Sei lá se é…

Voltaria a seu país e debelaria a insurreição “sem derramar uma gota de sangue”. De fato assim procedeu: mandou executar todos os rebelados na forca.

 Certo dia, Marcus Garvey (1887-1940), criador do movimento Pan-africanista, teve um sonho, uma visão: a Africa seria livre e unida no dia que um negro fosse coroado rei.

Não demora muito e Ras Tafari Makonnen (1892-1975), o Negus, sobe ao trono na Etiópia (em 1930) e se auto-intitula Sua Majestade Imperial, Imperador Hailê Selassiê, Eleito de Deus, Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, Leão Conquistador da Tribo de Judá, descendente do Rei Salomão e da Rainha de Sabá.

Talvez por conta de toda essa mística, surge na Jamaica um movimento de inspiração religiosa chamado rastafarianismo, que considera Selassiê um deus vivo. Esse movimento ganha visibilidade devido a sua divulgação por um ícone da música internacional, o cantor Bob Marley.

Peculiaridades do rastafarianismo são o culto à ganja (maconha) e seus adeptos não cortarem os cabelos, por inspiração bíblica: “não cortareis o cabelo, arredondando os cantos da vossa cabeça, nem danificareis as extremidades da tua barba (Levítico 19: 27).

No Primeiro Império de Selassiê a Etiópia se tornou centro de um dos episódios que desencadearam a II Guerra Mundial: Benito Mussolini (Itália) invade aquele país africano – com o Papa em Roma abençoando os tanques de guerra – e destitui o Negus, que foge para o exílio na Inglaterra.

Retorna ao trono com a derrota do Eixo e, a partir daí até ser deposto por um golpe militar de inspiração marxista em 1974, Selassiê vai governar com mão de ferro o seu país, e esmaga violentamente qualquer contestação ao seu poder absoluto.

O seu longo governo é marcado por tentativas de golpes de Estado (seguidos de dura repressão), corrupção e grande fome que dizima parte da população da Etiópia e Eritréia.

Uma das tentativas de golpe de Estado contra Selassiê o surpreendeu em visita diplomática ao Brasil, no governo de Juscelino Kubitschek, em 1960, na recém-costruída Brasília.

Como de hábito dos tiranos terceiro-mundistas em visita a países estrangeiros, o seu séquito era gigantesco, desproporcional à finalidade da visita.

Com o rei deposto, um problema surge para o governo brasileiro. Quanto tempo demoraria o imbróglio? Como pagar o elevado custo de tantos “exilados políticos” em estadia nababesca na capital da República? Como responder as críticas da oposição?

Houve resistência ao golpe, por parte dos partidários do imperador. Alívio para o governo brasileiro foi quando o rei resolveu voltar para liderar a reação.

Preocupado com os direitos humanos, o embaixador Edmundo Barbosa da Silva, secretário-geral do Itamaraty, pediu tratamento humanitário aos golpistas. Ouviu de Negus a garantia de que voltaria a seu país e debelaria a insurreição “sem derramar uma gota de sangue”. De fato assim procedeu: mandou executar todos os rebelados na forca.

Porém, espirituosa entrevista havia ocorrido anteriormente no Palácio do Planalto entre um desesperançado presidente Juscelino e o seu ministro de Relações Exteriores, Macedo Soares, quando o ministro questiona o presidente:

– Presidente, será que o rei (Selassiê) ainda é rei?

Juscelino responde, fazendo um divertido trocadilho:

– Sei lá se é…

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Perfil do Autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]