1979 foi o ano que não terminou

Os movimentos sociais ganharam destaque e visibilidade. Já se articulava aquele que viria a ser o Partido dos Trabalhadores; Brizola voltava do exílio para governar o Rio de Janeiro.

O escritor Zuenir Ventura é autor de um célebre livro “1968. O ano que não terminou”. Porém, para a minha geração, o ano que não terminou é outro, e está datado uma década depois: 1979 é de fato o ano que não terminou.

Dois marcos legais-institucionais assinalaram este agitado ano: a Lei da Anistia, promulgada em 28 de agosto; e a lei de reformulação partidária, de 20 de dezembro.

Para a oposição radicalizada havia a suspeita desta ser uma anistia restrita e limitada. Não foi assim, a Lei da Anistia não se restringiu a libertação dos presos políticos remanescentes nem ao retorno dos exilados políticos.

O que se viu no Brasil a partir de então, impulsionado também pela extinção doAI-5 (Ato Institucional nº 5) em dezembro do ano anterior (1978) foi um desabrochar de cem flores que ansiosamente esperavam a luz do sol da liberdade.

No âmbito acadêmico e cultural se viveu uma efervescência embalada por um boom editorial – fim da censura – e o crescimento da chamada “imprensa alternativa”.

Os movimentos sociais que, no vocabulário da época, eram chamados de movimentos “de minorias” ganharam destaque e visibilidade, começando a acontecer ruidosamente uma revolução comportamental, estancada por uma década devido à imposição autoritária do famigerado AI-5, em dezembro de 1968

Movimento negro, movimento das mulheres, movimento ambientalista, movimento gay etc. se destacaram no cenário político e social brasileiro, ao lado da retomada do movimento operário e camponês.  Já se articulava aquele que viria a ser o Partido dos Trabalhadores; Brizola voltava do exílio para governar o Rio de Janeiro.

Fernando Gabeira chegou dando prolixas entrevistas com ânsia de informar o que era moderno na sua Europa modelo. O que vai merecer um mordaz comentário do alterego do Brasil, Caetano Veloso: ele quer nos ensinar coisas que já sabemos…

Na música, Gilberto Gil bradava: “realce, realce, quanto mais purpurina melhor!”, sem sofrer patrulha ideológica por não fazer canção de protesto.

Nos Divertíamos à beça nas apoteóticas festas no Restaurante Universitário do Corredor da Vitória (UFBA). No peito batia o coração bobo bobo bobo. Tempo de amores e paixões no verão permanente da Bahia.

Por que 1979 foi o ano que não terminou?

Seguido a esta efervescência cultural-comportamental e o desejo por democracia e liberdade se seguiram momentos de muito baixo-astral… que cismam em não nos abandonar.

Exemplos? A derrota do movimento pelas diretas já em 1983; a ascensão ao poder do José Sarney (1985) e seus planos econômicos mirabolantes que aumentou a fome e miséria de milhões de brasileiros; a eleição do suspeitíssimo Collor de Melo e o desmonte do Estado nacional; os crimes lesa-pátria do governo FHC; o escândalo do mensalão do PT no poder; a cueca do familiar do deputado José Genuíno; a permanente ameaça do retorno do camarada (lá deles) José Dirceu à vida pública…

O consolo é nos contentar com a máxima socrática de que “a pior das democracias é melhor que a melhor das ditaduras”.

Todavia é pouco para quem sempre quis muito, mesmo que parecesse ser modesto.

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Perfil do Autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]