural Banco do Brasil, em 21 de outubro de 2009.

Jornalista: Presidente, é o seguinte: é correto classificar de marolinha uma crise que gerou desemprego, redução de investimentos e que derrubou o crescimento da economia, que estava na casa dos 5% ao ano para 1% em 2009, isso no cenário mais otimista?

Presidente: Olha, primeiro, eu estou convencido de que foi correto. Veja, nós temos que separar a crise…

Jornalista: Foi marolinha, então…

Presidente: …nós temos que separar a crise em dois momentos. O primeiro momento é que nós passamos, até o mês de setembro de 2008, discutindo a crise do subprime, quando ainda não tinha o problema dos bancos. Até esse momento nós discutimos no Brasil, com vários especialistas e com especialistas também de outras partes do mundo, que o Brasil sentiria muito pouco a crise, por algumas razões: porque a economia estava sólida, porque nós tínhamos diversificado as nossas exportações e porque os bancos brasileiros eram bancos que tinham muito maior solidez e muito maior controle do Banco Central.

Jornalista: Aí veio o Lehman Brothers …

Presidente: Aí, o que aconteceu? Quando veio o Lehman Brothers, aconteceram duas coisas graves. Primeiro, o dinheiro desapareceu no mundo. Só para você ter uma ideia, uma empresa como a Petrobras, que sempre pegou dinheiro no exterior, passou a concorrer com os bancos brasileiros, inclusive com a Caixa Econômica Federal, pegando empréstimos que seriam destinados a pequenas e médias empresas brasileiras. Esse foi um fenômeno da quebra do Lehman Brothers.

Jornalista: Ali não foi um tsunami, não? O Meirelles disse isso em uma entrevista: foi uma marolinha, virou um tsunami e voltou a ser uma marolinha.

Presidente: Veja, mas deixa eu lhe falar uma coisa. É que no Brasil, mesmo quando aconteceu essa questão dos créditos, por que aqui as coisas não aconteceram como aconteceram em outras partes do mundo?

Jornalista: Por quê?

Presidente: Porque nós tomamos medidas imediatas. Imediatamente, nós liberamos R$ 100 bilhões do compulsório, para irrigar o sistema financeiro. Logo em seguida, nós fizemos com que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal agilizassem ainda mais a liberação de crédito. Fizemos o Banco do Brasil comprar carteiras de bancos menores que estavam prejudicados, fizemos o Banco do Brasil comprar a Nossa Caixa, em São Paulo, e comprar 50% do Banco Votorantim. E por que nós fizemos isso? Porque era preciso que os bancos públicos entrassem em outra fatia do mercado. Eles não tinham expertise. Então, nós precisávamos comprar para começar a financiar, por exemplo, carro utilizado [usado]. Uma das coisas que eu tenho dito a minha inconformidade nos debates com os empresários – você já deve ter assistido – é que houve nos meses de novembro e dezembro uma parada brusca de alguns setores da economia, na minha opinião, desnecessária.

Jornalista: Então, deixe-me fazer uma pergunta para o senhor. Em 2007, quando eu fiz a entrevista com o senhor, o senhor disse que tinha aprendido que era importante governar também para a burguesia. Uma visão diferente da época em que era sindicalista, que tinha um lado que tinha que governar para todo mundo. Mas falou que a burguesia brasileira era uma burguesia que sempre queria mais, e que o senhor tinha consciência de que ela estava ganhando dinheiro como nunca no seu governo e que não tinha preconceito em relação a ela. Durante a crise econômica, nesse momento, de novembro e dezembro, o que o senhor achou do papel da burguesia brasileira?

Presidente: Veja, eu estava exatamente dizendo isso. O que aconteceu? Alguns setores empresariais resolveram colocar um breque de forma muito, mas muito rápida, sobretudo se você começar pelo setor automobilístico, que seguia orientação das matrizes, que estavam em uma situação muito delicada. Tinham um estoque razoável, nós estávamos em uma situação privilegiada de produção e de venda de carro, de repente, a indústria automobilística parou. Ora, quando a indústria automobilística para, para uma cadeia produtiva que representa 24% do PIB industrial brasileiro e outros setores que tinham, inclusive, já empréstimos assegurados com o BNDES pararam, porque ninguém sabia o que ia acontecer. Ora, quando isso aconteceu, o que nós fizemos? Nós resolvemos tomar as decisões que tínhamos que tomar aqui. Fizemos as desonerações que tínhamos que fazer, fizemos a liberação do financiamento, o Meirelles colocou dinheiro da nossa reserva para facilitar os nossos exportadores e depois nós descobrimos uma outra coisa grave, que eram os derivativos feitos por algumas empresas que não pareciam que faziam derivativos. E aí foi um outro problema que nós tivemos que conversar com empresa por empresa, cuidar de discutir como financiar, como evitar que algumas empresas quebrassem e colocamos o BNDES em ação.

Jornalista: Presidente, os bancos privados secaram o crédito. A Vale e a Embraer demitiram de imediato aí. Foi um comportamento à altura do País naquele momento?

Presidente: Não foi. Na minha opinião foi precipitação do setor empresarial que se tivesse tido a tranquilidade que o governo teve, se tivesse ouvido o pronunciamento que eu fiz dia 22 de dezembro ou dia 23, se não me falha a memória,…

Franklin Martins: 22

Presidente: ..em que eu fui para a televisão contraditar a tese de que as pessoas não iam comprar porque tinham medo de perder o emprego, eu fui dizer que eles perderiam o emprego exatamente se não comprassem…

Jornalista: E o senhor comprou alguma coisa nesse período?

Presidente: Lógico.

Jornalista: O que o senhor comprou?

Presidente: Comprei geladeira nova. Bem, então, Kennedy, veja, o dado concreto é que se confirmou aquilo que a gente disse que ia acontecer.

Jornalista: Mas ainda sobre a burguesia. Qual a sua opinião hoje sobre a burguesia brasileira e o comportamento dela na crise, Presidente?

Presidente: Eu, Kennedy, eu desejo, eu primeiro desejo… eu não utilizo mais a palavra burguesia… ficou uma coisa do passado.

Jornalista: O grande capital nacional?

Presidente: Sabe, o capital nacional, não precisa nem ser o grande. Sabe, o capital nacional…

Jornalista: Qual a sua opinião sobre o comportamento do capital nacional naquele momento?

Presidente: Veja, o que eu quero, o que eu quero… é que tem setores diferenciados, muitos setores. Você não pode, você não pode colocar todo mundo.

Jornalista: No mesmo barco… Está bom.

Presidente: Você tem, por exemplo, o setor automobilístico que é dinâmico, mas que depende da orientação da matriz. Como a matriz estava em uma situação muito delicada, a orientação recebida aqui era para colocar o pé no breque. Você tem o setor siderúrgico, que tinha 60% da sua produção para exportação, que de repente minguou. Você tinha a Vale de Rio Doce que exportava quase tudo que produz de minério, só 10% ou 12% é vendido aqui dentro, o resto é tudo exportado, ora para China, ora para a Europa. Na hora em que cai a China, então, houve efetivamente um breque.
O que me deixou decepcionado é que as pessoas deveriam ter tido a paciência que era necessário ter, para a gente ver o tamanho do buraco que ia ficar. Ora, quando nós dizíamos que o Brasil…

Jornalista: Se acovardaram (incompreensível) .

Presidente: Quando nós dizíamos que o Brasil seria o último a entrar na crise e seria o primeiro a sair é porque nós estávamos convencidos das possibilidades do Brasil e, mais ainda, nós estávamos convencidos do potencial do mercado interno brasileiro. Há anos, Kennedy, eu venho dizendo para a indústria automobilística: o problema do Brasil não é o custo final de um carro, o problema do Brasil, do gosto da maioria do povo brasileiro é saber se a mensalidade que ele vai pagar cabe dentro do seu holerite. Se couber, ele compra. Bom, o que está acontecendo agora? Agora, está acontecendo o crescimento [por] vários meses consecutivos, tanto da produção, quanto da venda, do comércio… e vai continuar vendendo muito mais. Eu estou há três anos, Kennedy, tentando convencer a indústria automobilística de que era preciso mudar a situação da venda de caminhões. Caminhões são tratados como se fossem… como se diz?

Franklin Martins: Bem de consumo.

Presidente: Não. É um bem…

Franklin Martin:Investimento. É um investimento.

Presidente: A lei não permite que o dono de um caminhão possa alienar o caminhão para fazer seguro. A quantidade de prestações era pouca, eram caras, e o seguro era muito caro. Eu vinha dizendo: nós precisamos encontrar um jeito. E criamos um programa que somente agora é que está dando resultado.

Jornalista: Facilitar para o cara a compra do caminhão.

Presidente: Nós temos que dizer o seguinte: você pode comprar um caminhão, que o seguro e a prestação serão parte do que você vai ganhar, e você ainda vai ter um dinheiro para sobreviver. O que está acontecendo agora é que os caminhões estão bombando. Quando em julho do ano passado nós lançamos o programa Mais Alimentos e fizemos um programa de financiamento de R$ 25 bilhões para tratores de até 78 cavalos, hoje esses tratores são responsáveis por 70% da produção de tratores no Brasil, em uma demonstração de que não só nós estávamos certos na nossa análise, como nós estávamos certos de que o Brasil estava mais preparado para sair da crise. Hoje esse é um fato consagrado, esse é um fato consagrado. O mundo inteiro, os especialistas, os empresários, os governos e os analistas são unânimes em afirmar que o Brasil hoje é o país que melhor está preparado e o que melhor enfrentou a crise.

Jornalista: Presidente, tem aí uma decisão para ser tomada, que é o IPI para a linha branca. O senhor vai prorrogar até dezembro, total ou parcialmente, para o cidadão usar o 13º dele com uma sensação de ganho, ou não?

Presidente: Kennedy, você percebe… Eu queria só pedir a compreensão para uma coisa. Essas coisas, a gente não diz que sim nem que não, com antecedência.

Jornalista: Então, fale em off.

Presidente: Eu vou dizer por que a gente não diz nem que sim e nem que não. Porque se eu disser agora que uma coisa vai ser prorrogada em dezembro, as pessoas que iam comprar agora deixam para comprar no ano que vem.

Jornalista: Não, mas vai usar o 13º…

Presidente: As pessoas não têm pressa. Então, veja, o que nós precisamos é dar liberdade ao Ministério da Fazenda para que, acompanhando a produção, a geração de empregos e as vendas, possa tomar a decisão no momento certo.

Jornalista: Mas o senhor tem simpatia pela prorrogação?

Presidente: Tanto que eu tenho simpatia, que eu fiz a desoneração. A verdade é a seguinte: nós tomamos todas as medidas que era possível tomar para que a gente não permitisse que o Brasil chegasse à situação do mundo desenvolvido.

Jornalista: Já entendi, vai prorrogar. Já entendi, vai prorrogar. Presidente, com o dólar no patamar de R$ 1,70 e juros ainda altos, na comparação com outros países, o senhor não teme que possa haver uma crise cambial ainda no seu governo, em 2010, ou legar essa bomba-relógio para o seu sucessor?

Presidente: Você sabe que eu nunca trabalhei com os juros altos, tendo como parâmetro outros países.

Jornalista: Mas o juro brasileiro é alto, na comparação. E o senhor reclama.

Presidente: Eu sei, mas eu trabalho em comparação com o que a gente era.

Jornalista: Tá, isso é verdade.

Presidente: Em vez de ficar achando que a calça do outro é apertada, eu vejo a minha quando eu ponho, de manhã, não fico olhando a dos outros. A verdade é que o Brasil tem a menor taxa de juros, de muitas décadas. Se você descontar…

Jornalista: Mas não podia estar menor?

Presidente: Poderia, se você descontar a inflação nós estamos aí com quatro, quatro e pouco por cento de juro real. Há muitas décadas o Brasil não tinha esse prazer.

Jornalista: Mas o certo…

Presidente: Segundo, segundo…

Jornalista: Mas, deixa eu falar com o senhor também …

Presidente: O grande problema, o grande problema nosso hoje não é apenas a taxa de juros, o grande problema hoje é o spread bancário, que ainda está alto.

Jornalista: E o governo tem martelado

Presidente: Que ainda assim, que o governo tem trabalhado para que ele seja reduzido.

Jornalista: Agora, uma crítica do Serra…

Presidente: Mas deixa eu falar a questão do câmbio, depois eu respondo, a crítica do Serra é menos importante para mim e para você e para o povo brasileiro. A questão do câmbio veja, quando nós tomamos a decisão… o câmbio sempre foi uma preocupação nossa por quê? Porque se você um dia for Presidente da República, você vai sentar naquela cadeira, vai entrar uma turma na tua sala reclamando que o dólar está baixo porque ele é exportador e que ele está perdendo. Quando ele sai, entra outra turma que são compradores, importadores, e acham que o dólar está maravilhoso e que é preciso manter assim. Aí entra o ministro da Economia, o presidente do Banco Central e falam: é maravilhoso o dólar baixo porque controla a inflação. Então, o que nós estamos tomando de medida neste momento, veja. Antes, antes, que aconteça uma super entrada de dólares no Brasil reduzindo muito o dólar, criando problemas para nós na balança comercial em déficit de conta de pagamento e que algumas empresas exportadoras comecem a ter problema, nós demos um sinal com o IOF, demos um sinal para ver se a gente equilibra esse tipo de coisa.

Jornalista: Os especialistas dizem que vai ser inócuo.

Presidente: Veja, se for inócuo nós mudamos, mas ninguém pode…

Jornalista: O senhor não descarta tomar uma outra medida…

Presidente: A verdade é a seguinte: você tem hoje uma disputa. Você tem o setor produtivo totalmente favorável e você tem o setor financeiro totalmente contrário. Isso é muito importante porque significa que o governo está no caminho do meio. E aí é mais fácil a gente acertar.

Jornalista: Queria vir na crítica do Serra.

Presidente: Vamos falar do Serra.

Jornalista: O Serra é o seguinte: a crítica básica dele é a seguinte: que durante a crise, o Banco Central jogou fora um bilhete premiado, que era o quê? Reduzir os juros sem o custo que traz uma redução de juros. Seria muito fácil e poderia ter sido reduzido muito mais e, que agora, a crise acabou e o governo ainda está com uma taxa muito alta e provavelmente vai ter que aumentar, ou seja, jogou fora um bilhete premiado.

Presidente: Olhe, eu vivi os dois lados: o lado de lá, o que a gente tem facilidade de dar palpite, de achar tudo, porque quando você é oposição você acha, você pensa, você acredita; quando você é governo você faz ou não faz. Você não acha, não pensa, não acredita, você toma decisão. O Serra participou do governo oito anos, eles tiveram condições de tomar decisões e não tomaram. Então, obviamente, que qualquer um que for presidente amanhã tem o direito de tomar as posições que bem entender.

Jornalista: O senhor acha que a política está correta?

Presidente: Mas as posições elas são tomadas na mesa e você sabe o seguinte: é como jogador bater pênalti, brincando todo mundo marca gol. Na hora do pega para capar…

Jornalista: O Zico vai lá e perde o pênalti.

Presidente: Até pessoas como o Zico e como o Sócrates perderam pênalti.

Jornalista: Beleza. Presidente, uma outra crítica que é feita aí pela oposição, especialistas, é o aumento de gastos públicos no segundo mandato. Aí qual é a crítica? Que o senhor aumentou muito o custeio, tem despesas permanentes e que isso vai pressionar o caixa do governo no futuro e que vai ser mais difícil abaixar os juros, que na verdade isso, o senhor está deixando uma herança maldita.

Presidente: O Kennedy, querido, queria te pedir o seguinte: depois você poderia pegar o Paulo Bernardo e ele te dá os números do que nós vamos discutir aqui. Mas a verdade é que a política fiscal do governo e as contas do governo nunca estiveram tão boas na história deste país.

Jornalista: Agora, na crise, teve uma política anticíclica que teve um custo.

Presidente: Essa crise anticíclica [crise financeira mundial] fez com que o governo deixasse de arrecadar uma enormidade de dinheiro, mas é o preço que a gente tem que pagar. Agora, compare o que nós colocamos de dinheiro na crise e o que nós fizemos de desoneração com o dinheiro que a Angela Merkel teve que colocar, ou melhor, que os países ricos tiveram que colocar. Foram trilhões de dólares que foram colocados para ajudar o sistema financeiro, coisa que nós não precisamos fazer.

Jornalista: Saiu barato, o senhor acha?

Presidente: Eu acho, eu acho. Veja, este ano – nós estamos no mês de outubro – em setembro nós atingimos 932 mil empregos com carteira profissional assinada.

Jornalista: Já se recuperou os empregos que perdeu na crise.

Presidente: Já recuperamos os empregos, muito mais do que os que perdemos na crise.

Jornalista: A economia vai fechar o ano crescendo quanto, Presidente?

Presidente: Vamos chegar a 1 milhão de empregos criados, até o final do ano. Veja, na contramão do mundo desenvolvido.

Jornalista: O presidente Lula, que PIB ele está prevendo para 2009?

Presidente: Eu acho que o PIB pode ficar… ele vai ficar positivo, pode ficar um, pode ficar um e pouco, ele vai ficar positivo.

Jornalista: O senhor acha que é entre um e um e pouco. O senhor está apostando?

Presidente: Eu estou apostando. Agora, veja, eu posso te garantir, se não houvesse a brecada brusca entre dezembro e janeiro, nós poderíamos estar crescendo 2,5%, com uma certa tranquilidade. O que é importante é o sinal para 2010.

Jornalista: O senhor acha que aquela tremida que o empresariado brasileiro deu, então, sacrificou o crescimento do ano? Podia ter sido melhor, Presidente?

Presidente: Não, rapaz. Veja, eu acho que o empresário brasileiro foi vítima de uma circunstância.

Jornalista: Mas aquelas decisões sacrificaram o crescimento…

Presidente: O pânico criado no mundo fez com que todo mundo acordasse, de manhã, achando que ia acabar o mundo.

Jornalista: O pânico sacrificou riqueza à toa, o senhor acha?

Presidente: Eu acho que o pânico precipitou decisões, de recuo de setores que… Veja, eu chamei vários setores empresariais aqui e conversei com vários deles. Eu falei: olhem, o Brasil tem que aproveitar esse momento de crise. Nós temos dinheiro no BNDES, as empresas que tiverem dinheiro em caixa…Nós temos que fazer investimento agora, porque quando a crise acabar nós estaremos preparados para ocupar um outro patamar no mundo. O momento não é de ficar com medo, o momento é de investir, diferentemente dos Estados Unidos. Eu jamais demoraria o tanto que foi demorado nos Estados Unidos para salvar a GM.

Jornalista: Presidente, para falar do Aécio Neves. O Aécio Neves vive atacando o inchaço da máquina pública e diz que o senhor faz um governo para a companheirada. Como é que o senhor responde?

Presidente: É que tem duas concepções de ver o Brasil. Tem pessoas que governam o Brasil para o imaginário de uma pequena casta, e tem pessoas que governam o Brasil pensando em envolver 190 milhões de brasileiros. Eu estou convencido de que nós quebramos aquele preconceito que tinha, que se dizia que “primeiro tem que enxugar a máquina, tem que fazer o país crescer, para depois distribuir”. Eu vivi isso durante quatro décadas. Quando nós resolvemos fazer política social é que a gente queria dizer: é possível a gente crescer e distribuir, concomitantemente. E o que aconteceu é que nós criamos uma nova casta de consumidores no Brasil, que está ajudando a indústria, que está ajudando o comércio.

Jornalista: Que é o motor da economia, né?

Presidente: Só para você ter uma ideia, só o programa Luz para Todos, 87% das pessoas que receberam a luz, compraram televisão. Oitenta e poucos por cento compraram geladeira, e quase 50% compraram aparelho de som, fora liquidificador. Então, o que nós fizemos foi colocar uma imensidão de brasileiros e brasileiras, que antes eram marginalizados, que só serviam para ser analisados na época da eleição, ou como dado estatístico do IBGE, como cidadãos brasileiros sendo levados em conta.

Jornalista: Perfeito. Presidente, o senhor recuou no envio de um projeto para taxar a poupança acima de R$ 50 mil, cobrando Imposto de Renda. Ia enviar ao Congresso, e desistiu de enviar. E também mandou normalizar a devolução da restituição do Imposto de Renda. Isso autoriza a conclusão de que o presidente Lula não vai tomar mais medidas impopulares, até o final do mandato dele, porque já tem uma lógica eleitoral contaminando as decisões do governo?

Presidente: Ô querido, primeiro não faça injustiça. Não faça injustiça, querido. Nós, não, não…..adiamos a indicação do Projeto de Lei …. Veja.

Jornalista: Vocês iam enviar um Projeto…

Presidente: Não, não, nós decidimos o que nós íamos fazer. Nós decidimos o que íamos fazer. Acontece que, do ponto de vista da Fazenda, foi em março que nós decidimos.

Jornalista: Isso, lá atrás.

Presidente: E foi uma coisa por unanimidade. Tanto é, que a oposição que imaginava pegar a poupança como um “cavalo de batalha”, ficou sem discurso, porque nós tomamos a decisão. O que aconteceu? Em vez de a Fazenda mandar na hora em que nós decidimos, como era uma coisa que só ia valer para 2010, esperou para mandar agora.

Jornalista: Então vai mandar ainda?

Presidente: Vai mandar, vai mandar. E, obviamente que nós poderemos discutir as outras bases… Se tivessem mandado na hora já tinha sido aprovado e teria sido aquilo que a gente tinha decidido.

Jornalista: Então vai mandar?

Presidente: Vai mandar, vai mandar.

Jornalista: E a questão da restituição do Imposto de Renda, da ordem para normalizar?

Presidente: Veja, na verdade, não havia nada de anormal. É que…

Jornalista: É uma dificuldade de caixa..

Presidente: É que a gente analisa as coisas apenas sem olhar o passado, sem olhar as coisas que aconteceram. No Brasil nós já tivemos vários momentos em que o Imposto de Renda atrasou. No nosso governo nós já tivemos momentos em que a gente adiantou.

Jornalista: O senhor não mandou o Guido Mantega pagar?

Presidente: Lógico, porque tem que pagar, Ou seja, nós precisamos de consumo. Nós precisamos que o povo tenha dinheiro para comprar. Então, eu falei para o Guido: Guido, nós precisamos de dinheiro para comprar, o povo tem que ter dinheiro em dezembro.

Jornalista: Beleza. Presidente, em 2008, o senhor convidou o economista Luiz Gonzaga Beluzzo para presidir o BC. Por que pensou em tirar o Meirelles do BC?

Presidente: Primeiro que eu não convidei.

Jornalista: Mas conversou com ele, sim, para presidir o BC.

Presidente: Eu não convidei.. Eu converso todo mês com Beluzzo. Antigamente eu conversava só sobre economia, agora eu converso sobre economia e sobre esporte. Eu não conversei…

Jornalista: (Incompreensível)

Presidente: É importante ter claro o seguinte: todas as polêmicas que existiram contra o Meirelles, elas nunca passaram pela minha cabeça.

Jornalista: Um dia o Meirelles me deu uma entrevista e disse que discutiu com o senhor a possibilidade de sair.

Presidente: Ela nunca, nunca me passou pela cabeça.

Jornalista: Mas o Meirelles disse que discutiu com o senhor a possibilidade de sair.

Presidente: Mas o Meirelles tem o direito de sair. Ora, se ele quiser ser candidato a alguma coisa…

Jornalista: No ano de 2008, Presidente, ele disse que discutiu com o senhor a possibilidade de sair, falou em “on” para mim.

Presidente: Não discutiu, não discutiu.

Jornalista: Não discutiu?

Presidente: Não discutiu comigo.

Jornalista: Ele disse que teve com o senhor e falou: olha Presidente…

Presidente: Não, não discutiu comigo.

Jornalista: Então está bom. Vamos em frente, vamos em frente. Eleições agora. Presidente é o seguinte, uma pergunta que eu escuto muito no PT, é a seguinte. Queria que o senhor respondesse de coração aberto ali. Por que o senhor escolheu a Dilma como candidata, se ela é uma cristã nova no PT, nunca disputou uma eleição e não fez uma discussão no partido para levar em conta nomes do partido, como governadores, o Jaques Wagner, o Marcelo Déda; ministros, como o Patrus Ananias e o Tarso Genro.

Presidente: Olha, não estava em discussão quem era PT mais puro-sangue ou menos puro-sangue. Não era uma questão de sanguinidade que estava sendo discutida, era uma questão de viabilidade política.

Jornalista: Por que a Dilma?

Presidente: Porque a Dilma é, na minha opinião, a mais competente gerente que o Estado brasileiro já teve. A capacidade de trabalho da Dilma, a competência dela e o passado político dela e o presente, me fazem garantir que a Dilma é uma excepcional candidata a presidente da República.

Jornalista: O senhor nunca tinha sido gestor, era um político e virou presidente da República, e está com um governo bem avaliado. Não é um discurso muito tucano, esse, não? Do gestor? É um discurso tucano.

Presidente: Não, não é tucano não. A Dilma, além de ser uma extraordinária gestora, a Dilma é um extraordinário quadro político. Ela é um quadro político excepcional, tem firmeza ideológica, tem compromisso, tem lealdade, sabe o lado em que está. Por isso ela foi escolhida.

Jornalista: Está preparada para presidir o Brasil?

Presidente: Muito preparada para presidir o Brasil, muito preparada. E hoje…

Jornalista: Essa coisa de que ela é muito dura no trato pessoal…

Presidente: … e hoje conhece o Brasil como ninguém.

Jornalista: O senhor é uma pessoa de trato pessoal muito bom, ou seja, o senhor é muito habilidoso. O senhor também xinga, fica bravo de vez em quando, e tudo. Mas…

Daqui a pouco vai defender o terceiro mandato, hein, Kennedy?

Jornalista: Não, mas…

Presidente: Vamos lá, vamos lá.

Jornalista: Quem está falando em terceiro mandato é a Dilma, aqui. Ela eleita, é o terceiro mandato do Lula.

Presidente: É exatamente o contrário, Kennedy.

Jornalista: Estão dizendo que a Dilma é o terceiro mandato do Lula. Por que é exatamente o contrário?

Presidente: Deixe-me falar uma coisa. Porque uma mulher que tem a personalidade que a Dilma tem, e eu conheço bem a personalidade dela, vai exigir que eu tenha o bom senso que eu tive quando elegi o Meneguelli presidente do Sindicato de São Bernardo e quando elegi o Zé Dirceu presidente do PT: rei morto, rei posto.

Jornalista: Sair de cena?

Presidente: A Dilma, no governo, ela tem que criar a cara dela, o estilo dela e o jeito dela governar. Rei morto, rei posto, meu filho.

Jornalista: Voltando a falar desse estilo, de que ela é muito dura, de que falta habilidade, que às vezes massacra algumas pessoas. Isso não é ruim para um presidente da República?

Presidente: O Brasil já teve muitos governantes muito maleáveis, muito… e o Brasil não deu certo. Veja, você tem que ser bom, afável e duro em função de cada circunstância. Uma mulher, por si só, já tem a necessidade de ser um pouco mais retraída que um homem, pela circunstância de gênero, pelo preconceito que existe contra a mulher. Mas eu vou dizer para você uma coisa: a Dilma vai surpreender este país. Quem pensa que a Dilma é uma mulher grosseira, uma mulher dura, depende… Se você, na sua casa, for com uma gracinha que desgoste a sua mulher, ela vai te dar um tranco; mas se a conversa for séria, ela não vai dar. E a Dilma tem toda a clareza disso.

Jornalista: Presidente, em 2002 o senhor meio que tomou um banho de loja, mudou a imagem, ajeitou o cabelo, dente, esse tipo de coisa toda, tinha aquela coisa do Duda Mendonça de se apresentar como “Lula, Lulinha paz e amor”. A Dilma vai precisar fazer uma mudança de imagem dela?

Presidente: Veja, ela não precisa, por esse aspecto ela não precisa. Veja, cada um de nós, cada um de nós tem um estilo. Eu, eu não mudei a minha cara, eu apenas comprei um terno novo para a campanha de 2002. Não é possível a pessoa mudar a cara.

Jornalista: Perfeito.

Presidente: A pessoa aprimora. Eu vou te contar um detalhe: naquela campanha, por exemplo, eu passava o tempo inteiro falando, a minha vida inteira, vou fazer reforma agrária radical, ampla e radical sob o controle dos trabalhadores. Nós fizemos uma pesquisa e 85% do povo achava que a reforma agrária tinha que ser pacífica. Eu levei mais de 15 dias para que a minha boca pudesse proferir a palavra reforma agrária tranquila e pacífica. Essas mudanças têm que ter.

Jornalista: É, tem que ter.

Presidente: Algumas coisas que a gente fala às vezes a gente pensa que está agradando e não bate com aquilo que o povo está pensando.

Jornalista: Algum ajuste tem que ter porque é natural que haja.

Presidente: Lógico, lógico.

Jornalista: Presidente, o senhor defende aí uma coalizão, uma disputa plebiscitária, não é? Se a coalizão é tão importante, porque o senhor faz tanta questão que o candidato da coalizão seja do PT e não de um partido aliado? Por que a Dilma e não o Ciro Gomes?

Presidente: Veja, porque seria inexplicável para uma grande parte da sociedade brasileira, o maior partido de esquerda do País, que tem o Presidente da República atual não ter um sucessor, apenas por isso.

Jornalista: Presidente, o senhor fechou ontem a aliança com o PMDB?

Presidente: Não, eu não fechei, veja, eu apenas patrocinei uma reunião dos líderes do PT com os líderes do PMDB, que fizeram uma nota e divulgaram para a imprensa ontem à noite.

Jornalista: Eles estão falando em um pré-acordo e que o PMDB vai ter a Vice [Presidência].

Presidente: …de que, de que, de que o PMDB… é isso mesmo?
Jornalista: É isso mesmo.

Presidente: De que, de que vai haver um acordo nacional e que a chapa será PT/PMDB.

Jornalista: Temer é um nome para vice, Presidente?

Presidente: Veja, eu não posso dar palpite porque é o seguinte: quem discute a Vice é o candidato a presidente.

Jornalista: Vou ter que falar com a Dilma.

Presidente: Não darei palpite nem se perguntarem se vai ser a dona Marisa a minha vice, porque quem escolhe é o candidato.

Jornalista: Agora, Presidente, dizem que o senhor tem um desejo muito grande ainda que o Ciro possa vir a ser o vice da Dilma e que o PMDB apóie essa equação aí. O senhor acha possível viabilizar isso?

Presidente: O Presidente da República não tem desejo. Ele faz o que é possível na política.

Jornalista: O senhor acha que é possível fazer isso na política?

Presidente: Eu não sei, na política tudo pode acontecer ô… Veja, o Ciro, por exemplo, tem todas as condições de ser candidato a presidente. Você sabe Kennedy, que eu sou um homem feliz, eu digo isso alto e em bom som: feliz deste País que tem a Dilma, que tem o Ciro, que tem o Serra, que tem o Aécio, que tem a Marina e que a Heloísa Helena, e que possa ter outros. Feliz deste País porque nesse espectro não tem ninguém de extrema direita, não tem ninguém que você possa considerar de direita, conservador ao extremo. Todos têm história. Então, isso é um ganho político para este País extraordinário.

Jornalista: Perfeito.

Presidente: Que não sou apenas eu que tenho (incompreensível), não. Eu acho que Fernando Henrique Cardoso tem importância nisso pelo fato de eu ter assumido a Presidência da República, foi uma transição excepcional. Então, nós estamos construindo no Brasil um jeito de fazer política e o que é, o que é o resultado é que muita gente importante com espectro de esquerda, de centro esquerda está disputando a presidência do País. Eu acho isso uma coisa fenomenal. Nós não temos mais a extrema direita e a extrema esquerda.

Jornalista: Presidente se o Ciro se mantiver emparelhado com a Dilma, ou à frente da Dilma, nas pesquisas sobre a sucessão presidencial. Que argumento que o senhor vai usar, lá em março, para tentar convencê-lo a desistir de ser candidato a Presidente e disputar o governo de São Paulo?

Presidente: Mas eu não vou tentar convencê-lo.

Jornalista: O senhor não acha que o Ciro tem que ser candidato em São Paulo, não?

Presidente: Veja, eu não vou tentar convencê-lo. Não, não é verdade….

Jornalista: Mas é o senhor que patrocina essa articulação…

Presidente: Não, não é verdade. Eu não patrocino. O Ciro pertence a um partido político pelo qual eu tenho um profundo respeito, e que o PSDB tem os mesmos direitos do PT. Eu sou o único cidadão brasileiro, que não tem autoridade moral para pedir para alguém não ser candidato, porque eu fui candidato a vida inteira.

Jornalista: Perfeito.

Presidente: Eu só cheguei a Presidente porque eu teimei. Todo mundo….Muita gente achava que eu tinha que desistir, Então, eu jamais farei isso.

Jornalista: Presidente, como é que o senhor explica ter um governo tão popular, mas nas pesquisas está liderando para a sucessão a oposição? Qual é a razão disso?

Presidente: Porque nós ainda não temos candidato. Veja ..

Jornalista: Mas é o que, é recall, é…

Presidente: Lógico que é recall, lógico que é recall.

Jornalista: O senhor acha que isso não é intenção de voto consolidado?

Presidente: Deixa eu lhe falar, deixa eu lhe falar, O fato de você ter um candidato da oposição, o governador de São Paulo, que já foi candidato a presidente da República, que já foi senador, que já foi ministro da Saúde, você tem uma cara que é muito conhecida no Brasil inteiro, sabe. Obviamente que também a transferência de voto não é uma coisa como um passe de mágica.

Jornalista: Mas o senhor acha que o senhor vai transferir votos para a Dilma?

Presidente: Eu acho que nós vamos trabalhar para que a gente possa transferir todo o prestígio angariado pelo governo e pelo presidente da República para a nossa candidatura.

Jornalista: O senhor falou aí que não tem candidato, mas todo dia está a Dilma nos telejornais com o senhor, viajando, aparecendo. O Gilmar Mendes falou que até é um vale-tudo …

Presidente: Me diga uma coisa, ô Kennedy, me diga uma coisa. Você passa o tempo inteiro plantando a sua plantinha, a sua rocinha. É justo que quando ela começa a ficar no ponto de colher, você vai colher. Ora, você sabe o sacrifício que nos fizemos para fazer o Brasil voltar a investir em infraestrutura. Nós não tínhamos dinheiro, Kennedy. Se a gente fosse olhar o saldo de caixa do governo, para a gente fazer o PAC, a gente não teria feito. Foi uma decisão que nós deveríamos priorizar investimos e infraestrutura e que nós iríamos arrumar dinheiro de onde fosse necessário.

Pois bem, a Dilma, a Dilma, essa mulher, ela trabalha aqui, das 8 da manhã, das 9 da manhã, às três da manhã, às 4 da manhã. Quando a Dilma era ministra de Minas e Energia, às vezes 3 e meia da manhã ela estava comendo lanche no Ministério com a Graça, com a Erenice, para fazer as coisas andarem, porque é difícil fazer as coisas andarem. Ora, ninguém pode, ninguém pode, sabe, ser contra a Dilma ir nas obras comigo. Até porque, se ela for candidata, a lei determina que tem um prazo em que ela não pode mais ir. Até não chegar a lei, a Dilma é governo. Sabe, então eu acho que esse é um debate pequeno.

Jornalista: O Gilmar Mendes disse que é um vale-tudo.

Presidente: Esse é um debate pequeno, Sabe, esse é um debate pequeno, que eu sinceramente acho que cada brasileiro, seja Presidente, ou Suprema Corte, ou o mais humilde, tem o direito de falar o que bem entender, mas tem uma lógica, sabe, tem uma lógica. Nós vamos continuar inaugurando obras. Porque tudo que a minha oposição quer é aquilo que eu não fizer, eles vão mostrar na televisão. E aquilo que eu fizer, eu tenho obrigação de inaugurar. Eu sei qual foi o sacrifício para a gente chegar aonde nós chegamos.

Jornalista: Presidente, o senhor teme uma chapa Serra-Aécio?

Presidente: Não.

Jornalista: O senhor pediu para o Aécio não ser vice do Serra?

Presidente: Não, não, não.

Jornalista: O senhor não subestimou a Marina, Presidente, que deixou o PT para, segundo ela, construir uma nova utopia no PV?

Presidente: Se ela acredita nisso, não sou eu que vou desmentir. Eu nunca subestimei a Marina porque adoro a Marina como pessoa humana. Tenho um carinho especial por ela, fomos militantes juntos durante 30 anos. Ela me pediu demissão do governo em janeiro do ano passado, e eu não dei. Agora, na medida em que a pessoa quis sair do governo e quis sair do partido, é um problema dela.

Jornalista: Ela não pode ser considerada mais lulista e mais petista que a Dilma? Ela não é um Lula de saias, pela história pessoal?

Presidente: Não. Eu tive muitos companheiros que, ao longo da história, deixaram o PT. Tive outros, que entraram. Essas coisas, Kennedy, não têm muita explicação, a não ser a questão da liberdade das pessoas militarem onde quiserem. A Marina não é uma criança, ela tem uma vida política. Ela foi, por cinco anos, ministra do meu governo. Na hora em que ela sai do governo, achando que estava saturada a participação dela no governo, volta para o Senado, acha que está saturada com o Senado também, e quer fazer uma outra coisa, é um direito dela. Eu só tenho que desejar para ela toda a sorte do mundo, que Deus a ajude na vida. É uma pessoa boa.

Jornalista: Presidente, na sua opinião, qual vai ser o principal tema de interesse do eleitor na eleição do ano que vem?

Presidente: Olhe, nós estamos vivendo um momento, eu diria, mágico no Brasil, mágico. Eu digo mágico, Kennedy, porque eu fui dirigente sindical, eu estive do outro lado a vida inteira e eu nunca vivi o momento que a gente está vivendo, em que você tem uma combinação de fatores tão extraordinários, de coisas acontecendo no Brasil que eu sou o mais otimista de que vai dar tudo certo. Então, a gente não precisa discutir mais inflação, não precisa discutir mais dívida externa, não precisa discutir mais dívida interna, não precisa discutir mais reservas. Eu me lembro do dia em que eu estava na Índia, em 2004, e a Índia atingiu US$ 100 bilhões em reservas. Eu ficava pensando: no dia que o Brasil tiver US$ 100 bilhões em reservas, o Brasil vai para o paraíso. Hoje nós temos…

Jornalista: Mais de 200.

Presidente: … duzentos e trinta bilhões em reservas. (incompreensível) ainda com 10 emprestados ao FMI. Então, eu acho que essa eleição vai ser uma coisa importante, porque a discussão da eleição vai se dar sobre o futuro. Educação, ciência e tecnologia, inovação tecnológica… Vai ser uma coisa mais importante, porque as coisas já estão acontecendo. Ainda, com a descoberta do pré-sal nós poderemos desenvolver este país de forma extraordinária, ter um grande pólo petroquímico, ter uma grande indústria naval, ter uma grande indústria petrolífera. Então, vai ser a primeira oportunidade na vida, Kennedy, que os candidatos poderão discutir o futuro, programas concretos do que vai fazer nos próximos dez anos. Eu ontem, quando indiquei o Samuel Pinheiro para ocupar a Secretaria Estratégica, eu disse o seguinte: olha, nós precisamos agora começar a projetar o Brasil de 2022. Agora, com a Copa do Mundo, agora com as Olimpíadas… Nós estamos em uma situação privilegiada. Eu, agora, no ano que vem, entre janeiro e fevereiro, eu vou fazer um PAC 2011-2015. Por que eu preciso fazer? Primeiro, porque nós precisamos começar a elaborar os projetos executivos e colocar na prateleira. Segundo, porque precisamos começar a colocar dinheiro no orçamento para 2011, porque tem Copa do Mundo, porque… e a gente não pode deixar para o governo entrar sem nada no orçamento, e colocar no orçamento de 2012. Eu não vou ser irresponsável. Eu vou preparar, combinar com os governadores. Nós vamos ouvir o Zé Serra, nós vamos ouvir o Aécio, nós vamos ouvir o Eduardo Campos, o Eduardo Braga, vamos ouvir… De Roraima ao Rio Grande do Sul, para que a gente possa já começar a desenhar os principais projetos e começar a colocar dinheiro no orçamento.

Jornalista: Presidente, por que o senhor não abandonou o Sarney, na crise do Senado?

Presidente: Ora, por uma razão muito simples. O PT teve um candidato ao Senado, que foi derrotado. Eu não entendia por que os mesmos que elegeram o Sarney, um mês depois queriam derrotá-lo. Coincidentemente, o vice não era uma pessoa que a gente possa dizer que dá mais garantia ao Estado brasileiro do que o Sarney. A manutenção do Sarney era uma questão de segurança institucional. Você viu que o Senado está calmo, está funcionando. Porque muitas vezes, Kennedy, é preciso que a gente trabalhe com juízo. O que eu acho importante em um presidente da República é que ele… Qualquer cidadão, você, o Franklin Martins, um empresário, qualquer um pode perder a cabeça. Um presidente da República não pode perder a cabeça.

Jornalista: O senhor acha que se o Sarney caísse, ali, acabaria a sua sustentação política no Congresso?

Presidente: Eu acho que se o Sarney caísse… porque teve muita coisa estranha, que eu não vou entrar em detalhes, porque isso acabou. Mas é engraçado, é que o DEM governou a Casa durante 14 anos, na Primeira Secretaria, isso não aparecia. Obviamente que a queda do Sarney era o único espaço de poder que a nossa oposição tinha. E aí iriam querer fazer, em vez de governabilidade, um inferno neste país.

Jornalista: (incompreensível) uma questão de governabilidade?

Presidente: Então, eu acho que foi correta a decisão de manter o Sarney no Senado.

Jornalista: Agora, Presidente, aquela coisa, do papel do Presidente: o senhor chegou a dizer que o Sarney não era uma pessoa comum, não podia ser tratado como um cidadão comum. Isso não é incorreto, em uma democracia em que ninguém está acima da lei? O Presidente falar uma coisa dessas não transmite uma mensagem ruim?

Presidente: É que eu acho que ninguém… é verdade que ninguém está acima da lei. Mas também é importante que a gente não permita a execração das pessoas por conveniências eminentemente políticas. O Sarney foi presidente deste país, e eu acho que os ex-presidentes precisariam ser tratados como ex-presidentes, respeitados, porque essas pessoas foram instituições brasileiras. E eu achava que você não poderia banalizar a figura de um ex-presidente, porque a negação da política, Kennedy, o resultado, o que vem depois da negação da política é pior do que o que a gente tinha. O mundo está cheio de exemplos para a gente poder… A negação do socialismo, feita pelo Gorbachev, deu quem?

Jornalista: O Ieltsin.

Presidente: O que tomava vodca lá. Deu o Ieltsin. O que eu estou querendo dizer… Mas eu estou querendo dizer que a relação com a política é que tem que ser uma coisa mais séria. Não adianta a gente ficar falando mal do Congresso Nacional. O Congresso Nacional é a cara do povo que foi votar no dia 3 de outubro. O que é importante é que a democracia garante que a cada quatro anos você troque.

Jornalista: Agora, Presidente, ainda nessa coisa, o senhor apoiou o Sarney, reatou relações com o Collor, é amigo do Renan, do Jader, recebeu o Delúbio Soares recentemente, lá na Granja do Torto. Todos eles são acusados de práticas irregulares e até de corrupção, alguns deles. Quando o senhor, como presidente da República, se aproxima dessas figuras, as trata com deferência, o senhor não transmite uma ideia de tolerância com o desvio ético?

Presidente: O dia em que você for acusado, justa ou injustamente, enquanto você não for julgado, você terá que ser tratado como um cidadão comum e normal. Não pode ser outro o deferimento. Veja, eu não tenho relação de amizade com muitas pessoas, mas eu tenho relação institucional com as pessoas. As pessoas ganharam eleições e exercem os seus mandatos e, portanto…

Jornalista: Mas o cidadão lá, que admira o Lula, vê aquilo e fala: “puxa, o Lula está abraçado com esses caras”.

Presidente: O cidadão que admira o Lula tem que saber que essa pessoa foi eleita democraticamente, e que o eleitor dessas pessoas é tão bom quanto o eleitor que não votou neles.

Jornalista: Perfeito. Presidente, o senhor trabalhou aí pela reabilitação política do Palocci, e ele foi absolvido lá no Supremo, ou seja, o processo não prosperou, a acusação contra ele, de quebra do sigilo do caseiro. Agora, do ponto de vista político, por uma candidatura majoritária, o senhor acha que o episódio do caseiro Francenildo está superado para o Palocci?

Presidente: O que eu estranho é a malandragem da pergunta: “você trabalhou com o Palocci”…

Jornalista: Pela reabilitação do Palocci.

Presidente: Deixa eu lhe falar uma coisa…

Jornalista: Não é malandragem, não. Eu soube…

Presidente: Primeiro, veja…

Jornalista: O senhor desejava a reabilitação do Palocci, não?

Presidente: Deixa eu lhe falar uma coisa, deixa eu lhe falar uma coisa. Eu desejo… a única coisa que eu desejo é que todos que foram acusados – e eu acho que tem muita gente acusada injustamente, outras podem ser justas – que sejam julgados e que a gente tenha um veredicto. O Palocci teve um veredicto. O Palocci, hoje, não tem mais nenhuma pendência com ele…

Jornalista: Com a Justiça.

Presidente: Com a Justiça. Portanto, o Palocci pode ser o que ele quiser ser.

Jornalista: E com o eleitorado?

Presidente: Aí terá que ser construído. E o Palocci…

Jornalista: O senhor acha que ele pode ser candidato a governador de São Paulo?

Presidente: E o Palocci tem inteligência política suficiente para saber se o momento é de ter uma candidatura ou não.

Jornalista: Qual é a opinião do presidente Lula?

Presidente: Não tenho opinião.

Jornalista: Não tem opinião, não? Está bom.

Presidente: Veja, se você me fizer essa pergunta em março, eu posso ter uma opinião.

Jornalista: Então, está bom. Promessa, essa pergunta eu posso repetir…

Presidente: Eu posso ter opinião. Mas eu acho que o Palocci pode reconstruir a vida dele.

Jornalista: Perfeito. Não, perfeito. O senhor já respondeu. Ok.

Presidente: Porque, veja, o palocci, durante os primeiros anos do meu governo era considerado a pessoa mais respeitada no mundo empresarial, no mundo financeiro.
Jornalista: O Chiquinho dizia que se ele saísse o governo acabava, o senhor lembra?

Presidente: Diziam, diziam. Então, eu acho que o Palocci tem todas as condições. O Palocci, na minha opinião, está quase perto de ser um gênio político e ele vai saber o momento de tomar a decisão que ele tiver que tomar.

Jornalista: Perfeito. Presidente, o seu aliado Ciro Gomes disse que há frouxidão moral – essa é a expressão dele – na hegemonia da aliança PT/PMDB. O senhor é o principal avalista dessa, dessa aliança. Ontem, ele disse o seguinte: “espero que o PMDB entregue o que prometeu – falando da reunião que aconteceu no Palácio da Alvorada com o senhor lá – e espero que os argumentos dessa aliança sejam confessáveis publicamente”. Ou seja, primeira coisa: como é que o senhor responde à crítica do Ciro de que há frouxidão moral em uma aliança capitaneada pelo senhor? E segundo, se teve alguma coisa inconfessável ontem?

Presidente: Veja, a aliança do PT com o PMDB e com os demais partidos, permitiu que a gente tivesse uma governança muito tranquila. Eu acho que eu tive a governança mais tranquila do que a do Fernando Henrique Cardoso, eu acho que eu tive a governança mais tranquila do que a do Sarney, que tinha a maioria do PMDB dentro da Câmara.

Jornalista: É verdade.

Presidente: Porque a governança não é apenas uma juntada de pessoas, é o papel da liderança, e nós, ao fazermos aliança, se for confirmada a aliança com o PMDB, isso será feito um documento público, explícito, para todo mundo saber quais são os compromissos que estão assumidos com o PMDB, com o PC do B, se tiver com o PSDB…

Jornalista: Tudo confessável, tudo ali…

Presidente:… tudo público, tudo público, porque para mim as coisas têm que ser muito explícitas.

Jornalista: Mas, e a questão da frouxidão moral que o Ciro insiste muito?

Presidente: Um… um conceito do Ciro.

Jornalista: O senhor não quer responder?

Presidente: Não, eu estou respondendo. É uma opinião do Ciro.

Jornalista: Não te incomoda?

Presidente: Não.

Jornalista: Não? Um aliado falar que …

Presidente: Não me incomoda porque o Ciro esteve no meu governo…

Jornalista: Ah, ele esteve no seu governo…

Presidente: E ele sabe que a única coisa que não tem aqui é frouxidão moral.

Jornalista: Pois é, mas em 2008 ele me deu uma entrevista, ele falou que tanto o senhor como o Fernando Henrique foram tolerantes com o patrimonialismo, que é aceitar essa prática política de usar o Estado como bem privado, para fazer aliança no Congresso. Ele deu uma entrevista e disse: “no governo Lula, vi um pouco de novo a mesma coisa”.

Presidente: Agora, deixa eu lhe contar uma coisa, deixa eu lhe contar uma coisa: qualquer um que ganhar as eleições, pode ser o maior xiita que tiver neste País ou o maior direitista, ele não conseguirá montar o seu governo fora da realidade política. Entre o que você quer e o que você pode fazer tem uma diferença do tamanho do Oceano Atlântico.

Jornalista: E o eleitor colocou o cara lá, não é?

Presidente: E o eleitor elegeu os partidos políticos.

Jornalista: Tem uma realidade…

Presidente: Sabe, se amanhã, se amanhã, for eleito o PMDB, for eleito o PSB, for eleito o PSDB, vai precisar fazer quase que a mesma composição, porque esse é o espectro político brasileiro, não é o espectro político do Ciro, do Lula, do Fernando Henrique Cardoso, do Serra ou da Dilma. Não. É o resultado, sabe… você coloca tudo isso em uma frigideira e você vai perceber o seguinte: aqueles são os ovos que a galinha botou, é com eles que você tem que fazer um omelete. Isso vai valer para todo mundo.

Jornalista: O senhor se sentiu incomodado alguma vez por ter que fazer alguma concessão política, Presidente?

Presidente: Nunca, veja, nunca me senti incomodado e nunca fiz concessão política. Eu faço acordo. Eu, no começo do governo… É engraçado, porque uma forma de você evitar que você monte o governo é você ficar dizendo: vai encher de petista, vai colocar… o que, o que eles querem dizer com isso? É para deixar quem estava, ou seja, no fundo, no fundo, a grande tese da preocupação “vai colocar petista”, é porque o PSDB queria que ficassem todos eles que estavam aí, o PFL a mesma coisa. Isso é uma bobagem, Kennedy. Veja, quem vier para cá não conseguirá montar um governo fora da realidade política do país. Se Jesus Cristo viesse para cá e Judas tivesse a votação que teve um partido qualquer, Jesus Cristo teria que chamá-lo para fazer coalizão, porque essa é a composição de forças que tem no Congresso.

Jornalista: Isso é que explica o senhor, por exemplo, ter reatado – digamos assim – politicamente com o Collor? Essa realidade política, Presidente?

Presidente: A minha relação política com o Collor é a relação de um presidente da República com um senador da República, de um partido que faz parte da base. Os senadores do PTB têm votado sistematicamente com o governo.

Jornalista: Agora, do ponto de vista pessoal, isso não incomoda o senhor? O senhor lembra, em 89, que teve aquele debate…

Presidente: Eu acho, veja, eu tive oportunidade de conversar…

Jornalista: Pessoalmente, não dá um aperto no peito do Lula? Não dá?

Presidente: Não, não. Deixe-me falar uma coisa para você. Eu não tenho, já disse para você isso, eu não tenho nenhuma razão para carrregar mágoas ou ressentimentos. Quando um cidadão tem mágoa, só ele sofre. A pessoa que é a razão de ele ter mágoa vive muito bem, e quem tem mágoa está sofrendo. Então, eu aprendi o seguinte, Kennedy: quando você chega à Presidência da República a responsabilidade nas suas costas é de tal envergadura, que você não tem o direito de ser pequeno, você não tem o direito de ser pequeno. Você tem que ter as atitudes que um chefe de Estado tem que ter. Eu fico sempre olhando quando a Alemanha e a França resolveram criar a União Europeia, a grandeza daqueles dirigentes políticos, que ainda com o gosto de sangue de invasão…

Jornalista: Da 2ª Guerra…

Presidente: … da 2ª Guerra Mundial, eles tiveram a grandeza de se sentarem. Eu imagino quando o Stalin foi conversar com o Truman, depois de 20 milhões de russos mortos, para negociar. Esse é o papel de um chefe de Estado, é não permitir que nenhuma querela menor o prejudique.

Jornalista: Presidente, quando houve aquele episódio da Lina Vieira e da Dilma, o senhor cobrou um esclarecimento da Lina, dizendo: “olha, tem que apontar o dia, achar a agenda”. Apareceu a agenda da Lina, data de 9 de outubro. A Dilma e o governo não têm que dar os esclarecimentos que o senhor mesmo cobrou, Presidente?

Presidente: (incompreensível) fantástico. O que eu acho engraçado é que quando se levanta uma tese, essa tese fica sendo martelada todo santo dia para ver se ela vinga. Ora, o governo mesmo disse que tinha encontrado com a … que a Dilma tinha… que a Lina tinha vindo aqui em outubro. Isso fomos nós que dissemos. O que eu acho estranho é que essa moça tenha tirado tantos dias de férias, para depois encontrar sua agenda. Não sei se a mudança dela era tão grande assim. De qualquer forma…

Jornalista: O senhor está satisfeito com as explicações que a ministra Dilma já deu? Ela já disse que o caso está encerrado.

Presidente: Eu não tenho dúvida nenhuma. Também não tenho dúvida de que a Lina deve ser uma grande funcionária pública. Não tenho dúvida nenhuma. Muitas vezes, as pessoas são vítimas de uma palavra a mais ou de uma palavra a menos. E aí, quando as pessoas viram vítimas de utilização política, de mercantilismo político, de… Fulano de tal procura fulano para conversar, as pessoas nunca falam diretamente, é sempre alguém que fala por elas…

Jornalista: O senhor acha que a Lina está sendo usada, é isso?

Presidente: Eu aprendi a não levar essas coisas muito a sério. A dona Lina é dona da sua consciência, a dona Dilma é dona da sua consciência.

Jornalista: Presidente, já são quase, aí, sete anos de governo. Eu sei que o senhor ainda tem um ano pela frente…

Presidente: Um ano e dois meses.

Jornalista: Um ano e dois meses. Agora, olhando um pouco, aí, em perspectiva, qual que o senhor acha que vai ser a fotografia histórica da sua Presidência?

Presidente: Olhe, eu acho que não terá uma fotografia, terão muitas fotografias. Não só da minha pessoa, mas sobre o governo e sobre o Brasil, sobretudo. Eu acho que o Brasil nunca foi tão respeitado no exterior como é agora. O Brasil nunca teve 1% da influência política que ele tem hoje no mundo. O Brasil nunca esteve tão representativo no mundo como está hoje. A economia brasileira nunca esteve tão sólida como está hoje. Os pobres nunca tiveram tanta política social como têm hoje. O movimento sindical brasileiro, os trabalhadores, nunca ganharam tanto aumento real como têm ganho neste governo..

Jornalista: O senhor acha que…

Presidente: E o exercício da democracia nunca foi exercido na sua plenitude. O meu orgulho é que neste Palácio, não nesse aqui… O meu orgulho é que nesse… no meu governo, eu tratei a Conferência do GLPB igual tratei a Conferência dos Catadores de Papel, igual tratei a Conferência dos Empresários, igual tratei a Conferência dos Intelectuais, numa demonstração de que o governo, ele precisa garantir que o Estado seja definitivamente de todos.

Jornalista: Presidente, o senhor acha que o senhor vai ter assento na galeria de grandes presidentes do Brasil?

Presidente: Não sei. Eu não posso pensar nada a longo prazo porque, aos 63 anos de idade, o meu máximo, como dizem os jogadores de futebol, o meu máximo é médio prazo. Veja, eu acho que cada um tem uma história, acho que cada um tem uma história.

Jornalista: FHC vai entrar nessa galeria de grandes presidentes?

Presidente: Não sei. Não sei se eu vou entrar, não sei se ele vai entrar, porque os julgadores serão para o futuro.

Jornalista: Está bom. Popularidade demais faz mal a um presidente?

Presidente: Ô Kennedy, não faz mal, porque eu aprendi, ao longo da minha vida, Kennedy…

Franklin Martins: Chegou?

Jornalista: Não, Franklin.

Presidente: Eu aprendi, ao longo da minha vida…

Jornalista: Eu estou na metade do roteiro ainda.

Presidente: Eu aprendi, ao longo da minha vida, Kennedy, a cair e levantar, cair e levantar. Eu aprendi, sabe, eu fui dirigente sindical importante, daqui a pouco não tinha mais sindicato; eu fui presidente do PT, daqui pouco não era mais presidente do PT; eu perdi três eleições. Então, para mim, a pesquisa, Kennedy, a pesquisa de opinião pública é como se eu estivesse medindo a minha pressão. Se você dormir bem todo dia, e tudo, a pressão vai estar sempre 12 por 7 ou 11 por 7, o que é a minha.

Jornalista: Que beleza, Presidente.

Presidente: E você dorme mal, você vai para 14 por 9.

Jornalista: Deixa eu fazer minha entrevista, Presidente…

Franklin Martins: Não tem, você quer duas horas de entrevista, não tem… é uma hora.

Presidente: Então vamos conversando enquanto há tempo de conversar.

Franklin Martins: Você faz um roteiro desse tamanho para uma entrevista…

Jornalista: Não, mas é porque é o meu Presidente, porque está legal a conversa, não é?

Presidente, quando o Rio foi escolhido para sediar as Olimpíadas – vou ter que pular a metade do roteiro aqui, de coisas legais – para sediar as Olimpíadas de 2016, o senhor disse que aquilo simbolizava a entrada do Brasil no Primeiro Mundo político e econômico, não é? E a gente viu aí, no sábado passado, o episódio de derrubada de um helicóptero lá no… no Rio. Não foi um discurso irrealista e aquele Rio vendido lá, não é um Rio de fantasia, Presidente?

Presidente: Não, pelo contrário, Kennedy. Eu disse que o Brasil tinha conquistado a sua cidadania internacional. Disse e reafirmo. Foi um momento glorioso para este País ter a maior votação que um país já teve nas Olimpíadas. É importante lembrar que a Inglaterra ganhou por dois votos, é importante lembrar que a China ganhou por dois votos e é importante lembrar que nós ganhamos por 40 votos.

Jornalista: Perfeito.

Presidente: Nós fomos mostrar o Rio de Janeiro com a cara do Rio de Janeiro e não foram escondidos os problemas sociais do Rio de Janeiro.

Jornalista: Beleza. O senhor assistiu ao filme “Lula, o filho do Brasil”?

Presidente: Não.

Jornalista: O senhor assistiu? Nem um trailerzinho, nada?

Presidente: Meu amigo, eu estou sendo convidado para ver já… 500 ofertas… bem, eu não quero ver.

Jornalista: Não quer ver… você quer ver na hora certa?

Presidente: Eu quero sentar com a minha família e ver o filme.

Jornalista: Está bom. Presidente, com o financiamento aí de grandes empresários e a ajuda das centrais sindicais para distribuir, não pode ser um instrumento de propaganda personalista o filme, não? De culto à personalidade?

Presidente: Aí, eu não sei o que fazer Kennedy, se isso prevalecer, sabe, eu não sei o que fazer, eu vou entrar em uma redoma de vidro, mandar cobrir e não apareço mais em lugar nenhum.

Jornalista: Está bom.

Presidente: Olha, eu tenho um livro que é público, é público, é de domínio público.

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: O cidadão, o cidadão resolve escrever um livro, a única condição que eu impus ao livro foi a seguinte: não tem dinheiro público.

Franklin Martins: No filme, que o senhor diz…

Presidente: No filme, a única condição… não tem dinheiro público e eu não quero que fale do governo. Do governo, só quando acabar.

Jornalista: Isso, perfeito, respondeu. Presidente, nos seus quase sete anos de governo, e aí a segurança pública é um debate aceso. O secretário da segurança pública do Rio, José Mariano Beltrame, repassou responsabilidades aí para o Governo, disse que a Polícia Federal não combate, não assume a responsabilidade legal no combate à droga lá no Rio, o tráfico a drogas é com a PF. Ou seja, empurrou para o Governo Federal e diz que a PF não cumpre o papel dela.

Presidente: Não é o que disse o governador. O governador contraditou o secretário, o secretário é uma figura da Polícia Federal muito respeitada, muito amiga do Luiz Fernando, ou seja, é que em momento de (incompreensível), em momento de insegurança, as pessoas falam qualquer coisa. Você conversa com o governador para ver a parceria na área de segurança que nós estamos construindo.

Jornalista: Perfeito, respondeu. Presidente, o senhor não teme uma repercussão negativa aí, é, entre os judeus, do encontro do senhor com o Presidente do Irã, o Mahmoud Ahmadinejad?

Presidente: Muito pelo contrário, eu não estou preocupado, sabe, nem com os judeus, nem com os árabes nesse negócio. Eu estou preocupado é com a relação do Estado Brasileiro com o Estado Iraniano. Nós temos uma relação comercial, queremos ter relação política e eu disse ao Presidente Obama, disse ao Presidente Sarkozy, disse à Primeira Ministra Angela Merkel, que a gente não vai trazer o Irã para boas causas, se a gente vai ficar encurralando ele na parede. É preciso criar espaço para conversar.

Jornalista: Perfeito. Presidente, todas as suas ações recentes aí na política externa latina elas foram de contraponto aí a Washington. O Brasil tem que fazer esse contraponto aos Estados Unidos na América Latina, tem que ser um fator de equilíbrio, virar um player que se contrapõe a Washington?

Presidente: Não, eu não quero me opor a Washington. Pelo contrário, pelo contrário. Quando eu propus a criação do Conselho de Defesa e quando eu propus a criação do Conselho de Combate ao Narcotráfico, Kennedy, é porque eu tinha duas coisas na cabeça: primeiro, nós precisamos nos transformar em uma zona de paz, efetivamente. Segundo, é preciso que a gente assuma a responsabilidade, enquanto América do Sul, de combater o narcotráfico, porque aí a gente vai permitir que os países consumidores cuidem dos seus consumidores.

Jornalista: Nesse episódio do Zelaya, Presidente, ele completou um mês lá na Embaixada brasileira, está fazendo política interna, ou seja, de dentro de território brasileiro. O Zelaya não exagerou, não foi longe demais, não?

Presidente: Não, veja, só tem um exagero em Honduras: é o golpista.

Jornalista: Perfeito. Presidente, o senhor não se precipitou ali, ao anunciar a compra de caças franceses, com a FAB ainda analisando o negócio?

Presidente: Veja, primeiro que nós não compramos…

Jornalista: O senhor falou que ia comprar.

Presidente: Não, não, o que nós assumimos foi um compromisso, em uma carta, dizendo que nós iríamos estudar a questão dos aviões franceses. Veja, você tinha uma oferta da Dassault, o presidente Sarkozy fez uma outra carta, dizendo que iria melhorar as condições, agora nós estamos entrando em conversações outra vez. Aí, os americanos já avançaram, já estão oferecendo mais coisas, os suecos estão oferecendo mais coisas. Isso faz parte das negociações.

Jornalista: Queria entrar um pouco em imprensa aqui, Presidente. O senhor disse que a imprensa internacional elogia o Brasil e a imprensa nacional puxa o Brasil para baixo. Nos Estados Unidos, o Obama também apanha da imprensa local, o Sarkozy também apanha. Isso não acontece por que a imprensa local conhece melhor o País?

Presidente: Quisera Deus que fosse verdade. Mas eu estou convencido de que a imprensa nacional conhece melhor o País, até porque tem obrigação de conhecer. Mas às vezes eu vejo o comportamento de algum setor da imprensa muito ideologizado. Eu, Kennedy, você sabe que eu sou amante da democracia e sou amante da liberdade de imprensa. A maior alegria que eu tenho é que os leitores, os telespectadores e os ouvintes são os únicos censores, censuradores, que eu admito para os meios de comunicação.

Jornalista: Claro.

Presidente: Portanto, cada um paga pelo que faz.

Jornalista: Agora, a imprensa brasileira, o papel é fiscalizar o Poder. Isso incomoda sempre um governante. O senhor não está incomodado porque a imprensa está fiscalizando?

Presidente: Não, eu não acho, eu não estou incomodado. Não se preocupe, que…

Jornalista: Diz que tem azia quando lê os jornais…

Presidente: Não se preocupe, que eu nunca fico incomodado.

Jornalista: Mas o senhor falou que tem azia.

Presidente: Eu nunca fico incomodado. Eu acho que o papel da imprensa não é fiscalizar, o papel da imprensa é informar, informar.

Jornalista: O senhor acha que a imprensa não tem que ser fiscal do Poder.

Presidente: Não, eu acho… Para ser fiscal, tem o Tribunal de Contas da União, tem a Corregedoria, tem um monte de coisas. A imprensa tem que ser o grande órgão informador da opinião pública.

Jornalista: Mas o senhor disse que sentia azia…

Presidente: E essa informação, essa informação, pode ser de elogio ao governo, pode ser de denúncia ao governo, pode ser de neutralidade, pode ser de outros assuntos que não seja o governo. A única coisa que eu peço a Deus é que a imprensa informe da forma mais isenta possível. E, aí, as posições políticas sejam colocadas nos editoriais.

Jornalista: Perfeito, respondeu. Presidente, o senhor vai propor aumento da tributação no setor de mineração?

Presidente: Não sou eu que proponho.

Jornalista: O Lobão está defendendo que o governo está estudando…

Presidente: Não sou eu que proponho. Veja, se o Ministro da Fazenda entender que em algum momento tem que fazer isso, ele vai me trazer uma proposta e eu vou avaliar.

Jornalista: Beleza. Presidente, o senhor acha legítimo o governo interferir na gestão de uma empresa privada, como o senhor fez em relação à Vale.

Presidente: Eu não interferi na Vale, ô Kennedy…

Jornalista: O que é isso? O senhor fez críticas públicas…

Presidente: Não, eu não fiz críticas públicas…

Jornalista: Puxou a orelha do Agnelli.

Presidente: Mas vamos ficar claro, vamos ficar claro, vamos ficar claro…

Jornalista: Diga.

Presidente: É preciso para com essa mania de entender que só o presidente da República tem responsabilidade com o Brasil. Os 190 milhões de brasileiros têm e, mais ainda, os empresários têm. E aqueles que receberam mais benefícios do governo, têm mais ainda. Então, o que eu disse ao companheiro Roger, numa reunião nesta mesa – ele estava onde está o Franklin e eu estava aqui – foi pedir para que a Vale do Rio Doce colocasse todo o seu poder de investimento em investimentos internos no Brasil, não apenas na exploração de minério, mas na transformação desse minério em…

Jornalista: Tem envolvimento da questão estratégica também, de explorar recurso não renovável, que a ministra Dilma fica falando (incompreensível).

Presidente: Veja, é que em qualquer país do mundo, ô Kennedy, é assim. Por que a gente taxa o petróleo e não taxa o minério?

Jornalista: Não, perfeito.

Presidente: De qualquer forma, veja, você sabe e os trabalhadores da Vale sabem, o sindicato sabe, do carinho que eu tenho pela Vale, o que ela representa para o Brasil. Eu tenho feito um esforço, em vários países do mundo, tentando ajudar a cavar espaço para que a Vale adentre lá, para que a Vale seja uma empresa multinacional. Agora, não pode acontecer, quando tem um sinal de crise, a Vale ir embora, a Vale mandar o tanto de gente embora que mandou.

Jornalista: Perfeito.

Presidente: O Roger já sabe que houve um equívoco nisso, e a minha relação…

Jornalista: Vocês estão em paz.

Presidente: Sempre estivemos em paz, eu nunca tive problema com o Roger.

Jornalista: Presidente, na fusão da Oi com a Brasil Telecom, o senhor mudou a regra para favorecer um negócio em andamento de um empresário, o Sérgio Andrade, que é seu amigo e contribui para a sua campanha. Foi um benefício privado… um benefício do Estado a um grupo privado. Isso não ultrapassou o limite ético?

Presidente: Primeiro, Kennedy, vocês são engraçadíssimos…

Jornalista: Diga.

Presidente: Porque nós temos uma agência reguladora…

Jornalista: Mas o senhor assinou um decreto mudando a regra.

Presidente: E o governo brasileiro permite que a agência faça a regulação que melhor atenda ao mercado brasileiro. Eu estou convencido, eu estou convencido de que foi correta a decisão do governo.

Jornalista: Perfeito. Presidente, o deputado João Maia, relator do Projeto do Pré-Sal, vai permitir que quem já tem ação da Petrobras com recurso do FGTS possa, no plano de capitalização, usar até 50% do fundo para capitalizar. O senhor, depois, vai ter que sancionar ou vetar. O senhor vai vetar esse negócio ou vai sancionar?

Presidente: Veja, deixa eu lhe falar, isso vai depender do acordo feito. Ontem, eu conversei com o ministro Guido Mantega e disse que eu sou contra o Fundo de Garantia, porque nós estamos em um investimento massivo em saneamento básico e habitação, e a gente não pode descapitalizar o Fundo de Garantia.

Jornalista: Agora, o Fundo de Garantia rende muito pouco, não é, Presidente? E a aplicação na Petrobras foi um dos melhores investimentos para o trabalhador. Não seria importante permitir que um pequeno percentual do Fundo, um ou dois por cento, pudesse ser usado na capitalização (incompreensível)?

Presidente: O problema é que quem paga o Fundo de Garantia são as pessoas que compram as casas, sabe, são as pessoas mais pobres.

Jornalista: Perfeito. Presidente, o senhor se considera um líder de esquerda?

Presidente: Eu não me considero nem líder.

Jornalista: Mas o senhor é um líder, o senhor é um líder político.

Presidente: Não, sério, eu sou um presidente da República. Sabe por quê? Um líder, é o seguinte: quem é que quer que eu seja líder? Eu só posso ser líder de quem quiser ser liderado por mim.

Jornalista: O Brasil (incompreensível)

Presidente: Ninguém pediu para ser liderado por mim.

Jornalista: Presidente, tenho aqui um “pinga-fogo”… Acabou, não é?

Presidente: Acabou.

Jornalista: Não, espera aí. Mas, porra, Presidente, cacete, eu tenho tanto… eu demoro a ver o senhor…

Presidente: É que “pinga-fogo” é muito difícil.

Jornalista: Não, “pinga-fogo” é dois palitos, é fácil.

Franklin Martins: Pinga-fogo, ele fechou.

Presidente: Vamos lá.

Jornalista: Não, não. Tem outra coisa que eu quero falar com o senhor antes. Pinga-fogo: Vale. Companhia Vale do Rio Doce, a Vale.

Presidente: A Vale é uma empresa extraordinária. Acho que a Vale é um pouco a cara do Brasil lá fora.

Jornalista: Roger Agnelli.

Presidente: É um grande executivo.

Jornalista: Eike Batista.

Presidente: É um grande executivo.

Jornalista: Dona Lindu.

Presidente: Olha, junto com a Marisa, são as duas mulheres melhores do mundo.

Jornalista: Senhor Aristides.

Presidente: Eu tenho uma boa lembrança do meu pai. Quando eu era pequeno, eu tinha muita bronca do meu pai, porque ele era muito severo, mas depois que eu fiquei politizado, eu tenho compreensão de porque o meu pai era rude.

Jornalista: Frei Chico.

Presidente: Uma figura excepcional.

Jornalista: A Lourdes.

Presidente: Minha primeira mulher?

Jornalista: Isso.

Presidente: Ah, foi uma figura extraordinária.

Jornalista: Marisa Letícia.

Presidente: Uma figura… A Marisa é uma das responsáveis pelo que eu sou.

Jornalista: José Alencar.

Presidente: O melhor vice do mundo.

Jornalista: José Sarney.

Presidente: Um grande republicano.

Jornalista: Mahmoud Ahmadinejad.

Presidente: Eu não o conheço bem, Kennedy, eu tive uma conversa com ele, quer dizer, eu vou conhecê-lo porque ele vai vir ao Brasil e depois eu vou ao Irã. Aí, depois dessas duas conversas é que eu posso dizer para você.

Jornalista: Perfeito. Obama.

Presidente: Olha, o Obama é uma grande esperança. Eu tenho muita expectativa com relação ao Obama, tenho dito para ele isso. E eu acho que ele está… O primeiro ano é sempre muito difícil. Ele está montando a sua máquina, montando o seu governo. Eu acho que ele vai ser um bem muito grande para os Estados Unidos e para o mundo.

Jornalista: Michele Obama. O senhor a viu, e eu queria a impressão do senhor. Michele Obama

Presidente: É muito simpática.

Jornalista: Sarkozy.

Presidente: Olha, o Sarkozy é um… surpreendentemente, é uma figura extraordinária. A relação do Sarkozy com o Brasil é uma coisa… Já vinha muito boa com o Chirac, e com o Sarkozy ela tem melhorado muito.

Jornalista: Carla Bruni.

Presidente: Eu a conheço pouco, mas sei que é muito bonita.

Jornalista: Cristina Kirchner.

Presidente: Olha, uma grande presidenta. Eu acho que a Cristina, muitas vezes eu fico vendo daqui, eu acho que a Cristina vai terminar fazendo um grande governo na Argentina.

Jornalista: A Michele Bachelet.

Presidente: Michele Bachelet é uma figura muito competente.

Jornalista: Angela Merkel.

Presidente: Olha, a Angela, eu a conheço menos, mas é uma figura séria. Eu acho que a Alemanha está em boas mãos.

Jornalista: Lula.

Presidente: Eu prefiro que você diga o que você acha do Lula.

Jornalista: Eu não, eu sou um jornalista.

Presidente: Veja, eu sempre procuro me comportar, Kennedy, com a maior humildade possível, com… Eu gosto muito de falar com o povo, para que ninguém fale de mim. Eu odeio intermediário entre eu e o povo. Se eu tiver que ser julgado de forma negativa, que seja por mim mesmo; se eu tiver que ser apoiado, que seja por mim. Então, esse negócio de “nego” ficar falando por mim, eu não gosto. É por isso que eu falo muito.

Jornalista: Presidente, como é que está a saúde?

Presidente: Maravilhosamente bem.

Jornalista: O peso, como é que está? Está fazendo alguma dieta agora, ou está sem dieta?

Presidente: Comecei segunda-feira.

Jornalista: É aquela dieta…

Presidente: …a fazer uma dieta. Vou fazer 15 dias duro…

Jornalista: Está com que peso, agora?

Presidente: Não, eu comecei a fazer dieta pelo seguinte: eu estou sentindo a minha roupa ficando apertada, como eu não vou fazer mais nenhum terno novo, que eu tenho muito terno e não vou estragar, quando eu morrer só vou levar um, sabe? Então, eu tenho que emagrecer para utilizar a minha roupa.

Jornalista: Só três perguntinhas aqui… Espera aí, espera aí, é de futebol. Espera aí, espera aí, que é importante, Franklin, deixa eu só achar aqui. Espera aí, espera aí…

Ministro Franklin Martins: Nem você está se achando mais aí.

Jornalista: Pois é. Qual é a escalação do time titular da Seleção brasileira, para 2010, que o Lula faria? Se o senhor tivesse que escalara a Seleção brasileira para disputar a Copa de 2010, hoje, quem seriam os 11 do Lula?

Presidente: Eu vou te contar que não é fácil fazer isso, porque…

Jornalista: Tá, mas aí, então…

Presidente: Porque, de vez em quando, o Dunga convoca um jogador que você nem conhece.

Jornalista: Isso.

Presidente: Agora, a verdade é o seguinte…

Jornalista: Mas escala os 11 aí.

Presidente: É que se o Dunga levar para jogar aquela Seleção, com o espírito que jogou a Copa da Confederação contra os Estados Unidos, já está bom. Para mim, ganhar a Copa ou não é consequência. Agora, para um brasileiro, ver sua Seleção jogar, o que a gente quer é, além de ganhar, é muita raça.

Jornalista: Mas a Seleção, os 11 do Lula?

Presidente: Não, veja, eu não vou escalar a Seleção.

Jornalista: Não vai escalar?

Presidente: Não vou escalar, porque quem sou eu?

Jornalista: Mas levaria o Ronaldo de reserva do Luiz Fabiano, por exemplo?

Presidente: Não, veja, eu tive uma conversa com o Ronaldo, eu disse para o Ronaldo: Ronaldo, eu, se fosse você, estabelecia como estratégia da minha vida me preparar para ser convocado.
E depende só dele. O Luiz Fabiano está excepcional, não tenho dúvida que ele será o titular. Eu não vejo perspectiva de surgir alguém melhor do que o Luiz Fabiano, até 2010.

Jornalista: No gol é o Júlio César.

Presidente: Agora, o Ronaldão é sempre o Ronaldão, é sempre o Ronaldão.

Jornalista: Lula levaria o Ronaldão em forma, ele levaria, para ter uma reserva?

Presidente: Não, depende…

Jornalista: Se ele estiver em forma?

Presidente: Não, veja, depende… O Dunga tem razão em uma coisa. O Dunga falou: “Olhe, será convocado para a Seleção quem estiver apto a jogar na Seleção, quem estiver bom no momento”. Essa é uma coisa extraordinária que o Dunga decidiu. Então, eu gosto dessa… Mas, obviamente que o Júlio César, sabe…

Jornalista: Tem lugar garantido?

Presidente: Se não acontecer nada, tem vaga garantida. O Maicon tem vaga garantida. O Lúcio, eu acho um jogador excepcional, o Lúcio. Tem vaga garantida, o Lúcio tem vaga garantida.

Jornalista: Ruan.

Presidente: Eu acho que o Ruan tem vaga garantida. Acho que aquele menino que veio…

Jornalista: Felipe Melo tem?

Presidente: Felipe Melo, se continuar jogando o que vinha jogando, tem vaga garantida.

Jornalista: Elano, tem?

Presidente: Eu acho que o Kaká tem vaga garantida.

Jornalista: O Kaká.

Presidente: Eu acho que o Robinho tem vaga garantida.

Jornalista: Ah, o Robinho tem, mesmo jogando…

Presidente: Eu acho que tem, eu acho que tem, porque o Robinho é uma figura que é o seguinte: às vezes o cara é convocado porque o técnico tem uma certa afinidade com a pessoa que cumpre as tarefas do técnico. E o Robinho é aquele moleque de explosão. Tem dia que a gente fica nervoso porque ele não faz nada e tem dia que ele faz, lá, uma “motocicleta”, nem bicicleta não é, e marca um gol espetacular.

Jornalista: E o André e o Daniel Alves, ali, como é que o senhor ajeitaria a lateral?

Presidente: Eu acho que o André, se continuar jogando, tem todas as condições de ir, e acho que o Daniel Alves também tem condições de ir.

Jornalista: E o Nilmar, está no grupo também?

Presidente: Eu, se fosse técnico, levaria o Nilmar. Eu tenho que convocar 22, eu só vou colocar 11 no campo, eu teria o Nilmar. Porque o Nilmar é um moleque de uma explosão extraordinária, sabe, ele é muito esperto, ele é muito ligeiro. Eu, sinceramente, daria uma…

Jornalista: O Gilberto Silva está no time do senhor também?

Presidente: Eu não sei com quantos anos está o Gilberto Silva. Mas o que eu sinto, pela televisão, é que o Gilberto Silva é uma das figuras de confiança do Dunga. E você sabe que o técnico trabalha assim. Talvez porque o Dunga tenha sofrido isso na pele. A gente não pode esquecer que, em 1990, o Dunga foi demonizado, como o fracasso da seleção. Mas todo técnico gostava do Dunga, porque ele trabalhava, ele é “casca de ferida”.

Jornalista: O senhor avalia bem a gestão do Dunga?

Presidente: E em 94 ele sai como herói.

Jornalista: O senhor avalia bem?

Presidente: Avalio bem. Não, o saldo do Dunga é excepcional. Se você imaginar… o jeito que ele está dirigindo é excepcional. Ele ganhou coisas que a gente pensava que ele não ia ganhar. A Copa América, por exemplo, na Venezuela, aquele jogo que a Argentina…

Jornalista: Agora, joga feio, tem umas partidas que ele joga muito feio. Essas duas últimas partidas, Presidente, aí, contra Paraguai e Bolívia, pô!

Presidente: É, mas veja…

Gilberto Carvalho: Venezuela.

Jornalista: Venezuela.

Presidente: Jogou bem contra a Venezuela. Jogou bem. Não marcou gol, pelo menos aquele último, do Kaká, deveria ter entrado. E contra a Bolívia, realmente, eu não sei se é o clima mesmo, mas ele não jogou bem, não, aí não jogou bem…

Jornalista: Quem vai ser campeão brasileiro?

Presidente: E também jogou com muitos jogadores reservas.

Jornalista: Quem vai ganhar o Campeonato Brasileiro?

Presidente: Olha, eu não acredito mais que o Corinthians tenha chance de ganhar. Eu acho que a disputa está entre Palmeiras, São Paulo e Atlético Mineiro.

Jornalista: E o Santos, numa arrancada, ali?

Presidente: Não, o Santos não dá também, não. Nem para o Santos, nem para o Corinthians. Agora, o Flamengo está despontando de forma extraordinária…

Jornalista: Pode… Estão no jogo, esses quatro aí.

Presidente: Pode, eu acho.

Jornalista: Está bom.

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