Brasil x Chile. O gol do absurdo

Protesto indignado do correspondente futebolístico deste modesto blog, Mario Jorge Carneiro Duarte Bomfim, diretamente do front.

Sou Mario Jorge Bomfim, baiano, nascido em Riachão do Jacuípe e soteropolitano por vivência, mas poderia ser também o José, o Pedro, a Érica, a Camila, ou qualquer um daqueles cidadãos que compartilharam comigo momentos de revolta na imensa fila no Shopping Barra a espera do ingresso para o jogo da nossa seleção contra o Chile, no dia 9 do próximo mês, aqui em Salvador.

Antes de relatar exatamente o que aconteceu, devo confessar que escrevo como alguém que encontra-se emocionalmente abalado após 9 horas numa fila, sob chuva forte e promessas de ingresso dadas por funcionários do Shopping Barra e funcionários que estampavam em suas camisas laranjas “futebol card”.  A revolta foi tanta que por algum momento desejei ter em minhas mãos algo que me fizesse sentir tão poderoso quanto aqueles policiais que me encaravam enquanto esbravejava, pouco antes de deixar o shopping. Mas pensando bem, quem disse que não tenho? Eu tenho a palavra e o desejo de que este manifesto possa ecoar e impulsionar novos desabafos, seja relacionado a este caso especifico ou para qualquer tipo de denuncia. Precisamos exercitar o hábito da cidadania e denunciar nossas mazelas faz parte disto.

De 15h do presente dia (30 de agosto de 2009) até às 23h, do mesmo dia, encontrei-me na imensa fila que se formou em frente ao Shopping Barra esperando ansioso para comprar o ingresso do jogo da seleção brasileira. Durante a maior parte do tempo, o sorriso foi uma constante na face de todos aqueles que esperavam, sendo que nem a forte chuva foi capaz de nos abalar. Fora isso, o fato de funcionários do Shopping Barra e do Futebol Card terem GARANTIDO que haveria ingresso para todos nós, nos deixava tranqüilos e ansiosos por tal momento.

Mas o tempo foi passando e com ele a alegria. Era perceptível nos rostos de cada um os sinais de cansaço, frio, devido aos corpos molhados pela chuva e até mesmo fome, já que estávamos desde cedoem pé. O claro do dia logo deu lugar à escuridão da noite e com isso vieram também os medos. Medo de ficar na porta do shopping e ser assaltado, uma vez que TODOS aqueles que estavam na fila encontravam-se endinheirados na esperança de comprar seus ingressos e, logicamente, o medo de ficar sem ingresso após horas de ansiedade e expectativa.

Infelizmente, pelo menos para nós que estávamos a espera de um ingresso, o resultado desta história não foi o esperado. Digo isso, porque para aqueles que se propuseram a lucrar com o evento, o resultado foi o melhor possível. O shopping Barra deve ter recebido seu maior público nos últimos anos, gozando ainda de sentir no bolso o quão lucrativo é ceder espaço para venda de ingressos de um evento do porte que é um jogo de eliminatórias para a copa do mundo. Quase que em sua totalidade, todos aqueles que foram lá comprar o ingresso consumiram nas dependências do estabelecimento. Do outro lado estava a empresa responsável pela venda do ingresso que conseguiu esgotar em menos de 12h a enorme quantia de pouco mais de 30 mil bilhetes. Que competência!

E foi com esta mesma competência que eles conseguiram que pouco mais de 140 pessoas que ficaram nas dependências do Shopping Barra ficassem consumindo até o horário de funcionamento do shopping e esperando pacientemente que a sua vez chegasse, para enfim tomar posse do alvo desejado. Sim, pacientemente. Não houve se quer uma manifestação de hostilidade até o momento em que de forma inescrupulosa mandaram avisar que os ingressos haviam sido esgotados.

“Como esgotados?” Me perguntei. “Não haviam nos dito que teríamos nossos ingressos?” e neste momento, remeto-me à aquela fala inicial onde desejei ter meios para me tornar mais “potente” naquela situação. O estado de insatisfação iniciou-se. Gritos de “o povo unido jamais será vencido” e de “Queremos ingresso” foram as falas mais gentis que conseguiam sair de cada um de nós que estávamos lá.

Justificativas até houveram, mas nenhuma realmente convincente ou pouco contraditória. A verdade é que a cada palavra dita pelos representantes oficiais do evento contradiziam as falas deles mesmos de horas atrás. Era uma tentativa de se explicar ou inexplicável. Tentativas de discursos arranjados e erguidos sobre falsas morais e totalmente inescrupulosos, por tentar ludibriar cidadãos de bem e honestos que estavam ali a espera de comprar, a preço não barato, o ingresso para ver o seu país jogar.

Senti por diversas vezes a sensação de que eles subestimavam a inteligência do povo que estava ali. “Aqui é a Bahia! Terra de ignorantes gentis”. Mas não é assim. Sabemos claramente que houve uma tentativa de manipulação de uma verdade, principalmente quando utilizaram o argumento de que haviam dito existir “uma estimativa de ingressos que podiam ou não abranger quem estava ali” quando na verdade eles disseram, e aí provas não faltam, de que haveria sim ingressos para todos, tanto que eles delimitaram o tamanho da fila. Foi um ABSURDO o que aconteceu nas dependências daquele shopping.

Depois, grande parte daqueles que estavam ali esperando, foram para o ponto de ônibus da Av. Centenário com no mínimo 100 reais em seus bolsos e outros 100 motivos de preocupação até chegar em casa, devido a insegurança das ruas de Salvador. Eu e outros tantos, neste momento tentamos esfriar nossas cabeças e criar coragem para enfrentar o dia de amanhã, como fazem as pessoas de carne e osso desta cidade, diferentemente daquela gente FALSA que dorme em fios de seda, esperando o nascer do sol para ganhar cada vez mais com a boa vontade do povo.

Mario Jorge Carneiro Duarte Bomfim

Fonte: Mario Jorge Carneiro Duarte Bomfim.

Compartilhe e Comente

Redes sociais do JGB

Publicidade

Publicidade

Faça uma doação ao JGB

Perfil do Autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]